terça-feira, 27 de janeiro de 2015

NETUNO E A ESQUERDA

Texto: Sílvia Ceres (astróloga argentina)
Tradução: Ana González

O descobrimento dos planetas além da órbita de Saturno, possibilitou relacionar sua atividade com acontecimentos sociais e políticos contemporâneos ao momento de sua visualização.

Assim, Urano (1781) ficará relacionado desde a perspectiva da astrologia política ou mundana a duas revoluções: a Declaração da Independência das colônias norteamericanas (1776) e a Francesa (1789).

Netuno (1846) será ligado às lutas populares que se propagaram por toda Europa, ao Primeiro Congresso pelos Direitos da Mulher, à primeira edição do Manifesto Comunista.

Por último, Plutão (1930) se associará à crise econômica produzida pela quebra das Bolsas e aos líderes dos grandes movimentos de massas: B. Mussolini (fascismo), A. Hitler (nazismo), J. Stalin (comunismo).

Em síntese, Urano ficará enlaçado com a burguesia e o capitalismo, Netuno con o socialismo e a esquerda em geral, e Plutão com os nacionalismos e os governos ditatoriais.

Como podemos observar, o panorama se desenha muito complexo, como um quebra-cabeças onde cada peça se encaixa corretamente. Mas na história da filosofia, os “pensadores à suspeita” (*) (K. Marx, S. Freud, F. Nietszche) assinalaram que não era tão importante “o quê” se dizia mas “quem” o dizia.

Retornando a Netuno, A. Barbault, um libriano moderado de direita, próximo ao gaullismo, define o planeta, dizendo: Vida social: se integra aos movimentos coletivos, vive as aspiracões de um grupo, de uma classe, de uma coletividade. Anarquia, demagogia, escândalo, caos, revolução, mística popular, sindicalismo, democracia, socialismo, comunismo. (1)

Enquanto isso, Dane Rudhyar, um ariano nascido na França e desde os 31 anos, cidadão norteamericano, sustenta: O marxismo constitui o aspecto negativo dos processos netunianos, ou seja, a nivelação de distensões sociais, a reabsorção a nível social de diferenças culturais e de classe dentro do imenso oceano do “inconsciente coletivo” do “proletariado virgem”. Trata-se de um aspecto negativo porque utiliza, como técnicas a violência e a mentira, assim como um fator quase hipnótico de sedução milenária. (2)

É notável como os astrólogos importantes e justamente reconhecidos do século XX ficam obnubilados por suas respectivas ideologias. Dito  astrologicamente, como a casa IX -descrição do mundo- condiciona a casa I -o observador que somos-.

Elman Bacher descreve a função de canalização de Netuno, seja de inspiração para o artista ou de iluminação para o místico. Assinala então: ...devemos compreender “o que vem através deste canal”. Refere-se  concretamente à importância dos planetas que se relacionam por aspecto com Netuno, já que a área de ação desse planeta será expressada através de Netuno, que somente transmite e canaliza sem poder controlar os impulsos que recebe.

Netuno foi descoberto em 23/09/1846. A carta do momento mostra uma conjunção exata: Saturno 25º08' y Neptuno 25º53', ambos retrógrados, em Aquário.

Pode inferir-se daí que Netuno viabiliza uma reclamação de Saturno, que em seu domicílio de Ar, diz que é necessário pensar outra realidade possível, mais fraterna, livre e igualitária.

A Mundana é uma especialidade astrológica em que a ideologia se torna evidente; é assim e não pode ser de outra maneira. Toda avaliação política e social se realiza desde certa perspectiva e descrição do mundo. O perigo aparece quando essa postura não fica clara, ou ainda pior quando “minha” postura pessoal se confunde com “a” Astrologia.

Espero que esta pequena reflexão nos mantenha mais alertas para não comprarmos alegremente “gato por lebre”, e não confundirmos conceitos tão evidentes como as diferentes funções de Netuno e Saturno.

(*)Pensadores à suspeita: são pensadores que acentuam a intenção do discurso mais do que o discurso em si. Há motivos inconscientes, de interesse de classe etc. que agregam um significado profundo que está além do que foi dito literalmente. Por ele, a importância de quem enuncia , mais do que aquilo que foi enunciado.

