quinta-feira, 5 de novembro de 2015

INUMERÁVEL MÁRIO, A OBRA E O HOMEM

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Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...

Ouvi recentemente que Mário de Andrade é polígrafo, ou seja, seus múltiplos interesses se distribuíram em uma obra imensa. Em geral, dela apenas conhecemos a poesia vanguardista de Paulicéia Desvairada e a prosa nada convencional de Macunaíma. Mas ele é mais do que esse intelectual interessante e genial participante do grupo modernista de 1922. O que você conhece dele? Acompanhe-me e, como eu, apaixone-se.

MÁRIO DE ANDRADE, HOMEM DE MUITOS TALENTO

Ele foi poeta, romancista, crítico, professor e pesquisador de música, de folclore, de filosofia, de arte em geral. Este ano houve muitas homenagens, publicações e palestras, tudo para nos lembrar de sua importância aos 70 anos de sua morte. Tenho conhecido outros aspectos de sua obra e tomei contato também com o homem, suas preocupações, anseios e valores.

Na busca por informações eu soube de seu processo criativo nos textos, a partir de anotações e ideias criteriosamente organizadas e planejadas. Também conheci o professor de música que escreveu o Ensaio sobre a Música Brasileira, essencial para a criação do musicólogo brasileiro.

Ele efetuou pesquisas nos anos de 1927 e 1928, em viagens etnográficas ao Norte e Nordeste para coletar material de cultura popular e de folclore, porque era empenhado em conhecer a cultura nacional e em preservar a memória dela.
De 1935 a 37 foi gestor do Departamento Cultural na cidade de São Paulo, tempo em que construiu bibliotecas, os parques infantis, a rádio escola, o primeiro curso de biblioteconomia do país e concebeu a Sociedade e do Curso de Etnografia. Seu projeto era ambicioso e abrangia uma percepção de educação total, civilizatória, começando na cidade, com pretensões de se estender para o Estado e até para o País. Nessa função colocou toda sua vocação de intelectual, de escritor e de músico. Mas seus desejos de formação de uma cultura musical a ser espalhada por professores em todo o país, para além de virtuosismos não puderam ser efetivados. A grandeza de seu projeto não garantiu sua permanência e ele foi substituído no cargo.

mario_de_andrade_5_abr15.jpgDepois disso ainda foi para o Rio de Janeiro (julho de 1938) a convite de amigos para aulas e para um cargo público. Mas, depois de uma temporada difícil, decidiu voltar a São Paulo em fevereiro de 1941.
 
Não era fácil desenvolver seus projetos. Segundo o biógrafo Eduardo Jardim, o projeto de Mário de Andrade levou em conta a necessidade de integrar ao corpo da nação seus múltiplos componentes : eruditos e populares, urbanos e rurais, tradicionais e modernos, autóctones e alienígenas. Eram assim amplos seus anseios.

Conheci também a importância de sua correspondência, que é um conjunto de mais de 7000 cartas que ele trocou com pessoas de muitas áreas. Mário de Andrade entendia a correspondência pessoal como documento e testemunho histórico. Este conjunto e as anotações frequentes também desenham seu ideário intelectual e pessoal. Produzia e refletia sobre a criação da obra.

A coleção de suas cartas, assim como todo o arquivo pessoal de Mário de Andrade está guardado no Instituto de Estudos Brasileiros (USP), e consta de 30 000 documentos aproximadamente, 17 mil livros e uma significativa coleção de obras de arte A preservação é realizada de acordo com critérios internacionais e conta com tecnologia avançada. São cerca de 450 caixas que recebem tratamento técnico especial. Uma equipe desenvolve estudos consistentes sobre esse material.

Faleceu em fevereiro de 1945 de ataque cardíaco.

GRANDALHÃO E GENEROSO

Como era a pessoa que construiu esta obra e carreira? Talvez seja uma curiosidade boba. Mas não me satisfaço com a descrição ou a compreensão de sua obra. Não que eu queira desmistificar o ídolo. Pelo contrário, quero trazer o realizador para mais perto da vida cotidiana, aquela que cabe a todos nós sem exceção. Quero conhecer o homem que fez tanto em tão pouco tempo de vida. Sua morte precoce me faz querer saber mais, talvez na tentativa de justificá-la.
Ele não era uma pessoa simples. Era sofisticado. Usava água de cheiro, robe de seda azul em casa; ternos de linho e cambraia, sapatos alinhados. Às vezes, ousava nas gravatas. Tinha uma de cor amarelo canário.

Quando criança, era dispersivo e não foi bom aluno na escola embora gostasse de português. Era religioso e ligado aos parentes e à casa. Grande companheiro da mãe. Fumava muito e tinha cerca de trinta cinzeiros porque detestava derrubar cinza no chão.

Tinha amores platônicos, presentes nas cartas, na poesia e na ficção. Sua sexualidade também foi tema este ano pela abertura de uma carta pessoal, que na verdade não revelou nada para desconcerto de muitas pessoas. Só reforçou seu temperamento discreto e sua conhecida elegância também no trato desse assunto que, segundo ele, só a ele mesmo interessaria. Mário, sensível e cordial rompeu a amizade e parceria com Oswald de Andrade por causa das brincadeiras ferinas nas tiradas verbais do amigo. Era frequentador de rodas literárias e da vida boemia.

