![]() |
Momento de lazer |
Não reclamo. Possibilidade de novas descobertas. Estou
confinada a três janelas que dão para alguns prédios do miolo de um quarteirão.
Bisbilhotando, vejo personagens, pedaços de tapete e cama e cadeiras. E tenho o
céu, muitas vezes azul e nuvens. E surpresas como a do gato e a da música.
Há um gato no prédio em frente. Um gato pequeno, que fica
menor ainda em uma janela, dentre as inúmeras janelas de uma parede enorme do
edifício.
Foi sorte minha tê-lo visto. Ao abrir uma veneziana para
mais claridade, vi esse pequeno felino elegantemente sentado bem na beirada. Havia
uma proteção para criança e ele, com a postura de animal reflexivo, olhava em
volta. Cena de tranquilidade e de lentidão felina. Perceberia ele algo
diferente na paisagem?
Observei encantada. Um sinal de vida no meio de tantos
tijolos, azulejos, parapeito- construção. Presença singela. Por ele, repeti várias
vezes a ida à minha janela.
E, a segunda surpresa. Todos os dias, às seis da tarde, a
partir de uma dessas janelas da redondeza, alguém distribui em alto som a Ave
Maria de Gounod. Essa oração em forma de música, ao final, recebe palmas e
assobios de pessoas que, como eu, estão se acostumando com esse momento
especial. Generosa doação.
Espero as seis horas da tarde para o momento de oração. Espero
ver de novo o pequeno gato. Incluídos na agenda dos dias, são encontros
prometidos. Delicadezas de tempos que pouco a pouco nos dirão a que vieram.