Para mais informações : http://filosofiauda.blogspot.com.ar/2011/05/filosofos-de-la-sospecha-marx-nietzsche.html  “Los tres tienen en común la denuncia de las ilusiones y de la falsa percepción de la realidad, pero también la búsqueda de una utopía.”

1.           Defensa e Ilustración de la Astrología. Editorial Iberia. Barcelona, 1965. Página 125.
2.          
Cyclos. Nº 3. Barcelona. Noviembre / diciembre 1993. Página 3.



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O JOGO ENTRE DOIS INSTINTOS

O JOGO ENTRE DOIS INSTINTOS

O filme Mil vezes boa noite tem Juliette Binoche no papel principal e muitos outros motivos que o tornam especial. Boa fotografia, um repertório de situações interessantes: vocação, ideais sociais, conflito entre família e trabalho, beleza. É daqueles filmes que nos alimentam com boas razões para pensar. Leia a seguir.

VOCAÇÃO OU FAMÍLIA

O trabalho do fotógrafo John Christian Rosenlund e a direção competente de Erik Poppe (2013), nos contam a história de u

ma prestigiada fotógrafa de zonas de guerra (Rebecca) e sua relação com marido e duas filhas. O conflito ocorre por que a família não suporta mais a sensação de tê-la sempre em situações de perigo.

A personagem central se divide entre a denúncia dos males do mundo e o amor da família. Certo? Não. Se fosse simples assim, não seria o grande filme que é. Ele vai além de qualquer simplificação. Senão vejamos os detalhes da complexidade da narrativa.

O filme inicia em uma belíssima sequencia em que Rebecca, testemunha de uma ação de terrorismo, quase morre. Isso gera uma reação do marido que não aceita mais esse tipo de vida da esposa, nem as filhas aceitam a distância da mãe. Daí, em uma tentativa honesta, a personagem decide assumir suas funções na família. A relação com o marido se restabelece. A filha mais velha Stephie descobre algumas afinidades existentes entre elas, o que promove a aproximação.

Mas logo, outra circunstância põe tudo a perder. E a ambiguidade se instala. Rebecca entra novamente em conflitos e com a máquina de fotografia na mão se abre ao perigo, voltando ao comportamento que prometera não repetir. E a separação se instala novamente na família. O evento que vive com a filha na África faz que seu marido de novo se afaste dela e desta vez de forma mais radical.

O que faltou para ela manter a postura e palavra assumidas? A definição ou não dessa resposta é parte inteligente da trama, talvez seja seu verdadeiro núcleo.

INSTINTOS EM JOGO

A nova circunstância vivida junto à filha mais velha conduz Rebecca a um segundo momento de questionamento. A motivação de sua ação profissional confessada em primeira instância era social e política. Mas, a filha Stephie lhe pergunta por que ela se coloca em situações assim.  A resposta traz nova versão: “É só instinto, você vai indo, não é por pensar.” 

Será que ela mente quando diz que o mundo precisa de sua denúncia e que quer que as pessoas engasguem ao café da manhã ao ver suas fotos no jornal? Ela não mente, sua indignação pode ser real. Mas essa talvez seja apenas parte da verdade. Há mais em jogo.

A segunda confissão admite que há algo dentro de si sobre o qual ela não tem controle; algo de que não pode fugir por ser pulsão instintiva. Um impasse está criado. Então, como sair dessa situação?

Mas a sequencia narrativa ainda guarda outra surpresa para nós. Ela retorna ao trabalho em Cabul, no mesmo local que inicia o filme. Só que desta vez é diferente. Fica aflita, descontrolada e se desespera ao ver uma adolescente em preparação para o sacrifício terrorista. Por vezes, ela levanta a máquina, mas não faz o clique. Sucumbindo, ela se ajoelha ao chão, entregue à dor e angústia, semelhante à da mulher que está a seu lado, que poderia ser a mãe da adolescente que vai se imolar.

A cena se fecha. Não há outras definições que nos indiquem o que vem depois. Sem uma conclusão, devemos decidir por nossa conta o que aconteceria com Rebecca daí em diante. Várias interpretações são possíveis.

Minha hipótese é que nesse momento ela vive uma dor maior. Pela segunda vez, foi refeito o vínculo materno com ambas as filhas. Seu instinto materno está forte e vivo.  Ele é sacudido intensamente nessa cena.

Daí em diante ela teria condições para deixar de fotografar cenas de guerra.  Somente outro instinto tão forte como o materno poderia promover uma mudança radical a ponto de ela superar seu instinto agressivo. Mas, isso é apenas uma hipótese. 

