quarta-feira, 13 de julho de 2016

ROSAS À LUZ DA LUA

Cliquei muitas vezes. Como ficaram essas fotos? Aconteceu um efeito diferente. Em geral, prefiro mais contraste entre luz e claridade. Mas, nessas fotos de rosas há sombras, muitas sombras. Tudo meio escuro.

Gosto desse sombreado. Olho, olho, não canso. Esse exercício de vaidade explícita não me deixa culpada. 

Em um pequeno vaso, elas não são muitas. Talvez umas cinco ou seis em tom de laranja, um quase rosa, alaranjado. Uma cor indefinível e o resto, à volta delas na penumbra, com um pedaço de espaldar de uma cadeira ao fundo. O vaso sobre uma mesa de que não se vê muito.



Mas havia sim, uma luz sobre elas, delicada, noturna. É a primeira foto que me sugere a noite. Todo o resto só pode ser adivinhado. E eu me deixo ir dentro nesse movimento, quase como se fosse dentro de um enigma. E como se eu não soubesse onde foi feita a foto.

A luz cai docemente sobre o vaso na mesa, com tampo de vidro, por uma janela grande - daquelas antigas de muitos quadrados com vidros trabalhados em bisotê. Sem pedir, ela invade tudo, passando pela janela, cobrindo a mesa, e se dispersando pelas cadeiras. Cai no tapete escuro com tons de vermelho. Causa reflexos na cristaleira, entre os copos, jarras e outros objetos.

No aparador colado à parede perto da mesa há um pequeno vaso e prato em estilo chinês e um retrato de mulher. Um sorriso, um colar de pérolas junto ao pescoço e um cabelo em ondas. Ou é uma blusa com gola arredondada e broche de pequenos brilhantes? Minha imaginação titubeia. Foi ela que arranjou as flores no vaso?

As flores da foto são homenagem ou comemoração. Um cartão aberto na ponta da mesa, ao lado dos papéis meio amassados junto a uma fita de seda. Talvez amor, aniversário, uma situação particular.

Caminho até a janela para olhar de novo. O poste, distante. O corredor, comprido. Alguém se aproxima pela calçada, de andar manso. Sem pressa, se afasta. E mais não posso ver de onde estou, apesar da claridade e transparência do vidro, não tenho visão suficiente para ir mais longe. Meu coração chegou a bater forte. Olho para as flores no meio do escuro e em cima da mesa, aliviada.


Procuro a parede da sala ao fundo. Os pés da mesa? Onde estão as cadeiras? Têm o espaldar alto? E ao olhar assim para dentro desse escuro, dentro da fotografia diviso o que não se vê e só pode ser imaginado.

Então, completamente solta, a imaginação faz seu giro, adivinhando o cenário de uma composição não preparada. Descrevendo, invento o que segue num exercício de liberdade.

E essa luz se mistura a outra que vem de um poste na calçada que se vê pela janela por cima do muro que ladeia a casa. Há ainda um pequeno corredor longo, na lateral. É uma casa de cidade de interior ou de um bairro antigo de São Paulo dos anos cinquenta?

E antes que os pensamentos me levem de volta à minha realidade como se a luz se acendesse na sala, eu percorro os espaços de novo longamente, sem esquecer os panos da cortina da janela grande do fundo, ou os sapatos largados perto de um sofá em que um lenço colorido se esparrama.

Sustento ainda a fantasia. E olho de novo as rosas.

Elas me parecem ainda mais lindas 

quinta-feira, 30 de junho de 2016

CONSTRUINDO E DESCONSTRUINDO A LEI DA PERSPECTIVA


A palestra PERSPECTIVA, UMA VIAGEM FRANCISCANA (*) no Museu de Arte Moderna no Ibirapuera chamou-me a atenção pelo título. O que tem a ver a lei da perspectiva com os monges franciscanos? Essa viagem seria uma metáfora apenas? Sim, talvez um recurso de retórica, um título criativo. Mas, a partir da pesquisa competente do curador do MAM fiquei sabendo da gênese da lei da perspectiva. E embora saibamos que séculos depois ela foi descontruída, vale a viagem. Entre nela comigo.


A GÊNESE DA LEI DA PERSPECTIVA


Quem gosta de pintura pode ter uma noção do que significa a lei da perspectiva. Desde antes do Renascimento ela proporciona noção de profundidade e ilusão de verdade às pinturas.

Mas essa lei, antes de surgir como uma técnica para o desenho, foi estudo teórico longamente desenvolvido a partir da observação de cunho científico e de elementos de teologia. Felipe Chaimovich, o curador do MAM descreveu o longo caminho para que se chegasse a ela. As leis da perspectiva surgiram como decorrência de descobertas da ótica e da visão, passando pela geometria e por grupos de franciscanos em Oxford. Com o nome de perspectiva, transformou a pintura.

