
MUDANÇAS
Cansada
de carro e de trânsito congestionado, há cerca de três anos eu comecei a andar
de ônibus. Vários motivos foram se acumulando e aos poucos passei a observar o
transporte público com mais simpatia. Menos tempo em imensos congestionamentos
naquelas vias em que isso se repete ad eternum, mais movimento para minhas pernas
que sinto mais fortes, menos gastos abusivos em estacionamentos, uma
colaboração para a diminuição de monóxido de carbono no ar coletivo.
Como
se tudo isso não bastasse, descobri outra cidade e outra população. Fiquei mais
próxima de muitas histórias que se contaram perante meus olhos. E conheci um
blog de gente que defende uma forma de pensar mais contemporânea. Por exemplo,
como quebrar paradigmas comportamentais e preconceitos a fim de gerar uma
cidade mais humana? Simpático, não é mesmo? E há números a corroborar essa
questão. Vamos a eles.
PRO
COLETIVO
Dados
estatísticos mostram números assustadores por prejuízos no tempo perdido nos
deslocamentos, por efeitos da poluição na saúde pública e por mortes no
trânsito. A substituição por outras formas de mobilidade como o transporte
público, o pedestrianismo e o ciclismo, podem mudar esses números, evitando
desastres e tornando a cidade mais gentil e possivelmente, mais humana.

Bonitas
palavras, tudo isso parece tão sensato e fácil. Mas não é. Mudar hábitos e
cultura demandam tempo, pois, o desenvolvimento de tais mudanças só poderá
acontecer junto a uma nova consciência a respeito desses assuntos. A noção do
que o coletivo é boa alternativa ainda não está tão clara para nossa sociedade.
Daí a necessidade do trabalho do PRO COLETIVO e de pessoas que possam colaborar
na disseminação dessa cultura em uma ação conjunta pelo bem de todos.
Há
uma frase que sintetiza o que há por ser feito: “País rico não é aquele em que
pobre anda de carro, é aquele em que o rico anda de transporte público”. Quando
poderemos dizer que temos essa riqueza social mais perto de nós?
Argumentos
contra esse hábito a favor do transporte público são, entre outros, a
questionável segurança pública e o mal estado das calçadas. Mas, sempre teremos
argumentos contra. Como otimizar os argumentos a favor dessa cidade mais
humanitária?
MEUS CAMINHOS PELA CIDADE
Na
história de como surgiram as cidades, Lima de Freitas, artista e pensador
português (1927-1998) nos diz que “Invertendo sua primitiva função de
dispositivo de proteção, que concentrava e fazia convergir os esforços do clã,
garantindo a vida comunitária, a cidade ressuscita a figura tenebrosa do
Minotauro, devorador de homens.”
Sem
dúvida, concordamos com ele. A urbe ganhou complexidade descomunal que não tem
piedade de nós. Somos todos cúmplices dessa sensação de sermos devorados.
Minotauros nos espreitam a cada esquina.

Uma
cidade é espaço público, diz o pesquisador Jordi Borja, geógrafo e urbanista espanhol.
“O espaço público é também, e antes de tudo, espaço de uso coletivo, livre,
heterogêneo, multifuncional, de convivência, integrador, carregado de sentido,
de memórias, de identidade. Proporciona bens e serviços aos cidadãos e permite
promover a redistribuição social mediante formas de salário indireto. No espaço
público os cidadãos se reconhecem mutuamente como tal, sujeitos a direitos,
livres e iguais. Neste espaço afirma-se, por sua vez, a individualidade de cada
um e a existência de uma comunidade de pessoas que mantém os laços solidários e
valores contraditórios. O espaço público é o âmbito de expressão política, a
favor ou contra os podere s existentes”.
Ou
seja, uma nova concepção urbana é possível. Não mais o labirinto. Resisto a ser
devorada por formas de medo sutis e outras nem tanto.
Surge
pouco a pouco uma nova perspectiva de espaço público a ser partilhado e ocupado
por postura política e social em que podemos ser capazes de novas funções. Há
um discurso que aposta nessa recomposição da urbe, que pode ser lida como
espaço a ser partilhado na diversidade e multiplicidade. Riqueza a ser cuidada.
De
forma não muito clara, eu também acreditei nisso quando comecei a deixar o
carro pelo ônibus. E essa atitude foi apenas o começo de algo surpreendente.
Descobri desde então outros caminhos e uma nova convivência com gente com que
dificilmente eu entraria em contato. Agradeço essa oportunidade que me foi dada
pelas circunstâncias de estar em outros veículos de transporte. Me vejo diante
de situações inusitadas, engraçadas, tensas. Me sinto parte de uma
coletividade, compondo uma identidade grupal. Me alimento de significados
imprevistos em meio a um convívio que integra, amplia, apaixona. Talvez isso
seja uma espécie particular de cidadania.

Enquanto
isso, nessas andanças por coletivos, perco-me nesta cidade tão minha com
distração e reflexões, momentos de poesia, às vezes dúvidas, muita paixão e
amor.
Mas, além de me perder, por efeito
generoso da mesma urbe labiríntica, sinto que ela é também mandala a me
emprestar terreno e consciência, a me dar direções e imagens de mim. Nela, sou
mais do que eu mesma, em ritual de pertencimento sou manifestação espacial de
um imenso coletivo.