Só podemos contar com o que a narrativa do filme nos oferece. Ela não oferece soluções, mas somente imagens e metáforas com que podemos dimensionar a crise da personagem.

METÁFORAS E SIGNIFICADOS

Como o filme é econômico nos diálogos, podemos imaginar o tamanho de tal crise a partir de imagens que ganham lugar na representação de sentidos.

Assim, há longas cenas em que ela é vista sozinha no banheiro, olhando a própria mão, ou junto à janela ou ainda passando a mão por panos. Tais belas imagens nos falam de solidão reflexiva e de introversão.

Há também um sonho recorrente em que um corpo feminino bóia na água de cabeça para baixo. Essa imagem nos conduz a uma carta do tarô, o enforcado, presente no imaginário popular. É inevitável essa associação e rica a interpretação que nos traz as ideias de sacrifício e de destino. Nada mais coerente em relação ao que Rebecca vive: uma crise a leva a decisões que implicam em sacrifícios. Há desejos de defender ideais sociais e o destino escolhido de ter uma família. E há também os impulsos instintivos e incontroláveis de sua natureza assumidamente guerreira.

Essa é uma das grandezas do filme: o retrato de um dilema pessoal, a experiência biográfica de escolhas particulares e difíceis.

Embora as cenas inicial e final já valham a ida ao cinema, todo o filme é construído nos limites entre a beleza da arte e o trágico mistério da vida. Há um olho que busca no escuro, amedrontado e em alerta, arregalado procurando a luz. Há uma máquina fotográfica pronta a clicar sempre, na observação da realidade. E há a natureza humana em sua complexidade.

Rebeca confessou a sua filha que teria sido “muito brava quando jovem, tendo a fotografia como salvação”, mais velha sua história sofreria uma grande  mudança, mas a busca pela salvação continua atual.

Mais velha, trata-se de outra salvação. A natureza humana sempre busca salvar-se perante a complexidade da vida. Como resolver esse dilema?


Para saber mais sobre Tarô, recomendo o site de Constantino Riemma

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O TEXTO LITERÁRIO DE ÍTALO CALVINO


Estou lendo o livro AS CIDADES INVISÍVEIS, de Ítalo Calvino que nos traz Marco Polo e  Kublai Khan, duas personagens do século XIII em uma conversa imaginada.

Os relatos de viagem do mercador veneziano, que junto ao pai e tio andou pela Rota da Seda, são fonte de informação importante a respeito do Oriente.  Kublai Khan, neto de Gengis Khan, foi chefe do Império Mongol e tornou-se lenda na Europa depois da visita de Marco Polo.

Essa é uma pálida e rapidíssima visão da história real a partir da qual a genialidade de Ítalo Calvino constrói seu livro.                                                                                                                                                                     Na primeira contracapa, há a sugestão para que o leiamos lentamente. Não dá para ser de outra forma. Não me pergunte o motivo. Pelo menos a minha leitura está sendo aos poucos, bem aos poucos. Cada capítulo em geral uma página e meia me leva a espaços tão incríveis que eu desejo aí ficar e ficar e ficar.

São descrições de cidades visitadas pelo mercador italiano, em pequenos textos divididos em nove partes, com numeração em forma de quebra cabeça. A decifrar, ou simplesmente neles de perder num emaranhado de significados poéticos e ilógicos.

Entre esses capítulos, há pedaços da conversa entre Marco Polo e Kublai Khan. Mas, isso quando acontece, me acorda para outro nível da narrativa, porque eu já me tinha esquecido e estava sozinha na viagem do veneziano, tendo me colocado como uma parceira de viagem por cidades imaginadas e impossíveis.
No trecho abaixo, há um diálogo entre Marco Polo e o chinês:

 “Marco polo descreve uma ponte, pedra por pedra.
- Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? – pergunta Kublai Khan.
- A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra – responde Marco-, mas pela curva do arco que estas formam.
 Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta:
- Por que falar das pedras? Só o arco me interessa.
Polo responde:
- Sem pedras, o arco não existe.”

Ítalo Calvino nos conta nesse pequeno trecho que o exercício de pensar a realidade é complexo. Ele diz: Cuidado, não nos enganemos, a realidade pode ser diferente daquilo que imaginamos dela.