Tudo pode ter começado com os estudos de Euclides por volta de 300 a.C. Seus princípios de geometria e ótica se preocupavam com a visão. Ele estabelece que o elemento essencial é o raio visual, uma linha que se expande a partir de um ponto. Para ele, a luz se comporta como essa linha que se expande radialmente. Ele tem como preocupação a formação das imagens.

A presença de Al Kindi (séc IX) foi acrescentada às personagens dessa história. Ele muda o foco do estudo da visão por causa da interdição das imagens no mundo árabe. Tendo contato com os gregos, com Euclides, entende a ótica como estudo da geometria da luz, independentemente das imagens visuais.

A colonização da Península Ibérica pelo califato árabe trouxe rica troca de informações. Traduções em Toledo aproximam os estudiosos cristãos e islâmicos que têm muitos interesses comuns do ponto de vista dos experimentos e do caráter teológico.

Tais textos chegam a alguns centros de estudos de teologia na Europa como Oxford para onde haviam sido enviados frades por Francisco de Assis para estudos de teologia. Lá, de 1229 a 1235, eles tiveram aula com Robert Grosseteste, grande erudito.

Grosseteste estudava a luz, a visão, a ótica e a física. Escreveu livros e deixou seguidores. Ele se desenvolveu pelas ideias teológicas que incluíam concepções de um universo esférico, um entendimento geométrico da criação do mundo: um ponto, linha, esfera. Um universo tridimensional, embora estático porque sem tempo. E a esse estudo da natureza a partir da geometria da luz ele denomina perspectiva, palavra que não existia no latim antigo. Estes estudos estiveram sempre ligados à busca de compreensão de Deus, ou seja, a intenção teológica sempre esteve presente entre eles, cristãos e islâmicos.

Na década de 1250, Roger Bacon se converte franciscano para poder estudar em Oxford. Defende a necessidade de se criar uma ciência da perspectiva, um campo de estudos autônomos para o estudo do que é transitório nos fenômenos físicos e do que é eterno: as formas geométricas (argumento grego proveniente de Aristóteles).

O outro nome importante em Oxford é John Pecham (ou Peckham), que em seu manual de perspectiva largamente copiado, afirmava haver traços da geometria na natureza. Era a permanência da relação entre teologia e ciência.

Em 1390, um comentador de Pecham, Pelacani dá aulas na casa de Dante o que promove impacto no círculo de Florença. Lá encontra-se o ourives e arquiteto Bruneleschi que dá aulas para Masaccio, pintor. Este último, por sua vez, fazia uma pintura ilusionista, ainda rudimentar no desenho do espaço.

A questão da perspectiva era teórica. Como desenhar o espaço esférico no plano?  Bruneleschi não sabia desenhar o que ele descrevia de forma ilusionista. Em sua época havia a técnica da espinha de peixe usada desde os tempos dos gregos. É Masaccio quem realiza a primeira obra em perspectiva, duzentos anos depois de Grosseteste ter criado a teoria por volta de 1425 em Florença.

A partir daí a perspectiva se separa de sua origem ligada a princípios teológicos. Ganha o caráter laico e passa a ser usada em ilustração em livros de engenharia, botânica, geologia e outros.  

Em 1563, ainda em Florença, a partir da revolução da perspectiva, vai ser criada a Academia das Artes do Desenho. E daí, a noção de arte que temos até hoje.

Ou seja, a criação da perspectiva apresenta elementos insuspeitados como a geometria e a ótica, as preocupações dos frades e monges árabes na busca de uma relação entre a natureza e a presença de Deus e ideias a respeito da Criação.

Uma verdadeira viagem daqueles homens que andavam em investigações e movimentos íntimos para alcançar um sentido por onde sua curiosidade os conduzia.

ARREMATE POÉTICO

Poucos dias depois de assistir a essa palestra, visitei a exposição de Picasso e me dei conta de que no início do século XX a perspectiva tinha sido desconstruída.

A ilusão de representatividade da pintura acontecera como consequência dos estudos e experimentos dos cientistas da óptica e da luz. Muitos séculos depois, Picasso e Braque a colocam abaixo. Por que motivo?

O que ocorre quando Picasso e Braque resolvem que a obra de arte não necessita mais de critérios de veracidade ou de ilusionismo? Eles decidem que não interessa mais o objeto tal como ele é, mas a imagem mental que se faz dele. O que pode significar essa mudança?

Seria imprudente tentar uma resposta. Sou curiosa e amante da arte. De antemão, sei que a natureza desta reflexão é particular e subjetiva. É a minha viagem.

Sabemos que condições históricas e culturais em grande parte promovem os desenhos das expressões artísticas. A teologia que estava implícita no mundo da Idade Média e ainda no Humanismo era bastante presente já não existe mais no início do século vinte. A arte se descola das manifestações teológicas. A arte não existe mais para louvar Deus ou seus fundamentos para a busca por explicações da criação do mundo.

