Sabe aquela sensação de pressão típica de um trânsito de Saturno? Há um
bom exemplo dela no filme DOIS DIAS E UMA NOITE, dos irmãos Dardenne, com
Marion Cotillard (indicada ao Oscar de melhor atriz 2014) no papel principal.
Ela vive uma personagem à beira de perder o emprego em meio a uma situação que contrapõe
individualismo e solidariedade.
COMO UM TRÂNSITO DE SATURNO
O filme começa descrevendo uma personagem deprimida e em crise
profissional. Pensei comigo: acho que vai ser difícil assistir a
esse filme até o fim.
A personagem principal está recém-saída de um tratamento e ao voltar ao
trabalho, vê-se na situação crítica de ser demitida ou ver seus dezesseis
colegas de turma na empresa perderem um bônus de mil euros.
Depois de uma votação em que houve tentativa mudança de votos mediante
argumentos mentirosos, ela consegue uma segunda chance. Tem então um final de
semana (dois dias e uma noite) para mudar o voto dos colegas a seu favor.
Começa a tarefa saturnina de conseguir o voto dos colegas a seu favor. Mas
como pedir para eles abrirem mão de uma quantia tão interessante em favor da
manutenção de seu lugar?
Ela não tem o entusiasmo nem a energia física suficiente para encarar
todo tipo de respostas possíveis. Mas, conta com a ajuda do marido que a
estimula a conseguir o que quer.

As situações são diversas e isso faz a graça da história. Cada um dos oito votos conquistados apresenta algo de novo e inesperado.
Ao longo desse tempo de luta contra a própria desesperança, ela vai
arrebanhando uma visão maior de sua tarefa. Aos poucos ganha parceiros, energia
para uma sessão de rock no carro e um sorriso que só aparece quando ela já está
no final do seu prazo de um final de semana.
O final surpreende. Ela perde. Um empate dos votos de seus colegas a deixa sem seu emprego.
Aceita o resultado da votação e se dispõe a deixar o local de trabalho. É tarefa
cumprida com sensação de calma. Mas ainda tem uma situação importante a viver.
Aceitar ou não aceitar a proposta (indecente) do responsável por sua
contratação ou demissão? Não aceita. Mas, ela sai da empresa sorrindo e com
passos firmes. Por que motivo? O que
ocorreu?
Foi uma decisão dela, para desempatar a votação de seus colegas. Tal
atitude finalizou seu trabalho saturnino com chave de ouro: uma decisão pessoal
com energia e recursos conquistados ao longo dos dois dias e uma noite.
A DÁDIVA DE SATURNO
Esse filme é um exemplo do trânsito de Saturno. Uma tarefa difícil,
lenta e pesada que pode, às vezes, nos deixar exaustos. Mas ao final, se
estivermos com tudo nos eixos da moral e da justiça, haverá uma dádiva.
A personagem não titubeia quando abre mão daquilo por que tinha lutado o
tempo todo. Ela sabe que optou pelo que devia e isso a faz forte. Abre em seu
rosto um sorriso e competência em seu corpo, antes frágil.
Ela estabeleceu novo vínculo com o marido, baseado na confiança em si
mesma e nas palavras que ele lhe diz. Ganhou amigos. Percebeu melhor as
relações com o grupo.
"O futuro está à frente com muitos problemas e ela está madura para dar conta deles.A força veio de uma percepção que as coisas estão colocadas por ela como devem ser: em acordo com as regras (Saturno em Capricórnio) e em ordem com equilíbrio e justiça (Saturno em exaltação em Libra)."
A
personagem se transforma ao longo da narrativa. Vai angariando forças e
percebendo sentido na sua busca. Ganhar o posto e a votação não é mais
importante do que a noção de força pessoal que tem dentro de si. Ela perdeu seu
emprego, mas ganhou em outros níveis de experiência.
Saturno é
bom pai. Ele cobra e dá para cada um segundo o seu mérito. Pelo menos nesse
filme foi assim a história.
Sabemos
que nem sempre o trânsito de Saturno ocorre assim. Vai depender de aspectos
individuais e do contexto social da pessoa que passa por ele. Mas aí estão
alguns aspectos basilares: a sensação de dificuldade, o esforço necessário, a
demora, as conquistas que aos poucos vão fazendo sentido, os acordos éticos
implicados, a sensação final de missão cumprida.
O filme é
inspirador e um exemplo de como se pode viver um trânsito de Saturno, mesmo que
a lógica comum tenha dificuldade de entender. Vale a pena!