Mas isso é apenas uma percepção pessoal. Você poderá ler de forma diferente descobrindo nesse pequeno diálogo outros aspectos e significados.

Fica o convite para um encontro com Marco Polo, para acompanhá-lo na visita a cidades descritas ao imperador mongol. Uma viagem ilógica, insensata e poética, porque são especiais, muito particulares, os jeitos de um grande autor falar da vida e da natureza humana.

O texto  de Ítalo Calvino nos convida à experiência de fruição e de prazer. Através dele podemos até chegar à sensação de liberdade. As palavras descrevem um imaginário rico de sinais da realidade. São somente sinais, o resto é poesia. 

(SP: Companhia das letras, 1990.p.79)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

HANS HARTUNG, OFICINA DO GESTO

Visitei a exposição  no CCBB/SP (novembro-14 a janeiro-15) do pintor franco-alemão, Hans Hartung (1904-1989) mestre do abstracionismo europeu do século XX. Ele é referência da arte informal, da poética do gesto rápido, segundo as palavras do texto de apresentação da mostra. Conheceu diretamente todos os movimentos de vanguarda, do abstracionismo ao expressionismo. Foi reconhecido pela busca da liberdade artística e do seu comprometimento a favor da democracia, visto que viveu em tempos pesados de guerra. 
 
Sobre seu gesto de criar, ele diz: “Rabiscar, riscar, atuar sobre a tela são atividades humanas que, para mim, parecem tão imediatas, espontâneas e simples como dançar, ou as cabriolas de um animal que se pavoneia, corre, saltita. Uma planta que brota, o sangue que pulsa, tudo que germina, cresce, explode com vitalidade, com a força da vida, com sofrimento ou alegria, todas essas coisas podem encontrar sua encarnação peculiar – seu próprio signo – em uma linha desenhada que pode ser suave ou flexível, curvada ou ereta, rígida ou muscular, e em manchas de cor, estridente, alegre ou sinistra.”
 
Em épocas difíceis, ele confessa: “Meus desenhos estavam atravessados por traços entortados, estranhos, enlameados, desesperados como arranhões. Era uma pintura veemente, revoltada como eu mesmo.  Eu tinha a sensação de haver sido enganado. Fora alguns franceses que haviam sido mobilizados, os pintores todos haviam passado a 
guerra refugiados em algum lugar. eles não haviam parado de trabalhar, de progredir.”
 
No final do ano de 1933, em meio ao seu retorno de Saturno, que reflete uma época de fechamento de ciclo e de decisões importantes, ele diz: "Em fins de 33 /.../ eu entendi que o caminho que eu havia tomado há uns 10 ou 11 anos antes era o verdadeiro para mim. Olhei enfim para meus antigos desenhos do tempo de escola. Larguei tudo e recomecei por eles."
 
Essa confissão decide sua vocação e caminho pela vida. 
 
Um grande trígono em signos de ar (Libra/Marte, Saturno/Aquário e Lua/Plutão/Gêmeos) lhe facilitariam o sucesso na arte e pintura. Digamos que o T-Square em signos cardinais Mercúrio/Capricórnio, Marte/Libra e Júpiter/Áries) com ponto Apex no planeta Mercúrio, lhe fariam preferir a comunicação cuidadosa e pelo gesto físico na exploração fecunda dos recursos, como se observa em suas várias fases.  

 
Ficou em mim a impressão de que, como sempre, a arte é expressão de vocação e de alma. Das possibilidades mais incríveis da natureza humana. ou como ele mesmo diz, espontânea e que "explode com vitalidade, com a força da vida".   
 
Para mais informações, visite o site do CCBB ou leia o arquivo:
 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

AS BANDEIRAS E A VIDA

A matéria de jornal falava da aproximação entre Cuba e EUA depois de décadas de afastamento. Foi uma notícia que recebi como um presente de caráter pessoal com alegria que extrapolou os limites do bom senso. 

Como a foto que ilustrava a matéria chamou minha atenção, entrei em seus detalhes, nos limites concretos dos objetos e das coisas. 

Andei pela pintura descascada das paredes, pelos metais sem brilho e enferrujados das balaustradas da sacada e pelos contornos de madeira das janelas. Mergulhei na aparência decadente do prédio.

Em vasos de variados tamanhos, a vegetação ganha uma função decorativa e outra de respiração sobre o caráter envelhecido de tudo. Uma gaiola, com pano em cima, esconde um passarinho?  Um sol traz luz e provoca sombras.