No início do século XX ou neste século XXI, o que nos cabe é muito diferente. A cada momento histórico, sua matéria. A complexidade do mundo atual favorece o empobrecimento da sensibilidade. Em meio a uma crise de valores imensa, delicadas dimensões da vida estão se perdendo. Perdemos a relação com a divindade.

E a lembrança de um mundo em que a presença de Deus era mais próxima acorda dentro de mim. Uma insatisfação imensa me invade.

Na urgência de uma resposta, confiando que ainda me sobre uma réstia de bom senso e um fio de racionalidade, neste momento, vivo a sensação de que na arte, somente nela, podemos experimentar o divino em nós. Ela pode salvar nossa consciência da absurdidade da vida. Ela pode preencher o desencantamento, o esvaziamento de sentidos. Ela pode nos indicar um caminho para outras narrativas.

Mesmo que na arte de nossos dias não encontremos algo que corresponda a nossas necessidades de representação, ela tem se mantido como possibilidade aberta e como potência de expressão.

Por essa potência, ela pode ser em si mesma aquilo que traz para mais perto de nós o traço divino da natureza. Que seja.

Uma nostalgia medieval chegou a mim. Invasão. Lembrei-me daqueles retratos bizantinos com os olhos mansos e parados.

Proximidade franciscana. Que fique.

PS: Felipe Chaimovich tem uma paixão por Francisco de Assis que gerou frutos mais do interessantes revelando relações entre arte e ecologia. Daí, aconteceram uma exposição coletiva “Natureza Franciscana” , um belo ensaio “Arte e ecologia” publicado na revista do MAM no.5 abril/maio/junho-2016 e a palestra que me ofereceu repertório para desenvolver as ideias deste texto. Visite o site do MAM: http://mam.org.br/

IMAGENS: São Francisco de Assis, por Militão dos Santos, pintor naïf brasileiro; Les Demoiselles d´Avignon, Picasso; Imagem de catedral para estudo de perspectiva.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

CRENÇAS POLÍTICAS E RELIGIOSAS, PERIGO!

Alan Oken nos conta um pouco de sua interpretação sobre o quadrado Saturno/Netuno que teremos até meados de outubro. Ele nos lembra dos perigos de crenças políticas e religiosas neste momento. Sempre atual e lúcido em seus comentários!

"O quadrado Saturno/Netuno em Sagitário/Pisces amplifica os conflitos que cercam os sistemas de crenças ideológicas e religiosas /.../. A junção dessas combinações entre planetas/signos é como tentar colocar uma forma em torno de uma ameba na esperança de que tal confinamento irá assumir algum grau de permanência. Há, assim, as tentativas de criação de estruturas sociais baseadas em crenças e a incapacidade de tais estruturas para permanecer no lugar. Esta é uma combinação muito "escorregadia"!!! Saturno é um planeta mental enquanto Netuno é, essencialmente, aquele que em seu mais alto grau estimula a compaixão e universalidade. Assim, quando estes dois territórios estão trabalhando em harmonia, há a possibilidade de uma ordem social que é administrada com amor e inclusão. Mas quando Neptune manifesta em um plano menos elevado de expressão, ele aciona os campos astrais inferiores de vida, atraindo o glamour e ilusão do martírio e exclusividade religiosa que aparece como verdade universal. Assim, o cenário é disposto como se a nossa religião fosse o único caminho para o paraíso e, portanto, a única verdade aceitável e digna de vida. Nesta posição de Netuno em Peixes e Saturno em Sagitário, a autoridade é atribuída a doutrinas religiosas e políticas limitadas e limitantes." 

Visite o site http://www.alanoken.com/

(A imagem do mapa é de Maria Eunice Sousa, astróloga: http://mariaeunicesousa.com/)

sexta-feira, 17 de junho de 2016

QUEM LÊ EDITORIAL DE REVISTA?


Editorial de revista? Em geral as pessoas passam ao largo dele e vão logo ao que interessa no corpo da revista. Os editoriais de jornais ainda interessam mais, pois mostram a opinião a respeito de algum assunto do momento.

Em revistas, o editorial pode ter funções diferentes. Além desse caráter opinativo que o editorial ganha nos jornais, os editoriais podem ter outras funções. Apresentam em geral algo da linha editorial da revista e descrevem em poucas palavras os assuntos daquela edição. Podem receber outros nomes como Carta ao leitor.


Convidam à leitura. Seduzem de certa forma, para um ou outro aspecto de artigos ou reportagem. Ou seja, é local importante para o leitor visitar antes de entrar no miolo das páginas. Mas, pode ser surpreendente chegar aos conteúdos depois de passar pelo editorial, pois ele pode ser de outro tipo, ousando e inventando outra maneira de ser mais literária, mais interessante.