Seu sorriso era generoso. Brincalhão, entre os amigos tinha a fama de exagerado. Na família era tido como amalucado, pois, como alguém em sã consciência poderia levar para uma casa católica uma escultura de Cristo de trancinhas? A escultura era de Victor Brecheret e fazia parte das novidades da época que não eram aceitas tão facilmente por uma cidade provinciana que ainda não tinha amadurecido culturalmente para as inovações artísticas que já despertavam pelas cidades da Europa. O termo futurista tinha algo de pejorativo naquela época. Daí, ser ovelha negra na família.

Com disposição incansável, ele era leitor do que ocorria no mundo daquela época. Recebia a correspondência da Europa e era assinante da revista francesa de vanguarda L´Esprit Nouveau, concebida por Le Corbusier e Amédée Ozenfant. Nessa revista todas as artes apareciam ligadas ao urbanismo. Dessa forma, diversificou seu talento de erudito e dominou diversos ramos do saber. Para dar conta dessa curiosidade incansável, dormia não mais do que quatro horas por noite.

Havia formalidade no social e informalidade nas cartas, local de confissões e compartilhamentos com amigos sobre textos e projetos.

Nelas ele dispersou suas constantes tensões internas, aliviadas no exercício da literatura. Em carta a Henriqueta Lisboa em 1943, Mário diz que /.../ escrevendo eu parece que consigo penetrar mais fundo em mim. A escrita visual me obriga a uma lógica inflexível, pelo menos mais nítida.

Uma de suas grandes tristezas, ainda maior do que a perda do irmão quando bem jovem, talvez tenha sido não ter conseguido realizar seu projeto no departamento de cultura em que colocara todos os seus ideais. Fico me perguntando a respeito disso, sem certezas nessa avaliação.

Figura importante na vida cultural brasileira entre 1917 e 1937, Mário de Andrade na avaliação do modernismo concorda queTer-lhe-ia faltado um espírito de ´maior revolta contra a vida como está´. Na verdade, Mário é consciente a respeito do limite a ele imposto.

Em outra carta para o amigo Manu, o poeta Manuel Bandeira, ele confessa: Eu amo a morte que acaba tudo. O que não acaba é a alma.... Sua sensibilidade teria sustentado mal as inadequações e os embates da vida material.

Na apresentação da biografia de Eduardo Jardim, há uma síntese da figura de Mário na vida cultural brasileira: uma estética própria e a prática de interpretação do Brasil com papel de intervenção na vida cultural.


Mas pode ser também o escritor e inspirador nos terrenos da educação e da cultura como elementos de transformação social. Ou ainda, simplesmente um homem sensível , um poeta, um escritor, que teve um percurso biográfico incrível. Múltiplo. Inumerável.

Não sou daqui venho de outros destinosNão sou mais eu nunca fui eu decertoAos pedaços me vim eu caio!

PS1: As informações deste texto foram basicamente coletadas nas quatro palestras  realizadas no Centro Universitário Maria Antônia em junho de 2015, pela equipe do IEB/USP, nas que foram realizadas a respeito dele na Flip deste ano e na leitura dos livros abaixo mencionados. Em tempo: há também alguns indícios leves, porque eu poupei você, meu leitor- da paixão que permanece comigo desde a época da formação acadêmica e que só tem aumentado ao longo das décadas.
Mário de Andrade visto por seus contemporâneos (org pelo Editor) Eu sou trezentos, eu sou trezentos e cincoenta, RJ: Agir, 2008.JARDIM, EduardoMário de Andrade:Eu sou trezentos, vida e obra. RJ: Edições de Janeiro, 2015.

PS2: Visite o site do IEB que mantém, entre outros, o arquivo de Mário de Andrade.  http://www.ieb.usp.br/arquivo


sexta-feira, 30 de outubro de 2015

BATOM E BLUSH


A jovem vendedora da loja de cosméticos começou, então, a passar nos meus cílios um preparado branco, especial para seu alongamento. Com cuidado, depois, passou a cor propriamente dita: um tom de marrom. Foram poucos e precisos gestos com um sorriso nos lábios que acompanhavam as falas da minha cunhada que fazia brincadeiras com a situação.

Depois do almoço, meio cansada e com a face com certeza desbotada, por uma manhã agitada, era interessante a ideia de ver meus olhos delineados de outra forma, mais cheios, mais bonitos, mais qualquer coisa.

Olhei-me e o espelho diria em seguida que ela tinha feito um grande trabalho. Fiquei entusiasmada. E continuei a acompanhar minha cunhada pela exploração das novidades em matéria de cosméticos. Tínhamos o tempo.

Potes pincéis, tubos, caixinhas e outras caixas, esponjas, tralha para tudo e todos os gostos. Era uma aventura por brilhos, cores, espessuras e promessas de  beleza. Coisas femininas demais para a bisbilhotice de qualquer olhar masculino  naquele momento.

Lá foi minha cunhada, então,  experimentar um novo batom, com um brilho especial para tornar os lábios mais grossos.E, com atenção quase religiosa, escolhemos as cores que mais se adequariam à nossa pele e roupa. Tom de rosa para ela e de vermelho-tomate para mim. Mais um outro pormenor: o lápis do tom do batom.  Foi aberto então espaço para a ponta de lápis colorido nos lábios, antes do brilho propriamente dito.

Ritual cheio de detalhes importantes, todos significativos demais naquele tempo de transformação em que o feminino flutua entre o divino e o diabólico, buscando o equilíbrio exato sem romper com as hierarquias e sem deixar de tocar os mitos mais fecundos.