Sobressai, entretanto, a imagem colorida de duas bandeiras colocadas juntas, duas nações que se aproximam. Meu olhar parou buscando o que elas ganham de função nesse cenário cheio de sinais de um tempo de estagnação, como se um passado tristemente longo teimasse em se fazer presente. 

Que significados elas têm? Será um colorido fresco e renovado, uma aragem de futuro?

Mas, é a pessoa que me interessa mais. Fixei o olhar nessa possível autora do arranjo que está na sacada. Mergulhei em seu íntimo procurando seus sentimentos. Tentando descobrir em sua vida os tempos anteriores à possibilidade desse arranjo de bandeiras.  Decepção, frustrações acumuladas? Desejos contidos? Vivi suas dores. Senti os olhos opacos. Uma dor no peito que lembrava a renitente restauração da desesperança. Foi tempo demais.  
   
E também senti sua alegria atualizada. Não, isso seria impossível. Senti somente o mero reflexo dela na alegria possível a mim. 

Tal imagem movimentou meu cotidiano que foi revolvido de várias maneiras. Não entrei no viés político. Meu interesse é a experiência humana acima das crenças e ideologias que costumam se mostrar incompetentes e precárias.

Nesse clima passei o Natal. Esse acontecimento batizou os meus momentos de comemoração, abrindo imaginados e longínquos espaços de uma ilha no Caribe onde nunca estive.

Estabeleci parceria com essa pessoa na sacada. Para ela a esperança voltou. Da sacada ela olha uma nova realidade. Ela me visitou e ficou. Inspirou-me. 

Essa foto foi guardada como o mais querido presente deste Natal. Esteve comigo na passagem para o novo ano.  

Também está hoje, e talvez ainda ficará como um símbolo ao longo do tempo.

sábado, 20 de dezembro de 2014

AS ESCOLHAS DE MATHEUS NACHTERGAELE

Em uma entrevista, Matheus Nachtergaele, ator e diretor do cinema brasileiro contemporâneo, falou dos filmes de sua vida. Depois disso, fui verificar se em seu mapa algo que justificaria suas escolhas.  

O primeiro filme citado era um super oito, digitalizado de trechos com cenas familiares. Nele Matheus, que perdera sua mãe enquanto ainda era bebê, conheceu sua mãe na época da infância dela. Segundo ele, foi o presente mais bonito que o cinema lhe deu.

O segundo foi A balada de Narayama, filme japonês de 1983 de Shohei Imamura.  Conta a história (final do séc. XIX) de uma mulher que faz  sacrifícios para tornar melhor a vida de seus dois filhos e nora.

O terceiro filme citado por ele foi La Luna, de 1979 de Bernardo Bertolucci, que trata da vida turbulenta de um jovem e a relação com seus pais, especialmente com a mãe incapaz de educar e impedir que ele se perdesse em caminhos perigosos.

Fui ao mapa: 3 de janeiro de 1969 em São Paulo (sem horário de nascimento). Eu já tinha hipóteses, assim como você também deve ter. O aspecto que talvez seja o principal é Lua em Câncer. Mas ela está em oposição ao Sol em Capricórnio, indicando uma necessidade de equilibrar questões emocionais e de autoridade no mundo material. A conjunção de Júpiter e Urano em Libra dá–lhe a percepção da importância da educação e do conhecimento. Netuno (Escorpião) em quadrado a Vênus (Aquário) lhe faz sentir a falta do amor nas relações de forma frustrante passando por ilusões e desilusões. Mercúrio (Capricórnio) em trígono a Plutão (Virgem) surgiu na fala lenta e cuidadosa, na profundidade das colocações que procurava a palavra correta e mais adequada ao que interessava ser expresso.

Nessa entrevista ele abriu seu coração e vida de forma generosa, tendo marcado o papel da mãe nos filmes e na sua também, como uma maneira moral de se formar uma pessoa. Ele confessou que Odim (do filme japonês) fez o que sua mãe não tinha conseguido realizar por ter morrido muito cedo: o papel de educar e de cuidar dos filhos.



Foi uma oportunidade única de conhecer a sensibilidade e inteligência de alguém tão talentoso.  

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

DANDO SENTIDO À VIDA

Qual é a relação entre mitologia e astrologia? e dessa relação com nossas vidas?
 