Isso tem acontecido comigo em relação ao editorial da Revista dos Vegetarianos, pela maneira como os textos são escritos mês a mês. Uma revista para vegetarianos? Sim, mas não somente.

E seu editorial traz com total liberdade (e muita poesia) a natureza, experiências e reflexões sobre o ser na vida. Ao falar isto, tomo o cuidado para não restringir a dimensão da abordagem dos textos. Viaje com o que eu copio aqui. Leia a seguir o texto do editor Marco Clivati.  

A GRANDE AVENTURA (Editorial da Revista dos Vegetarianos – Junho 2016)

A vida segura, sem riscos, é monótona, sem sal. Seguir preso à rotina, caminhar de acordo com padrões, crenças, oprime a alma. Transforma o tempo em mera mercadoria sem valor. Aprisiona a aventura do verdadeiro viver. Ricos de alma são os bem-aventurados, aqueles que mergulham no inexplorado, cruzam os oceanos do próprio ser. Seres preciosos que navegam com o coração sem julgamentos. Sem expectativas do próximo passo, reverenciam o novo. Almas que se atiram ao vento em busca do sagrado. Nessa aventura, o silêncio revela os segredos do caminho e o corpo detém as chaves da embarcação. Somente com uma alma leve, pacífica, é possível navegar lado a lado com o sagrado. Para mergulhar nessa aventura, é necessário um corpo sadio, um coração puro e uma boa dose de coragem. A mais intensa e fantástica aventura da vida é poder viajar por mares desconhecidos, explorar paisagens nunca vistas antes, saborear ares virgens. E posso garantir para você que essa viagem não é feita de avião, de carro, nem a pé. Essa poderosa e transformadora viagem acontece ao caminhar em direção à sua essência, desvendando o seu verdadeiro e desconhecido ser. Uma viagem que só acontece aqui e agora. Aventure-se!

Marco Clivati

sexta-feira, 10 de junho de 2016

UMA TARDE COM PICASSO E DANTE

Para Luiz

O convite foi aceito. Mas algo despertava desconfiança... Domingo em exposição concorrida? Ir ou não ir? A chuva e friozinho me convidavam ao aconchego.
No fundo eu queria mesmo era não sair de casa. Mas, era hoje. A visita a Picasso com o amigo já estava sendo agendada há certo tempo.  Foi assim com dúvidas, que tirei o pijama e desliguei o computador em que trabalhava. O pior foi tirar o chinelo quente do pé.
Quando liguei para confirmar, sim, ele estava atrasado, mas já a caminho. Será que ele também tinha ficado meio mole em casa e na dúvida?
Percorremos as muitas salas com obras e textos explicativos que prometiam a trajetória do pintor. Mas eu vi na amostragem menos do que me fora prometido nos textos iniciais. Onde estavam obra da fase azul? E a Suíte Vollard? Dela, só encontrei uma citaçãozinha. Eu estava realmente ranzinza.
O amigo atento se interessava pelo artista. Sorte minha. Não fosse a sua companhia, eu teria me frustrado mais. Suas observações passaram por Braque, pelo rompimento da forma no concretismo, que estava vivo ali à nossa frente. Formas estranhas dentro de uma moldura são duas pessoas na praia. E outras formas não menos estranhas lembram vagamente dois rostos se beijando. Quadro famoso. Conversamos a respeito disso tudo. Gostamos ou aceitamos? Coragem nossa versar a esse respeito.
Sem dúvida havia coragem do pintor em deixar um dos dois olhos sem preenchimento em certo quadro. Ou então, deixar um outro parecendo não totalmente terminado, pois nele podia se perceber traços de um desenho que teria servido como base. Eu me sentia uma criança questionando coisas que não deveria questionar. Ou como aquela menina de três anos no colo do pai, conversando,  com a espontaneidade de sua infância. Nossas hipóteses  eram puro exercício de infância fora de tempo. Por que não? Nós tínhamos entrado no clima de sua obra. Mão erudita, olho selvagem, era o título da exposição.  
Depois junto ao café outros assuntos deslancharam sem linearidade. Falamos das leis da perspectiva de uma palestra a que eu tinha assistido. Incrível, mas elas surgiram como decorrência de descobertas da ótica e da visão, passando pela geometria e por grupos de franciscanos em Oxford. Certo dia recebeu o nome de perspectiva e daí em diante transformou a pintura.
Essa história de padres franciscanos e ótica se juntou a impressões sobre a Divina Comédia, livro presenteado ao amigo, com ilustrações de Gustave Doré que nos fez mergulhar mais ainda no mundo da Idade Média. Fomos pelas mãos de Virgílio e na companhia de Beatriz ao paraíso, ao purgatório e ao inferno. Imaginamos a complexidade dos círculos a partir dos quais o mundo era descrito por Dante.
Passamos pelas hordas de pessoas que não fizeram bem nem mal e que estão lá em um canto sendo observadas. Como seria o barqueiro que leva as pessoas para as cidades das dores? E apareceram entre nós também as criaturas de Bosch. São elas desenhadas com ou sem perspectiva? A dúvida nos colocou sorriso nos lábios. Que importava esse detalhe em meio ao universo de horrores medievais e infernais de Bosch? 
Mas, houve em meio a eles, algo que nos silenciou por um tempinho. Uma saudade de amor deve ter nos visitado, quando apareceu a história do encontro nunca acontecido entre Beatriz e Dante. Pouco importa ter sido ou não ter sido verdade, se Dante dedicou a ela a parte mais bonita, a representação da beleza e do amor.
E o meu amigo voltava a ter momentos de deslumbramento ao falar das ilustrações de Doré. Seus olhos brilhavam enquanto descrevia tais imagens com movimentos delicados no ar. Enfáticos braços e mãos compridas de músico. 
E de lá, íamos às novas formas representativas na pintura de Picasso. O novo que assusta. E voltávamos às ilustrações delicadas de Doré, ao mundo de Dante. E ressurgiam as formas sem perspectiva de Picasso. Repetições e idas e vindas porque elas eram necessárias para ratificar nossa admiração por cada uma dessas expressões de arte.
Uma colcha de retalhos, nossa conversa foi de pedaço em pedaço. O que sustenta a delicadeza dos finos traços de Doré? A grandeza dos traços de Picasso ou da criação do mundo de Dante?
No fundo, talvez procurássemos algum sentido no sem sentido do nosso momento pessoal ou histórico. Ou talvez estivéssemos tentando entender uma justeza em cada experiência dos artistas e das expressões da arte. O que significa harmonia e equilíbrio em arte? Será que a perspectiva poderia cumprir essa função? E Picasso, como conseguiu dar equilíbrio a sua obra?
Foi dessa forma, que o domingo chuvoso e friorento se fez iluminado.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

