
Quando cheguei ao meu lugar, ela já estava sentada na
poltrona ao lado. Sorriu. O cabelo curto e branco mostrava um cuidado especial.
Atrás dos óculos, olhos vivos. Vestia um conjunto bege claro e uma blusa branca
com detalhes de renda. Pediu desculpas se ocupasse o braço da cadeira. Era
distraída e poderia invadir o espaço. Rimos quando lhe disse que esse espaço já
era antecipadamente só dela.
Outras aberturas se seguiram. Ela estava um tanto inquieta.
Puxou conversa. Fazia sessenta e quatro anos que tinha esperado para assistir a
Cármen ao vivo. Como?, perguntei. E o relato que se seguiu me mostrou um pedaço
de sua vida.
Aos catorze anos, ouvira pela primeira vez essa obra, junto
à família de origem italiana que já contava com repertório operístico. Desde
então, não conseguiu assisti-la ao vivo. Na memória, restaram aquela primeira audiência
e muitas outras em forma de DVD, pelo cinema e TV.
Depois, ao longo dos quatro atos da história de paixão e tragédia,
pude ouvir outros comentários. Sabendo de cor as sequências, às vezes ela me
punha a par da ária especial a ser cantada em seguida assim como me dizia antecipadamente
versos significativos em francês. Havia
brilho e alegria em sua voz.
Esse conhecimento anterior não diminuíra o prazer de ouvir a
mesma música outra vez. Tratava-se da arte maior que não se esgota no tempo da
fruição. Fui testemunha desse momento em que houve a realização de um sonho de
adolescência. Havia outra questão: a
permanência e o tempo de espera que justificavam a ansiedade passível de ser
observada.
Percebi então, que não me importavam mais as luminárias de
bronze ou as pinturas laterais com belas formas coloridas a voar. Nos
intervalos, eu passava meu olhar pelo burburinho dos grupos, pelas pessoas andando
nos corredores. O desejo de um café desaparecera.
Percorria os espaços sem ver, pois estava impregnada pelo
peso do tempo que mantivera o sonho aceso. Seis décadas se alinhando
pacientemente até chegar o momento presente.

Foi assim que assisti a ópera como se fosse minha primeira
vez. Desvendei suas árias e movimentações a partir de olhos que tinham sustentado
sessenta anos de espera, sem estar cansados. Sem levar em conta todas as
possíveis pedras no meio do caminho. Uma adolescente guardada por muito tempo
acordava nesse momento.
Seu filho a esperava na porta do teatro. Nos olhos curiosos
parecia querer adivinhar o que teria acontecido ao me ver junto dela. Tínhamos
sorrisos nos lábios. Nesse momento, ela me agradeceu.
Ela talvez não pudesse entender que era eu a pessoa que tinha
muito a agradecer.