No livro Astrologia Viva (Barcelona: Ediciones Obelisco, 2005), Barbara Shermer nos conta que os mistérios de Elêusis (rituais de iniciação ao culto de deusas agrícolas Deméter e Perséfone) funcionavam como uma vivência que poderia transportar os indivíduos a uma compreensão maior da vida. No nível mais explícito, eles significariam a morte e renascimento da natureza que alimenta a vida. 
 
No capítulo intitulado "A ASTROLOGIA E OS DEUSES" ela estabelece a relação desses ritos com a astrologia dizendo: "Os mistérios de Elêusis representavam a experiência morte-renascimento que os astrólogos reconhecem como o processo do arquétipo de Plutão na psique individual. Os arquétipos e mitos astrológicos dos deuses e deusas se inspiram nas mesmas fontes. A mitologia contém as manifestações particulares dos arquétipos em seus diferentes padrões. A astrologia incorpora dez destes arquétipos essenciais (e muitos mais) em uma linguagem para sua compreensão."    
 
Ainda segundo a autora, esse acontecimento ritual promovia uma comunhão e representação do mito que "ressoava com uma verdade que estava mais além da fronteiras culturais" e "proporcionava aos fiéis eleusinos uma experiência cósmica. Se os arquétipos astrológicos surgem dos mesmos reinos profundos e inconscientes da mente como deuses e deusas, então dar vida aos símbolos astrológicos deveria proporcionar o mesmo tipo de comunhão.
Se, por exemplo, aprendemos a expressar ativamente nosso Plutão, dando a ele vida conscientemente, então já não negamos ou reprimimos seu poder e assim podemos evitar as costumeiras explosões de emoção ou conflito que o caracterizam.
Ao encarnar a verdade simbólica deste planeta aprendemos a utilizar nosso próprio Plutão de uma forma mais consciente: penetrando em seu poder, transformando-o e assimilando-o."
 
Barbara Schermer sugere que nesse caso os planetas deixam de ser imagens mentais isoladas e passam a ser experimentados como ritmos vitais que revelam sentimentos subconscientes mais profundos e aspectos do ser não anteriormente expressados.
 
Daí que "O mapa deixa de ser então uma coleção de dados estáticos em branco e preto, unidimensional, com símbolos e signos inanimados e se converte em um campo em movimento de ação planetária: vibrante, interativo e vivo!"  
 
É isso. A relação entre mitologia e astrologia pode nos fazer ir mais além do nível explícito da vida material.
Ela nos abre a possibilidade de um significado maior em nossa experiência se tivermos uma postura de compromisso própria a um ritual ao entrarmos em contato com os símbolos do mapa astrológico.
Cabe a nós darmos abertura para essa possibilidade na intenção de dar mais sentido à vida.
      
(nossa tradução do texto em espanhol)  
 
 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

RAZÕES PARA MORRER

Brittany Maynard, uma mulher jovem, recém- casada e bonita, apareceu na mídia por causa de sua decisão de se submeter a um suicídio assistido em razão de um câncer agressivo no cérebro. Isso gerou por aqui e em outros países debates a respeito de ética médica, de questões judiciais e religiosas.

O que chama a atenção é a idade em que se deu essa decisão na vida de Brittany, nascida a 19 de novembro de 1984, em Anaheim na Califórnia. No dia primeiro de novembro, poucos antes de completar trinta anos, ela deu fim a sua vida, rodeada de amigos com um coquetel de barbitúricos com prescrição médica.

Estava no final de seu Retorno de Saturno (outubro de 2013-novembro de 2014). Qual era seu desejo? Morrer com dignidade, já que não lhe sobrava muita alternativa de acordo com o diagnóstico médico, além da continuidade de dores insuportáveis em direção à morte.

Partiu em busca das circunstâncias adequadas a esse desejo, na fase do retorno de Saturno que é uma tarefa a ser cumprida e um exercício de autoridade em nossa vida. Ela conhecia suas limitações e tinha um senso de realidade (Vênus e Júpiter em Capricórnio). Ela sabia que tinha compromisso com o social a sua volta (Lua em Libra e Marte em Aquário).