UMA ESPECIAL DECLARAÇÃO DE AMOR AO CINEMA


O filme Ave, César é mais do que parece. O sequestro de um ator pode ser um ponto importante na narrativa. Mas, desconfie, não se distraia, pois há muito mais do que isso. Trata-se de um grande filme dos irmãos Joel e Ethan Cohen (Hail, Caesar! 2016). Mais do que uma simples comédia. George Cloone, no papel de ator meio canastrão nos encanta de novo com seu talento.

HISTÓRIAS DENTRO DE OUTRAS HISTÓRIAS

As muitas histórias entrelaçadas podem deixar o espectador um tanto perdido, mas ele também se divertirá nas camadas mais engraçadas ou bonitas entre as quais imagens que nos lembram os musicais de Hollywood dos anos 1950. Não se trata de uma simples comédia que nos faz rir. É mais uma sátira elaborada, carregada de ironia e, por isso, mais inteligente. Tudo nesse filme dos Cohen passa pela crítica e pela revisão. 

A crítica especializada tem dito que este filme é uma declaração de amor ao cinema. Ao longo do estudo, vamos tentar juntar argumentos para concordar com essa opinião.

Edward Mannix (Josh Brolin), personagem principal e executivo da Capitol Pictures, se depara com situações pessoais e profissionais bem variadas. Ele tem que resolver os problemas das estrelas do estúdio de cinema envolvidas em escândalos e polêmicas como por exemplo uma gravidez inesperada, elaborar politicamente as ameaças e fofocas de duas jornalistas e irmãs gêmeas e lidar com o desconforto de um diretor com a contratação de novo ator.

Enquanto isso, também tem que dar conta de esconder que o ator da superprodução Ave,  César!, um conto sobre Cristo,  Baird Whitlock (George Clooney), é sequestrado no meio das filmagens por uma organização chamada "Futuro. Nesse grupo (uma célula comunista) encontram-se reclamações e mágoas com o modo de funcionamento dos estúdios de Hollywood. 

Era a época do comunismo nos anos 50. Mas não é do interesse dos irmãos Cohen debater a questão política. Observamos de um lado os esforços de Mannix para que se mantenha a produção dos filmes planejados, contando com as ações necessárias para cumpri-las e, do outro, a sátira do grupo comunista com todos os seus trejeitos, mostrados explicitamente, como cabe a uma caricatura inteligente.

Então nos deparamos com o submarino soviético com estrela vermelha, o cachorrinho de nome Engels que não para de latir, a reunião secreta, a linguagem que nos remete à teoria da dialética histórica, da crítica ao sistema e ao capitalismo. Sobram termos do jargão relativo ao pensamento esquerdista. Em meio a essa reunião de estudos, acontece a sedução de Baird que fica submetido à teoria e se filia ao partido comunista.