“Ainda faltava algo...” - confabularam a atendente e a cunhada, agitadíssimas, olhando para mim, possivelmente percebendo que haviam ganhado o meu compromisso no ritual - rebelde mais que descrente que eu era no início...  Faltavam o delineador nos olhos e o blush nas faces. E lá foi a mão delicada riscar as pálpebras nos lugares certos, desenhando os traços que dariam mais luz aos olhos agora mais que vivos. No meio da face, alguns toques com o pincel farto. Pronto. A maquiagem estava completa !

E o espelho não negou. Eu via outra mulher refletida à minha frente. Olhei-me então de verdade. Estava muito mudada. Era outra quando havia entrado naquele salão de requinte quase oitocentista (ou seria um laboratório de alquimia medieval ?).

Havia se formado uma confraria entre três mulheres a serviço do feminino. Mas agora eu queria mais além dessa experiência de lindeza.

Uma animação vinda de dentro. Uma sensação de euforia me habitava então. Eu flutuava naquela sensação, ao suspender um tanto a normalidade do dia-a-dia.

E num momento de fantasia, - bêbeda de encantamento.- pela beleza que me fora presenteada, dei-me também a poesia. Voei até a memória mais próxima de um homem que um dia se aproximou de mim e me fez sonhar com a possibilidade do amor. Uma forma de amor, qualquer forma, qualquer amor.

Possível príncipe que ficou no quase, no intervalo, na pequena diferença,- interstício fundamental para se atingir o espasmo de vida que conecta com o maior da natureza humana- hoje, ele tomou da minha mão e fomos.

E fomos tomar vinho (ou era cerveja?) e navegamos  no tempo em que as utopias ainda eram pródigas com a juventude  e  sonhávamos com um mundo melhor em que não houvesse sofrimento nenhum, somente contatos bons entre amigos, cidadãos e governos, pais e filhos, pessoas e amantes.

E fui feliz por receber seus beijos sem perceber o cheiro de cigarro – e, sem sentir  medos da entrega e da perda de mim. Sem tolher movimentos, em contato com o toque carinhoso.

E ele me ouviu e captou o que eu quis dizer e entendeu além das palavras que não precisaram ser ditas, pois antes de proferi-las ele já as tinha ouvido porque partiam do meu coração.

E foi assim sem censura, sem cheiro, sem dados de dura realidade, espasmo de vida, cúmulo de alegria, em nome da beleza que eleva moralmente  homens e mulheres em sua humanidade, e em nome da poesia que é mais que tudo amor, que pudemos receber e dar um ao outro o que é essencial.

E, pulo no escuro, salto no precipício, metáfora da cumplicidade, intimidade na miséria humana que se transforma em generosidade maior, milagre da beleza e do amor, pudemos então nos olhar como homem e mulher,  sem culpa de ser felizes.


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

CURSO ON LINE DE PSICOLOGIA JUNGUIANA

ESTE É UM CURSO INTRODUTÓRIO, com alguns dos aspectos centrais da Psicologia Analítica. São oito módulos, as aulas são gravadas em vídeos, e acompanhadas de slides em PDF e uma apostila com ampla bibliografia. Você poderá assisti-lo em sua casa, e no seu próprio ritmo! O conteúdo é apresentado de forma simples e didática, e é acessível para qualquer pessoa. Foi pensado para terapeutas, psicólogos que desejam conhecer melhor os fundamentos desta fascinante escola, e também para aqueles que desejam investir em seu autoconhecimento!
Para ter mais informações, acesse o link: www.cursojungonline.com.br

INTRODUÇÃO E CONTEÚDO PROGRAMÁTICO
JUNG
Hoje estamos comemorando 140 do nascimento de Carl Gustav Jung, que nasceu em 1875, na Suíça. Aos 25 anos Jung formou-se em medicina e trabalhou como psiquiatra durante bastante tempo com doentes mentais em estado grave.
JUNG posteriormente elaborou os conceitos de chamada PSICOLOGIA ANALÍTICA (ou junguiana) a partir de observações minuciosas dos pacientes psiquiátricos, assim como dos pacientes da sua clínica particular e também a partir de seus próprios processos internos, fossem estes visões, sonhos ou intuições. Isso tudo, sem dúvida, somado a uma rara Inteligência e uma cultura extraordinária, pois sua mente curiosa se voltou para inúmeros assuntos e que nós vamos ver no decorrer das nossas aulas.
No início do século XX, nós assistimos ao nascimento do que se chamou de Psicologia Profunda. Jung com a Psicologia Analítica e Freud com a Psicanálise foram os precursores desse movimento, e essas duas escolas tinham como objetivo central desvendar e compreender tudo aquilo que é irracional, desconhecido no ser humano, ou seja, o seu INCONSCIENTE. A medicina já havia avançado em temas como fisiologia e anatomia, mas a psique humana ainda era um grande mistério a ser desvendado.
Módulo I : Histórico sobre vida Jung
Você vai saber sobre o modelo de ciência que vigorava na Europa no início do século XX. Como se deu o nascimento da Psicologia Analítica. Fatos importantes na vida de Jung, suas áreas de interesse, suas viagens e as suas principais publicações.

