Rever a História não é raro no cinema, mas
há várias maneiras de abordá-la. O que selecionar? Como contar a história? Esse
é o cerne do trabalho do diretor de cinema e de sua equipe. Em ESTRELAS ALÉM DO
TEMPO, o diretor Theodore Melfi fez escolhas interessantes ao juntar as
histórias de três amigas que trabalham nos setores internos da NASA. O que as
torna significativas nesse espaço tão técnico e masculino?
MULHERES
NA NASA
O filme ESTRELAS ALÉM DO TEMPO
reúne uma coleção de bons atores nos papéis de Al Harrison (Kevin Costner),
Katherine (Taraji P. Henson), Mary (Janelle Monáe) e Dorothy (Octavia Spencer)
que se juntam a uma excelente trilha sonora de Hans Zimmer.
O diretor elabora a narrativa
de forma a não podermos tirar os olhos da tela enquanto vamos acompanhando as
três mulheres contornando as dificuldades em um momento essencial de suas
carreiras.
A vida das três amigas que
trabalham na NASA pela excelência de suas competências não é fácil. Suas
dificuldades como mulheres e negras não são desconhecidas para nós. A maneira
como elas superam esses entraves faz a graça desse filme. Então, identificamos
situações de preconceito, humilhação, falta de reconhecimento, salários baixos
e mais humilhação. Haja humilhação! Banheiros exclusivos para “mulheres de
cor"!
Elas estiveram presentes nos
projetos daquele importante momento da corrida espacial que levou o astronauta John
Glenn a ser o primeiro homem a orbitar a Terra. Participaram do lançamento da
cápsula Friendship 7 da missão Mercury-Atlas 6, fundamental para a chegada do
homem à lua. Foi uma reviravolta no programa espacial americano.
Kevin Costner é o exigente,
rigoroso e atento Al Harrison, chefe da NASA. Nunca imaginei que alguém com
essa posição de hierarquia pudesse ter postura diferente, tendo em vista as
metas americanas na corrida ao espaço.
Mais perto dele, encontramos
Katherine que é um gênio da matemática, que se descobriu com essa habilidade
quando ainda era criança. Fazer cálculos e elaborar fórmulas pode fazer muito
sentido na vida de alguém. Se nunca tivemos simpatia pela matemática, a partir
de sua paixão e entrega, isso se tornará possível.
Em outro setor, Mary sonha em
ser uma das engenheiras da NASA, ainda que para isso tenha que passar pelo
obstáculo de frequentar uma faculdade por ser negra e mulher. A terceira amiga,
Dorothy, tem que se haver com uma chefe que não facilita seus caminhos. Ela
exerce as funções de supervisora sem ganhar por isso, cumprindo as tarefas
desse cargo.
Embora apresente alguns
aspectos de cinematografia convencional, esse filme tem um roteiro inteligente,
já que mescla tais histórias individuais a um contexto especial. E nos vemos
envolvidos na competição com os russos na corrida espacial no momento em que
essa competição é acirrada pela presença de Yuri Gagarin, em 1961. Sorrimos com
a dúvida a respeito da presença de espiões entre aquelas mulheres e nos
emocionamos com as palavras de John F.Kennedy. E estamos na companhia dos
astronautas! Torcemos pelas conquistas das três cientistas.
O que mais temos a falar desse filme?
O que mais temos a falar desse filme?
UM SALTO ALÉM DE SI MESMO
O filme baseado no livro não-ficção HIDDEN FIGURES de Margot Lee
Shetterly segundo as resenhas disserta “sobre o preconceito na época da corrida
espacial, com o foco em três grandes mulheres negras que ajudaram a mudar o
rumo das descobertas norte americanas nesse período”.
Analisando a diferença entre o título original do filme (Hidden
Figures) e a tradução em português podemos apostar que o título em inglês
descreve melhor as intenções da escritora Margot, mostrando figuras que
trabalharam nos projetos da NASA, contribuindo silenciosas e escondidas.
Foram realmente personagens desconhecidas e alavancadas de seu
canto pela escritora que conviveu com esse ambiente descrito, sendo assim
passadas para a História por seus talentos e conquistas.
Dorothy foi chefe do setor da West Area Computers, uma equipe
feminina e negra, responsável por cálculos matemáticos. Quando ela percebeu a
chegada do primeiro computador da IBM a ser usado pela NASA e que a existência
de sua equipe estava em perigo, antecipou-se. Ela estuda, então, a linguagem de
programação Fortran, entra na sala do computador recém instalado e que ninguém
sabia como manejar. Quando o coloca em funcionamento, mostrou para que serve a
coragem e a iniciativa na vida de alguém.
Mary consegue falar com o juiz que deve decidir pela sua presença
no curso de engenharia. Antecipa-se e constrói uma argumentação que ele só pode
aceitar.
Por sua vez, Katherine é chamada pelo próprio astronauta para
verificar os cálculos do computador. John Glenn, inseguro de subir na nave que
o levaria aos céus, requer a presença da mulher “mais esperta” (the smart
one!). Depois que ela ratificou os cálculos, ele seguiu seu planejamento. Todos
tiveram que esperar que ela fizesse o que mais sabia.
Cada uma no departamento em que estavam locadas extrapolaram
naquilo que era esperado delas. Seus desejos eram maiores que as regras
estabelecidas no contexto em que viviam. Sua persistência as fez expressar o
melhor de si mesmas. Cada uma a seu jeito: com argumentação adequada ou com
muita paciência e resiliência, ou simplesmente expressando a natureza
espontânea de sua genialidade. E por seu mérito, todas acabaram sendo
reconhecidas.
Elas estavam em um contexto histórico especial: o primeiro
computador IBM na NASA, a competição acirrada após a presença do russo Yuri
Gagarin, a busca de serem primeiros na corrida espacial, a construção da
exigência nacional de excelência. Tudo configurava um grande projeto.
E o que sustenta um grande projeto? A coragem, a
determinação e a capacidade aguentar frustrações e derrotas. Tudo o que faz um
líder dando um salto adiante de si mesmo.
Nesse filme cresce a dimensão
da conquista dessas mulheres especiais. Nesse sentido, o título em português
até parece ser mais adequado. ESTRELAS ALÉM DO TEMPO talvez enfatize o que elas
fizeram para se destacar de seu contexto porque conseguiram significativos
ganhos pessoais junto a grandes dificuldades.
Temos um filme convencional?
Sim, até certo ponto. Uma pitada didático também. Mas vale a pena o tempo no
escuro do cinema, com ou sem pipoca. Teremos um sorriso na saída do cinema,
talvez acreditando que há maneiras especiais de viver. E que vale a pena
insistir em nossos sonhos!
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