Ele é salvo do sequestro e levado de volta ao cenário de Hollywood por Alden Ehrenreich, ator de filmes de faroeste que deve atuar em filme dramático por imposição do estúdio. O cowboy percebe a trama em que está metido o Baird e o libera. Seu comportamento revela significativa aceitação da realidade, apesar de sua dependência aos diretores dos estúdios em que trabalha. Tal contexto não parece afetá-lo, o que pode demonstrar uma razoável maturidade e capacidade de lidar com os limites de seu mundo. Ele é parceria de Mannix na resolução do sequestro.

Por sua vez, Baird continua sem poder avaliar a situação por que passara. Mannix lhe dá umas bofetadas para acordá-lo. Pragmatismo e senso de realidade de Mannix?


A ORDEM DAS COISAS DA VIDA

Essa cena em que Baird (Clooney) tem a consciência recuperada à força recoloca o cinema e as coisas no lugar. O executivo retoma a filmagem principal e ordena ao protagonista: "Vá e seja um astro!" Na verdade, ele defende os limites desse mundo que gerencia. Trata-se de personagem que tem um viés moral. Como? Há muitos detalhes relacionados a questões religiosas.

O filme começa com música sacra e a imagem de Cristo na cruz onde ocorrem as várias confissões de Mannix. Tais confissões principiam e finalizam a narrativa. Há um filme religioso dentro do filme pelo qual a hierarquia de várias religiões se reúne porque não deve ocorrer equívocos na representação de Cristo. Todos esses elementos parecem significativos demais para que possamos dispensá-los.

Eddie Mannix surge mais de uma vez com terço nas mãos e em momentos de reflexão solitária como se algo o incomodasse muito. E ele está em momento de definição de sua vida profissional. Esse impasse se resolve no confessionário. A uma pergunta de Mannix, o padre responde: "Deus quer que façamos o certo". Ainda segundo ele, "a voz interior diz o que é certo, isso vem de Deus".  Mannix ao ouvir tais palavras, aliviado, toma a decisão pelo caminho mais difícil deixando de lado as tentações das facilidades prometidas. E o caminho difícil é seguir na sua função de fazer cinema, uma fábrica de histórias segundo ele.

Difícil é ter certeza das razões pelas quais os Cohen fizeram a opção de situações religiosas e morais. Quem sabe ainda tenhamos que juntar mais argumentos para poder levantar qualquer hipótese?

A ficção é dirigida pela voz de um narrador pela qual os diretores armam a narrativa. Ela observa os eventos a partir de uma perspectiva de fora dos acontecimentos, como um foco narrativo que amplia o âmbito de observação. Cria-se um tipo de ficção em que essa voz pretensamente impessoal conduz as situações. É ela que estabelece a análise final do conflito da personagem de Mannix, interpretando a resolução desse conflito. E aponta para leis internas que regeriam a vida dessa personagem vindas de um local sensível de contato com Deus.

São insuficientes as teorias políticas que tentam forjar outra história e um novo homem e também aquelas religiosas que, cada uma a sua moda, explicam a representação de Cristo, sem consenso. Pode ser que haja outra maneira menos precária de se relacionar com as contingências das coisas. Pelo menos essa é a saída que Mannix, capaz para lidar com a realidade, encontra nessa busca de uma decisão importante.

Mas como se trata de uma sátira inteligente com níveis de ironia sutis, essa interpretação pode ser questionada. Cabem contraponto e controvérsias.
   

ESPECIAL DECLARAÇÃO DE AMOR

E como se faz a declaração de amor ao cinema?  Este filme apresenta vários níveis de acontecimentos. Ele carrega filmes dentro do filme, uma metalinguagem em que podemos assistir a essa declaração de amor através de camadas de significação, ironia e crítica.  

A decisão profissional da personagem confirma seu amor ao cinema. A outra proposta profissional foi apresentada desqualificando o cinema observado como atividade frívola, fútil e pouco séria. É tudo faz de conta, disse o proponente. Mas, não para Eddie.

Nem para a voz narradora que diz ser o cinema a representação da "cota dos sonhos dos indivíduos desgastados do mundo". O cinema seria então uma indústria que fabrica histórias que têm uma função importante na vida das pessoas. E para certificar-nos dessa força, os diretores refazem cenas que nos lembram musicais antigos de uma época de ouro.

Mas, junto dessa lembrança dos anos 50, surgem dados da realidade crua atrás da beleza construída pela ficção: a vida real dos atores-celebridades, as fofocas da mídia, a guerra pelo poder econômico. Há a construção de uma ilusão que se desfaz logo em seguida em um desmanche quase cruel. Os irmãos Cohen não perdoam essa falha inevitável perante o funcionamento da arte do cinema como ela é. Que bom seria se Baird (Clooney) não esquecesse a última palavra de um diálogo fundamental no filme Ave, César. Ou que a mocinha linda das águas não fosse infeliz em seus casamentos.