Mas, para Brittany, tomar essa decisão talvez não tenha sido tão difícil mesmo tendo que romper com as expectativas mais simples da natureza humana que é viver:   Sol em conjunção com Saturno em Escorpião e em conjunção exata com a Cauda do Dragão. Decidir pela morte pode ter dado nova direção a sua existência, um sentido às aspirações de sua alma. Foi uma decisão com a força de sua inteligência brilhante e visão mais ampla dos desígnios da vida (Mercúrio em conjunção com Urano em Sagitário).

Talvez ela tenha contado com outro trânsito importante para essa decisão (além do Retorno de Saturno): o quadrado de Plutão/ Urano em trânsito no seu quadrado natal Lua-Libra/Júpiter-Vênus Capricórnio. Esse conjunto pode ter  assoprado no ouvido de Brittany a existência de outros limites imponderáveis de liberdade depois desse contato com uma realidade incontornável.  Junte-se a isso um chamado da alma, uma intimidade solitária e responsável sendo mobilizada.

Em suas últimas palavras, ela professa o único sonho que lhe cabe, pensando em outras pessoas em situação parecida à dela. Manifesta então uma noção dura da existência colorida por uma visão idealista e nobre.

Por amor, um tipo em que entra Vênus/Júpiter em Capricórnio e os desígnios dos outros signos de seu mapa natal, ela diz: “My dream is that every terminally ill American has access to the choice to die on their own terms with dignity. Please take an active role to make this a reality.” – Brittany Maynard, October 24, 2014






terça-feira, 25 de novembro de 2014

QUANDO A GENÉTICA NÃO FAVORECE

O pai era um senhor alto, grandalhão, bem vestido, de pasta, óculos e terno impecável. Possivelmente do time dos executivos.

Ao preparar a leitura de seu mapa, detectei como elemento predominante o fogo que promete disposição e atividade fortes, vontade dinâmica e masculina. Pude detectar tais características em seu comportamento. Ele seria facilmente identificado com uma mistura de vontade e idealismo, importantes dados que movem o mundo. A leitura de seu mapa foi interessante e ele me ouviu com olhos atentos de quem estava desejando saber a respeito de seu mapa natal. Não houve surpresa: era da equipe dos executivos bem sucedidos.   

Depois, era a vez do mapa natal do filho que indicava um contexto diferente. O jovem mostrava uma disposição delicada e talentosa para as artes, com predominância do elemento água.

Por Batman, por todos os deuses do Olimpo e até pelo velho Conan!, a situação era difícil, pois o adolescente estava sendo encaminhado para a escola militar.

Sua natureza quase feminina, talvez reagisse mal a essa circunstância autoritária e disciplinadora. Mas, por outro lado, a fase astrológica que ele passava indicava uma época de aprendizagem e de limitações. Poderia ser então benéfica. Seria? Estariam os adultos a sua volta atentos para os paradoxos dessa situação e preparados para dar suporte ao rapaz no novo contexto?

Como astróloga eu não poderia levar em conta meus desejos pessoais, certamente. Não cabia a mim, torcer a favor do menino ou desejar que o pai tivesse uma atitude educativa diferente. Neste momento era impossível indicar uma educação de cunho mais humanista. Tudo já estava planejado e era um sonho do pai.

Que a humildade esteja sempre presente ao lado do astrólogo profissional especialmente quando ele está em frente ao cliente! Quem sabe o que a vida promete para as pessoas? Que mistérios escondem a presença desse filho na vida de seu pai? Quem é a astróloga para dizer algo a respeito dessa questão tão familiar e misteriosa?  
Lá estava eu com a questão inevitável: dizer para o pai a verdadeira natureza do rebento. Normalmente os pais, bem no fundo de seu coração, desejam ouvir que seu herdeiro, também o é de suas qualidades pessoais.

Procurei observar aquela pessoa à minha frente, enquanto eu ia desfiando as ideias a respeito do mapa do filho. Haveria decepção? Frustração? Rebeldia perante uma brincadeira da genética?

Mas, quem sabe se essa não seria a natureza da mãe? Ela era já falecida. Não obtive outras informações a seu respeito. Mesmo procurando com jeitinho questionar a esse respeito, esse detalhe não pareceu importante ao pai.

Ele estava na minha frente e eu lhe passei a informação que ele tinha vindo buscar. Não vislumbrei reação que pudesse me dizer seus sentimentos.

Não houve abertura para outras abordagens da questão que me preocupava. Eu tinha uma notícia a dar. Como síntese, o meu discurso disse: seu filho é um artista. Que ele faça bem a escola militar com sua ajuda e presença, parceiras importantes no tempo e espaço dessa experiência.