No módulo II : Complexos
Você vai poder encontrar algumas explicações importantes para entender melhor como funcionam as emoções, e o que está condiciona determinados tipos de ações. Houve algum tipo de trauma na infância? E como detectar certos gatilhos ou padrões de comportamento que podem ser modificados. Em que áreas da vida as coisas costumam ficar emperradas?
Módulo III: Arquétipos e Inconsciente Coletivo
Você vai entrar em contato com imagens e símbolos muito poderosos que habitam a nossa psique. Essas imagens são universais, comuns a toda humanidade, e por isso têm tanta força. E vai poder observar o poder que elas têm em nossa vida objetiva, e o quanto isso pode enriquecer sua existência e a nossa forma de entender o mundo.


Módulo IV: Sombra
Você vai poder perceber mais rapidamente que algumas reações negativas que acontecem inesperadamente tem a ver com padrões mentais ou emocionais antigos, sombrios, desconhecidos e que exatamente por isso estão sempre atuando de forma inconsciente, negativa ou inadequada, atrapalhando as escolhas e o destino de cada um. Como é possível aprender a elaborar, e integrar esse difícil aspecto na sua consciência?
Módulo V: Tipos psicológicos
Você tem nesta teoria uma tipologia muito interessante para saber, segundo Jung, como funciona a mente humana, de acordo com as chamadas 4 funções da consciência: pensamento, sentimento, sensação e intuição. A importância de entender a sua função dominante, entender as reais diferenças entre as pessoas, melhorar todas as formas de relacionamentos.
Módulo VI: Individuação
Você terá a oportunidade de compreender que existe um processo evolutivo, e que a caminhada de vida, com dores e alegrias, tem um propósito, uma finalidade, que é conhecer a si mesmo, desenvolver suas habilidades e talentos.
Módulo VII: Sincronicidade
Você é capaz de identificar situações e eventos significativos que mostram quando alguém está no caminho certo, e que a vida interna e a vida externa caminham juntas, não são coincidências só que acontecem de forma aleatória. Ou seja, sim, a vida tem um sentido.
Módulo VIII: Sonhos. O que são os sonhos e o que eles querem nos dizer? Suas mensagens são realmente importantes? Qual a importância de estarmos conectados com a nossa vida simbólica e inconsciente? Como podemos entender a linguagem das imagens fantásticas que criamos todas as noites?
MINHAS CREDENCIAIS:
Tenho formação em Psicologia, e atuo como psicóloga clínica há mais de 20 anos. Fiz pós- graduação em psicossomática e curso de extensão em terapias complementares, ou seja, a importância da integração entre mente, corpo e espiritualidade na UNIFESP.
Ao longo destes anos, escrevi vários artigos para a Revista Planeta da Editora Três, e para a Editora Talento, sobre mitologia, astrologia e comportamento que são minhas outras áreas de interesse. Assino o blog www.blissnow.com.br onde escrevo e compilo textos relacionados a estes temas. Sou colaboradora da Editora Pensamento. E.mail para contato: tekav@uol.com.br ou contato@cursojungonline.com.br



quinta-feira, 15 de outubro de 2015

CRÍTICA DE CINEMA, ALGUMAS ANOTAÇÕES

A crítica, oras bolas! Polêmica, esnobe, fora do mundo real, paralela à linguagem das pessoas normais. Conhecemos esse senso quase comum. Mas, ela está lá. Lemos. Necessitamos, queremos. O que é e para que serve ela?
É um viés intermediário, ponte entre a simples leitura e uma mais ampla compreensão. É outra leitura possível a partir da descrição e análise de algum dos recursos do cinema. Daí, é necessário um pouco mais. Ir para o centro da obra, dar com o enigma do filme, descobrir a escondida intenção de seu autor. Ela deve tornar visível o que não é explícito. E o aspecto técnico não deve ser prioritário, segundo Inácio Araújo.
Trata-se de outro tipo de leitura com postura que pode ser de amor. Isso é o que nos diz Jean Douchet. Segundo ele, o aspecto estético pode ser o primeiro limite a nos mover, mas ele deve ser apenas o primeiro. Ele nos instiga para irmos além do silêncio que podemos experimentar perante o êxtase de beleza de uma obra.
Em seguida, para melhor entender esse fazer crítico vêm em nossa ajuda Roland Barthes e Manoel de Oliveira oferecendo também seus caminhos.
O primeiro nos traz a fotografia que é arte umbilicalmente ligada ao cinema. Roland Barthes diz: “Se verdadeiramente se quer falar da fotografia em nível sério, temos que colocá-la em relação com a morte. É verdade que a fotografia é uma testemunha, mas uma testemunha do que já não existe” . Eis a fotografia vista como um enigma fascinante e fúnebre. Esse é também um aspecto do cinema, que nos apresenta uma realidade que é presença ausente, ressurreição.
A segunda referência para aumentar nossa compreensão vem da análise de um filme de Manoel de Oliveira, O Estranho Caso de Angélica. Não por acaso, a personagem é um fotógrafo às voltas com as descobertas da fotografia e da morte. A personagem é posta em conflito na descoberta do sentido da morte e do amor, tudo para aclarar a vida. Entramos nesta obra e testemunhamos a criação de um mundo de sonho e de amor, de morte e de revelação, a partir do mundo da fotografia que nos indica realidades paralelas, amplificação, redundância. Há um enigma nesse filme a ser desvendado. Pela fotografia e pela técnica, pela narração de uma história. Humana e estranha. Como a vida, como a morte.
Diz Douchet que “O único interesse da crítica consiste em tentar efetuar o ato criador inversamente. A partir da casca, sentir e revelar a seiva que a fez nascer.”