É imenso o efeito da indústria hollywoodiana nos espectadores. Representação de uma ingenuidade, beleza ou força, que na vida real não existem. Local de sedução, reconhecemos nesse universo a busca de uma perfeição que só existe na fantasia e, que apesar disso ou por isso, deve ser mantida.

As histórias como a de Mannix não vão acabar nunca, diz a voz narradora. Elas começam e não terminam nunca de serem contadas. E se repetirão em seus detalhes sórdidos ou grandiosos, morais e religiosos. E o cinema estará pronto para contá-las.

Essa seria a matéria do cinema, a razão maior para que ele seja amado. Histórias de vida nunca acabarão. O cinema traz uma ilusão que é alívio e escape da vida real. Assim o cinema é absolvido pelos irmãos Cohen de suas imperfeições.

Amor consciente dos defeitos do objeto amado é forma especial de amor.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

ISSO VAI PASSAR, LAURA

Ela tem vinte e cinco anos. Clara e cabelos escuros na altura do pescoço. Maquiada, unhas bem tratadas e com esmalte escuro, brincos e uma roupa alinhada. Era um almoço de aniversário, um churrasco no alto do prédio, com visão ampla do bairro e da cidade. O Museu do Ipiranga ao longe, farta vegetação à  volta, um céu azul e calor convidativo à cerveja e ao encontro de amigos.
Mas, ela era só tristeza. Dos lábios vermelhos de batom, saíram palavras de mágoa. O namoro tinha acabado havia quinze dias. E o que doía mesmo era a maneira como ele terminara o relacionamento. Foi se afastando, devagarzinho e depois, pelo telefone, rápido e sem muito tempo para conversa. Na verdade, isso era o grande desconsolo. Frustrante. Como? Sem explicação?
Durara por longos cinco anos e meio. Onde empacotar e guardar tanta memória? Em que desvão da vida enterrar um amor desastrado?  Chegara a hora de uma revisão. Quando ela se distraiu? Que comportamentos ela não percebera? Sim, lembrava-se de um dia. Em outra situação, uma conversa, palavras desconexas. E um ou outro telefonema prometido e que não se realizou. Agora talvez tudo fizesse mais sentido. Triste caleidoscópio de lembranças.
Infelizmente, uma história pouco original. E a reação de Laura possivelmente também repetirá o lugar comum.  Ela vai chorar, sofrer, conversar tempos longos com amigas, ao vivo e por telefone, skype e msn, whatsApp, amadurecendo e encorpando as mágoas, ouvindo as opiniões variadas, medindo e comparando as sugestões.
Entretanto, nada aliviará as sensações de altos e baixos, de humores e emoções voláteis, imagens a lhe visitar os olhos vidrados, a atenção distraída. Quem solucionará o problema? Quem lhe falará a palavra mágica que a libere da dor de amor?
Ninguém, Laura. Essa demanda será tempo perdido. As soluções são, em geral, paliativas e não vão à raiz da dor.
Sei que será muito difícil você me ouvir, pois todo o contexto social lhe conta uma história diferente, que pesa em seu comportamento de forma muito sutil. Ouvi escapar de sua boca a reclamação com tom fatal: “Já tenho vinte e cinco anos.”  Você talvez acredite mesmo que sua vida só será completa quando se casar. Talvez se sinta sem opções e – pior- velha. Será? Sim, mudar essas ideias, pedras fundadoras de uma cultura,  é muito difícil.
Você conseguirá permissão para outras alternativas? A sugestão para abrir espaço entre sua dor e a realidade talvez não faça sentido. Se eu lhe pedir que coloque em outra perspectiva o sofrimento, no canto que lhe cabe, fará menos sentido ainda. Como observar de forma mais distante se dói tanto? É difícil relativizar o sofrimento neste momento de falta em que escorregamos para um buraco que se abre.
Em vão tento um diálogo mudo. Então, me faço cúmplice silenciosa dessa mulher a partir do feminino que nos une. Lembro neste instante de todas as mulheres que já se sentiram assim tão sem esperança em momento de plena juventude. Tão aberta à parceria e a uma vida a dois. O peso que sobrou para você, muitas mulheres já levaram e continuam levando nos ombros. Uma espécie de luto pela perda de um sonho, sem contar o abandono da própria identidade em relação a um conceito social cobrador e até repressor.   
Laura, esse tipo de homem não dá. Você apostou muitas fichas nesse jogo. Foi fiel por cinco anos. Hoje, você pede revanche à vida: “Ele ainda vai se lembrar de mim.”. Não vai, Laura.  Ele vai tentar esquecer tudo e vai fazer novos relacionamentos, criar novas situações. Para se lembrar, teria que ser outra pessoa.   
Seja você outra pessoa. Seja a mulher linda que você é. Lembre-se agora das mulheres de Atenas, das árabes e africanas de hoje, das mulheres de todos os tempos e de todos os lugares. Ponha-se ao largo dessa tormenta. Nem é necessário queimar sutiã ou dizer palavras de ordem. Faça uma revolução interna. Que seja breve este momento triste. Depois dele, faça a sua hora de preparo para o momento seguinte, para o encontro com o masculino, em outra esfera de grandeza. Haverá outro homem à sua espera.
Mude a cor do batom e refaça a maquiagem. Isso, com certeza, vai passar. 

segunda-feira, 2 de maio de 2016

ASSIM ACIMA COMO ABAIXO


Há frases que repetimos sem pensar muito em seu significado. “ASSIM ACIMA COMO ABAIXO” é uma delas. No artigo a seguir, o astrólogo faz reflexões interessantes.

Brad Kochunas trabalhou um período largo em um presídio nos EUA e lá desenvolveu um trabalho terapêutico com os presidiários utilizando a astrologia.  Ele dá palestras e escreve artigos. Escreveu o livro THE ASTROLOGICAL IMAGINATION, where psyche and cosmos meet. New York: Universe , Inc, 2008.
A seguir, links para seu site e para uma apresentação no youtube (2013).
  
“ASSIM EM CIMA, COMO EMBAIXO”
Se eu pudesse usar uma varinha de condão e astrólogos nunca mais pronunciassem "assim em cima como embaixo..." eu ficaria imensamente feliz. Esta frase parece sempre aparecer como se descrevesse a astrologia sucintamente em quatro palavras, mas o contexto do qual estas palavras foram retiradas é que dá à frase completa seu significado poderoso.
A dificuldade com esta frase singular é que ela parece privilegiar a parte de cima sobre a de baixo, a mais alta sobre a mais baixa, em uma interpretação carregada de valor, como se o  acima precedesse o abaixo, causando o de baixo ou sendo maior que o de baixo. Isso reforça a idéia de que nós dançamos ao som dos planetas o que invalida imediatamente qualquer pensamento segundo o qual a carta natal é um reflexo ou que os planetas são peças do tempo/relógios. Tente repetir a frase, "Assim abaixo, como acima," várias vezes e sinta quão desajeitada e incorreta ele parece.
No entanto, se você examinar várias traduções da Tábua de Esmeralda (www.sacred-texts.com ), você vai descobrir que a linha 2 também é traduzida como: "O que está acima provém do que está abaixo, e o que está embaixo provém do que está acima, operando os milagres do Uno " Ou "Isso confirma:.O de cima a partir do de baixo, e o de baixo a partir do de cima – a obra/trabalho do milagre do Uno " E, por último,"Assim abaixo como acima; e assim acima como abaixo. Com este conhecimento por si só você pode fazer milagres. "
Claro, há também traduções desse texto em que a linha 2 começa com "Assim acima, como abaixo ...". E esta é a frase sem contexto que nós normalmente aplicamos. Como não há perspectiva de lugar nenhum no entanto, o contexto é sempre relevante e pode, potencialmente, reorientar nossa abordagem à astrologia.
O que a declaração completa realmente indica é a causalidade. Nenhum desses reinos causa o outro, precede o outro, ou é privilegiado em relação ao outro, o que significa que não podemos olhar para o céu como a razão para nossa situação, caráter, talentos ou infortúnios. O acima e o abaixo surgem juntos, mutuamente dependentes, nenhum existindo sem o outro; com o mesmo espírito que figura / fundo, frente / trás, aqui / lá, organismo / ambiente. A polaridade com um único terminal é uma impossibilidade. Nós não vivemos em um mundo com apenas o Pólo Norte, apenas um lado de cima ou a perspectiva de felicidade eterna ou recompensa.
O que isto significa para os astrólogos psicológicos é que movemos nosso pensamento de uma causalidade inerente de acordo com a mecânica newtoniana e mudamos nossas imaginações para uma física mais contemporâneo onde a realidade parece ser uma rede transparente de relações interdependentes. A causalidade torna-se verdadeiramente uma coisa do passado.
Podemos optar por ser mais conscientes no uso de nossa linguagem a fim de eliminarmos qualquer cheiro de determinismo estrelado e, o mais importante, restaurando assim a responsabilidade pessoal sobre nossas vidas. Podemos usar a linguagem que represente os planetas como reflexos de quem somos ou narrativas de acontecimentos em nossas vidas, em vez de semear o medo para um próximo trânsito de um quadrado de Plutão ou Saturno. Podemos parar de usar os planetas como explicações para os nossos problemas. O perigo é que quando inconscientemente falamos sobre os planetas "lá fora", em contraste com o 'aqui', estamos capacitando os planetas, não a pessoa e isso faz de todos nós vítimas.