Não há certeza de que tenhamos ou sequer possamos atingir a essência do gesto criador de Manoel de Oliveira nesse filme. Mas a leitura crítica será sempre assim inconformada e rebelde em direção à maior e mais significativa compreensão de um filme.
Ainda que insatisfeita, essa travessia, salto além do simplesmente possível, é o que de melhor temos perante a grande obra. Quanto maior a obra, maior a insatisfação da crítica. Mesmo assim, fará valer mais a leitura, a fruição do filme, o nosso tempo.
PS: As informações desse texto foram coletadas no primeiro encontro do curso de Crítica de Cinema ministrado por Inácio de Araújo, na Escola de Cinema em 8/10/2015. São Paulo. Também nas leituras de Roland Barthes, El Grano de la Voz(Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 2013) e em Jean Douchet, A Estranha Obsessão (Cahiers du Cinéma, 122, ago1961. Tradução de Bruno Andrade).
Inácio Araújo, crítico de cinema.  http://cursoinacioaraujo.blogspot.com.br/


quarta-feira, 7 de outubro de 2015

ECLIPSES, UMA OUTRA PERSPECTIVA

No livro Spiritual Astrology, Jan Spiller and Karen Mc Coy escrevem sobre a manifestação dos eclipses pré-natais lunar e solar.
Segundo elas “Os eclipses pré-natais têm uma profunda influência na vida do bebê ainda por nascer. E o modelo da energia dispensada durante estes eclipses segue a pessoa pelo resto de sua vida. ”
Trata-se de uma abordagem diferente e original, que poderá fazer sentido nas análises de mapas pessoais se relacionarmos os significados essenciais dos signos aos eclipses e depois às metas de vida.

As autoras nos dizem que “para a maioria das pessoas, o signo do solar eclipse pré-natal indica as lições que o indivíduo vai ensinar a seus próximos. Enquanto o signo do eclipse lunar o guia para as lições que eles precisam aprender para continuar o crescimento de sua alma. ”

Elas acrescentam que o signo solar do eclipse pré-natal indica a tarefa a ser feita relacionada a um destino universal. Podemos identificar através deles “um pacto estabelecido com o universo na troca pelo privilégio de termos um corpo e estarmos no planeta. ” . O signo lunar indicaria o que a pessoa deve receber para poder desenvolver sua missão.

E elas se alongam em descrições das relações entre os significados dos signos com as missões ligadas aos eclipses.


Não será difícil a quem quiser fazer a pesquisa no próprio mapa descobrir em tábuas de efemérides ou outros recursos os eclipses pré-natais pessoais. Trata-se de um dado enriquecedor.
Na primeira parte do livro há abordagem a respeito de planetas, signos e casas. A segunda parte dele é um capítulo inteiro sobre os eclipses pré-natais. Na terceira, temos tábuas com as colocações dos eclipses.
Esse livro é leitura importante para todos os que se interessam por eclipses.

(New York: Fleet Press Corporation, 1988) 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O MOSTEIRO E O RIO MONDEGO

           
I A PRIMEIRA VISITA: O EDIFÍCIO ÁS MARGENS DO MONDEGO

De longe, avistei uma imagem impressionante: uma grande construção medieval à beira do rio. Aquele edifício não fazia parte das visitas previstas. Mas tive que andar duas centenas de metros para ver de perto. Eu não podia deixar para depois. Eu teria o tempo para essa pequena aventura sem sair do esquema do grupo.

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O chão era seco e arenoso, mas mostrava que as águas do rio tinham tomado conta do espaço, invadindo a construção. As colunas e paredes tinham areia pela metade de sua altura. Me perdi entre elas. Afundei no silêncio daqueles vãos abandonados. Tudo tinha a imponência de um tempo em que o homem conversava com Deus através das construções de suas igrejas. Uma ansiedade tomava meu corpo enquanto minhas pernas percorriam os cantos procurando descobrir algo que ainda estivesse por lá, esquecido. O teto estava muito perto. Tive o desejo de tocá-lo com as mãos. Era como se Deus também estivesse mais perto. Era oração o que me vinha da mente e do coração.

A viagem seguiu seu caminho, mas aqueles instantes permaneceram comigo em delicada lembrança. Com quem eu poderia trocar tais emoções?
 

II A SEGUNDA VISITA: AVIDA DAS MONJAS
 
Foi então que ao voltar à cidade de Coimbra pedi à amiga que me hospedava se ela poderia me indicar como chegar naquele lugar que colara na minha memória. Ela, sem adiantar nada, disse que talvez soubesse a que eu me referia.   

Perto do local, ela foi me passando algumas informações sobre o restauro do Mosteiro de Santa Clara, a Velha. Não mais encontrei a ponte que eu tive que descer ladeando um pedaço íngreme terreno para alcançar o edifício em ruínas. Os pedaços que sobraram na memória daquela visita não passavam de sensações e imagens vagas. Essas antigas peças hoje não mais cabiam lá. Outro jogo do tempo, novo tabuleiro.

Mesmo assim, coração acelerou com ansiedade. A cena ainda era grandiosa. Um terreno imenso, cheio de caminhos por uma grama bem cuidada. O mosteiro que tinha sido recuperado das areias invasoras ficava de um lado, enquanto do outro se avistava o museu. Ao lado do mosteiro, os achados arqueológicos do projeto inicial. Aos poucos fui me inteirando das personagens que deram vida a esse edifício de aparência românica com aspectos góticos em sua arquitetura.

A fundação do Mosteiro de Santa Clara deu-se no final do século XIII, sob influência das ideias de São Francisco de Assis e de Santa Clara. Disputas políticas delongou o processo de sua construção. Somente em 1330, ele foi consagrado pelo bispo de Coimbra, depois de ter contado com a intervenção da Rainha Isabel de Aragão que realizou o projeto do mosteiro e de um hospital com capela e cemitério para os pobres.

Mas, as cheias do rio Mondego se repetiriam muitas vezes o que gerou obras para alteamento do terreno e, no início do século XVII, uma edificação de andar superior. Deixar o andar inferior foi o primeiro passo para o total abandono que ocorreu em 1677 quando houve a mudança para o Mosteiro de Santa Clara, a Nova.


Ao longo do tempo, o rio foi tomando conta dos espaços de todo o conjunto de edifícios e do mosteiro. Os sedimentos acumulados do rio deixavam apenas a parte superior da igreja visível. Foram mais de três séculos nesse desamparo que eu pude testemunhar. Nos anos 90 do séc. XX, o trabalho de restauro do terreno e das construções se organizou.

Um museu de concepção moderna, com cor cinza das paredes e vinho nas ilustrações recebem o visitante com bom gosto e divulgam dados a respeito da vida que havia nesse mosteiro. Há peças que compunham a vida do claustro e painéis com detalhes da vida monástica e de sua relação com a comunidade.

mosteiro_3a_lucas_set15.jpgA arqueologia da clausura e a Regra também foram escavadas. A céu aberto, um painel contava sobre o noviciado e a profissão de fé, de como a noviça renunciava às vaidades mundanas, cortando os cabelos antes de envergar o hábito. Ao ler esse relato, não senti arrepios na coluna. Ao invés disso, me deparei com sensação de afinidade por aquelas jovens que viviam tal escolha. Nem sempre por opção própria, imagino.


Mas, como havia um hospital junto a esse mosteiro, - e a universidade em Portugal estava no início de seu funcionamento -, temos dados sobre como a medicina era exercida naquela época. Um dos painéis dizia que a teoria dos humores e da arte de curar, desde os sécs. V e IV a.c. até o século XVII, eram a base do ensino e da prática da medicina. Os escritos de Hipócrates, Galeno e Avicena imperaram nos estudos médicos da Universidade de Coimbra, e suas obras são debatidas no exame para físico. Não esqueçamos que a função de médico tinha na Idade Média a denominação de físico.

FECHANDO CICLOS


mosteiro_1a_lucas_folheto_set15__edt_.jpgTodas essas informações eram ecos de um passado longínquo, atualizados em um tempo presente que reverencia a memória. Na minha solidão de pesquisadora, amante das narrativas e da história humana, fui encontrando cumplicidade com os dados que me foram oferecidos neste tempo presente. Senti saudades da construção da primeira visita. Mas também como não sentir alegria em ver tudo resgatado? Um paradoxo que pelo visto não terá solução.


Mas fechei um ciclo. Tive uma resposta da vida, conduzida por caminhos impensados. Por isso, juntei as personagens daqueles relatos em um momento de congraçamento: o bispo que consagrou mosteiro, a rainha Santa Dona Isabel de Aragão, Pedro Nunes o médico e astrônomo. Acrescentei ao grupo as monjas e a amiga, por cuja mão retornei ao mosteiro. Tudo em nome da alegria e por agradecimento ao movimento generoso da vida respondendo a perguntas que eu nem tinha feito. Estávamos todos em um mesmo patamar indeterminado daquele mosteiro. Um tempo sem tempo.

      
Ouroboros aconteceu e o começo se encontrou renovado no final. Diferente em muitos aspectos, mas expondo o que permanecera calado nos escondidos dos tempos: um pouco daquelas experiências de vida e de cultura histórica. Na verdade, o tempo parou e se revelou. Um momento de eternidade e de paz.


PS: Visite os links abaixo para mais informações acerca do Mosteiro.
https://www.youtube.com/watch?v=HfDMfZAERh4   Documentário em 6min30, a respeito do Mosteiro e de sua recuperação, por Artur Corte Real, Diretor do Mosteiro. Depois de séculos de abandono e de uma complexa operação arqueológica, o projecto de requalificação de Santa Clara-a-Velha devolve o Mosteiro à cidade de Coimbra. Finalmente aberto ao público.
 
Vídeo de 5min44 de belas imagens e  música de Ennio Morricone: Ave Maria Guarani.
 
 
 

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

INTOCÁVEIS E SAMBA, A MARCA DA DIREÇÃO

Lembra-se?, o filme Intocáveis rendeu aos diretores o prêmio de melhor filme estrangeiro no Oscar de 2013. Os diretores Olivier Nakache e Eric Toledano voltam à cena com sua segunda obra, o filme Samba que tem sido bem recebido pelo público. Vale a pena voltar ao primeiro filme da dupla. O título Intocáveis chama nossa atenção. Por que motivo suas duas personagens principais seriam intocáveis?  E como se identifica a presença de seus diretores?

DEIXANDO-SE TOCAR
De maneira leve e crítica,- como também parece ser o tom de seu segundo filme Samba-, os diretores nos apresentam uma dupla improvável: Phillipe um bilionário tetraplégico e Driss seu enfermeiro. Além disso, o filme passa por temas atuais como a imigração, adolescência e drogas.
Philippe (François Cluzet) é rico, gosta de literatura, de arte (“único traço de nossa passagem pela vida”) e de música clássica.  Driss (Omar Sy), sem experiência no ofício da enfermagem, apresentando ainda antecedentes criminais, gosta de música para dançar, fuma maconha e traz da periferia uma história de dificuldades. Apesar de diferentes, desenvolvem uma relação afetiva e de cumplicidade. A forma como isso aconteceu é o que nos interessa.
Já no primeiro encontro, Driss se torna interessante aos olhos de Philippe, pela ruptura que ele representa no monótono desfile dos outros candidatos ao cargo. Ele não faz nada do que seria esperado, surpreendendo com gírias e falas inadequadas que dizem a verdade: ele deseja somente o documento assinado para garantir o salário desemprego. Esse discurso meio torto agrada ao tetraplégico. Isso garante que Driss entre no período de teste para o cargo de enfermeiro. É um desafio.
Philippe vai juntando argumentos para justificar seu interesse por Driss: ele é saudável, forte. Além disso, ele é curioso e inteligente. E mais que tudo, não tem compaixão.  “Ele não tem dó de mim” diz Philippe, que quer mesmo é sentir-se vivo.
Ambos se parecem muito. Gostam de velocidade e de aventuras; têm senso de humor. Além disso, ambos são intragáveis, difíceis de relacionamento e de contato. Driss parece não se importar com a família. Não parece valorizar princípios e critérios de convivência. Por sua vez, os enfermeiros de Philippe são trocados a cada duas semanas.  Ele tem uma dificuldade emocional enorme. Foge do contato real com a mulher com quem troca cartas. Não suporta contato. 
Essas dificuldades são denominador comum entre eles. Mas, Driss passa a representar para Philippe, o que ele não pode mais fazer na vida. Os dois se comunicam. Afeto e confiança se constroem na dor e na alegria. Driss, pelas bordas, vai adentrando em sua vida. Chega à relação de Philippe com sua filha e com seus funcionários, à vida sexual e afetiva. Dá-lhe permissão para o fumo e o relaxamento fora do plano mental; empresta-lhe o corpo físico e a liberdade. 
Se Philippe aprende a viver de novo com Driss, este também aprende muito com o tetraplégico: arte e conforto, princípios e confiança em si mesmo. Com Philippe, ele aprende critérios para a convivência no mundo. 
São ambos intocáveis, no início. Apresentam temperamento ríspido. Por isso, são separados das outras pessoas e dos comportamentos caracterizados como de senso comum. Cheguei a ir um tanto longe: pensei nos impuros e párias da sociedade indiana. Um vem da periferia, de uma marginalidade real. O outro vive sua segregação pelo temperamento e pelo drama de sua vida.   
Então, as semelhanças lhes oferecem elementos para a relação, para a formação do vínculo que dilui o que os separa.  O contato os humaniza. Mudam suas histórias: Driss se aproxima de sua família, a gentileza passa a fazer parte de seu mundo. Philippe se reconcilia com seu corpo e com sua vida afetiva. A harmonização e o diálogo favorecem contatos e afeto. Essa religação de ambos traz a cura da segregação. 
Assim ampliam seus mundos. Abrem possibilidades novas. Partilham junto, compartilham. A cena da comemoração de aniversário de Philippe é emblemática de um cenário cheio de outros intocáveis. Pessoas ocupando o mesmo espaço fisicamente e sem contato. Uma festa de mentirinha para Philippe, mas cheia de indignação silenciosa e de amargor controlado. 
Mas, tais sentimentos somem quando se instala a música e Driss dança. O som e o sorriso contagiam os corpos e todos participantes da festa são afetados. A verdadeira alegria só pode acontecer quando somos tocados por dentro. Aí então todos fazem a verdadeira comemoração. 
Talvez não seja tão difícil deixar de ser "intocável". O remédio existe. Eles o encontraram na formação de um vínculo afetivo capaz de transformar a vida de ambos . O filme nos move e encanta. A reflexão vale para a convivência na sociedade contemporânea. 
Os diretores acertaram nesse filme. Uma história contada com detalhes delicados, também reais e cômicos. E parecem ter repetido a receita no segundo filme, Samba. Esperemos o terceiro filme da dupla. 
PS: Leia os comentários do filme Samba no link a seguir:  http://coisasdoimaginario.blogspot.com.br/2015/08/ser-estrangeiro-ou-simplesmente-ser.html

terça-feira, 15 de setembro de 2015

ALMOÇO CELEBRAÇÃO

Eu estava em Salvador na Bahia para um congresso de Educação que durara três ou quatro dias. Depois das palestras e mesas redondas, cafés e mais cafés, amigos novos e velhos, festas e badalos, surpresas boas e outras nem tanto, pouco dormir e muita agitação, tinha sobrado ainda um domingo de sol.
Essas últimas horas na cidade estavam guardadas para um almoço e convivência necessária junto a um amigo que eu não via há tempo.
Ao chegar, encontrei agitação, barulhos, conversas esparsas pelos cômodos da casa. Talvez eu tivesse chegado em dia de festa? Aniversário? Nada disso. Tratava-se somente de uma coincidência: o almoço reuniria amigos da casa. Eu era mais uma e os barulhos eram bons presságios.
Enquanto eu ajudava no preparo da comida, percebi um movimento na parte de frente da casa, uma espécie de jardim com um gramado. Era uma casa térrea, no meio de um terreno grande, de cômodos amplos, teto alto, fora da agitação urbana. A decoração meio colonial, com móveis rústicos e peças de artesanato me recebeu com calor baiano.
No gramado, foi montada uma mesa grande, com cadeiras e bancos. Acomodaram-se, então, o casal hospedeiro, filhos, amigos e eu. Éramos doze à mesa. A comida chegou cheirosa e colorida. A conversa correu viva e com graça entre o balanço, ao vento, dos galhos de uma grande árvore que nos dava sombra e proteção do sol nordestino. Era uma árvore enorme cujo tronco me contava uma história de dores e angústias. Ranhuras. Mas, a sombra era larga e farta. Os risos e as falas, comentários e assuntos entrecortados, interrompidos, sotaques, as descobertas e as divergências de opiniões. Os pratos iam e vinham, os copos brilhavam e soavam nos brindes. Uma grande mesa em clima de descontração. 
Na verdade, uma cena comum. Todos podemos ter tido algo semelhante. Festividades com amigos, conversas, gargalhadas com gente querida. Mas, eu não podia me distrair da leitura atenta dos vários aspectos. Havia uma produção de significados, algo a mobilizar os sentidos, outro tipo de alimento. Não podia perder detalhes localizados neste ou naquele aspecto da cena, elementos estéticos e éticos. A mesa comprida, a sombra da grande árvore envelhecida pelas intempéries. A generosidade do sol a se infiltrar insistente pela folhagem, a comida preparada a muitas mãos, o olhar participativo de todos. Uma beleza sutil capaz de acalmar turbulências.
Tudo, com certeza, fazia daquela refeição um banquete.
Como se não bastasse antes que eu me fosse, o amigo chamou-me de lado e me conduziu a um lugar do terreno em volta da casa, em silêncio. Sentamos em um banco de madeira daqueles que há nos jardins e praças. Contou-me a meia voz, quase em segredo que lá costumava sentar para olhar o pôr do sol. Momento de descanso na rotina diária. Alívio do cansaço e amarguras. Lugar de onde se avistava a largura de um horizonte. Foi quase confissão. Ele parou e olhou. Eu procurei ver também o que ele via. Era uma perspectiva de tempos e espaços internos mais que de paisagem. Entrevi esperança na largura desse desvão. Foi mais um presente.
Esse almoço, não havia dúvida, tinha sido uma especial celebração.
Não faltou ainda um grande abraço de despedida.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

PLANETAS TRANSATURNINOS (II) por Sílvia Ceres

Um primeiro tema que chama a atenção: para além das contraditórias exaltações atribuídas a estes planetas em certos signos, na realidade, é que eles carecem dessa dignidade. Uma hipótese possível é que eles mesmos são exaltações de valor individual; quem se conecta com suas energias, emerge acima do homem-massa.
Outra aproximação à compreensão de sua função, é defini-los como um reflexo interno do planeta co-regente de seus signos respectivos -algo desta ideia já foi dito na postagem  anterior.

Urano é o  reflexo interno de Saturno.
Netuno é o reflexo interno de Júpiter.
Plutão é o reflexo interno de Marte.
Agora definiremos melhor cada um deles e se verá com maior clareza a maneira e o porquê do conceito de “reflexo interno”.


Urano.
*Põe em questão a coerência e a firmeza internas.
*Agudiza as contradições sistêmicas (sociais, familiares, teóricas e/ou artísticas ou pessoais).
*Examinador constante do Eu, de sua resistência psíquica para manter o foco em si mesmo.
*Asim como Saturno consolida e marca território no mundo, Urano o faz internamente, outorgando unidade às experiências do próprio eu.
*Limite que resguarda o que pertence ao eu individual dentro do homem.
*Egológico, enquanto consolida a consciência individual.
*Define o homem  enquanto Microcosmos.


 Netuno.

*Ensina como sentir o reflexo do universo, um poro do Todo.
*Encontra em cada evento uma alegoria de significado maior, um símbolo de uma verdade transcendente.
*Enquanto Júpiter descreve um sistema de crenças, manifestado mediante certos rituais, Netuno ingressa no campo da mística, mais além de ritos e crenças.
*Por dissolver limites, confunde e desconcerta quem não consolidou a experiência auto-afirmativa de Urano.
*Visão cosmológica.
* Percepção macrocósmica.
 Ambos -Urano e Netuno- conformam o espírito dos tempos. Cada época define o que se entende por um homem autêntico, íntegro e verdadeiro e ao mesmo tempo  qual é sua relação com o Todo, em forma de sociedade, natureza ou divindade.


Plutão.

*Planeta da possível evolução da consciência.
*Síntese entre o passado e o futuro.
*Apenas descuberto, se discutiu sua possível regência sobre Áries (cérebro. Fogo: apontando ao futuro) ou Escorpião (genitais. Água: orientada ao passado).
*Áries e Escorpião possuem funções generativas -de ideias ou de vida- essência da dinâmica de Marte, o regente comum dos dois signos.
*Une o passado herdado com o impulso ao futuro (regência sobre o DNA).
*Revela o mundo subterrâneo (esquecido) para integrá-lo ao poder do homem.
*Restabelece a trama para comprender o verdadeiro significado.
*Sua trajetória abarca o arco “desde onde, até onde”.
*É um processo similar à cura homeopática: passar do crônico ao agudo.

Claro que o que foi dito nestes dois artigos não pretende esgotar a significação de fatores de tanta importância para as possibilidades do crescimento humano. Somente tentei trazer um pouco de claridade para sair do encaixe habitual de suas interpretações.