Mas, meu coração desejava de mansinho: deixe-o ir por esse caminho, se um dia o desejar. Ainda que seja após a escola militar. Que ele cumpra a tarefa da família e que ele possa viver todos os lados de sua natureza.

Será que isso aconteceu?
            
    

    


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

FOTÓGRAFO MESTRE, LEO DIVENDAL

Em setembro deste ano, participei de um workshop com um fotógrafo holandês. Foi uma imersão no mundo da imagem e da beleza. Quis descobrir qual é a marca da autoria em fotos. Além disso, observei a tarefa de um grande profissional da fotografia que é também mestre em ensinar. Leia a seguir um pouco dessa experiência.

A  MARCA PESSOAL NA FOTOGRAFIA
leo_divendal_out14.pngCaso o workshop fosse uma furada para mim, eu estaria salva pela beleza do Parque Ibirapuera. A oficina de dois dias chamava-se A linguagem pessoal da fotografia. E o holandês Leo Divendal pedia que levássemos de dez a quinze fotos que seriam ponto de partida para o trabalho a ser realizado. 

Não sou fotógrafa nem tenho interesse em me tornar profissional nessa área. Mas a curiosidade me levou ao MAM. Grudei nesse chamariz: o que seria a linguagem pessoal para o Leo Divendal? Como se cria a marca de uma autoria na arte fotográfica? 

Pensando essa arte como representativa de algo pessoal, atravessei as paredes de vidro do museu. No fundo, eu exagerava na ansiedade. Estava crente de que me dirigia ao encontro de mim mesma com Leo, o leitor de pessoas nas fotos. Sem ter intenção de descrição jornalística, passo neste relato pessoal um pouco do ocorreu naqueles dois dias.

Leo Divendal, a partir de inúmeras atividades, se dedicou a nos ensinar como olhar fotos e de como criar climas para a obtenção do que queremos.

Contou sua experiência pessoal em uma viagem em que desenvolveu um trabalho fotográfico. Era um navio mercante com tripulação filipina. As fotos de sapatos dos vinte trabalhadores desse navio contaram histórias de seus donos. 


Abriu na mesa em volta da qual nos reuníamos, inúmeras fotos de uma mesma paisagem com rochas, praia e ondas, banhistas no mar. Várias perspectivas e angulações compunham uma pesquisa com passos e estratégias pensadas para que decisões fossem tomadas e para tornar as coisas mais precisas. Precisas? Bom, certo tipo de precisão, pois segundo ele, Todo espaço tem elementos conhecidos e outros a serem descobertos. É necessário tirar as camadas, uma a uma cada vez mais na direção do interior. 


leo_divendal_3_out14.pngTrouxe também cartões postais antigos, com selos e escritos com caneta a tinta. Mostrou um pequeno desenho de Rembrandt de uma mulher na janela, olhando para fora. Mas, e ele nos pediu atenção, era um olhar para dentro também, em vários níveis internos e externos. Citou o fotógrafo francês Jacques Henri Lartigue (1894-1986). 

Foi um apanhado de possibilidades nesse primeiro dia que acabou com uma análise das fotos trazidas por cada um dos seis participantes. No segundo dia, ele desdobrou uma análise ainda mais vagarosa dos arranjos preparados em casa. Com sutileza tirou do conjunto deles a alma de cada um de nós.  

O GRUPO

O grupo mostrou a que veio e Divendal deu seu recado.

Demerson trouxe dois conjuntos de fotos. No primeiro, ele fotografa uma festa e é subjugado por ela, - capturado e roubado de si mesmo. Na segunda série, ele pôde entrar em mais profundidade multiplicando imagens de ondas do mar com espumas ou movimentos. Nesse mar, ele cresceu. 

Para Gi, Leo sugeriu que reavaliasse sua impulsividade, já que ela reage rápido demais ao que sente. Sugeriu então que investigasse a linha das sensações, perguntando o que faz a conexão entre elas.  Disse ainda que era necessária a consciência da distância sem perder a continuidade no tempo, a permanência. 

Seguiram-se os conjuntos de Lara que contam histórias, as fotos de Júlia com suas colagens e intervenções. Por que não mais algumas colagens nessas outras fotos?, desafia ele.

 E ele também leu o livro de fotos de André, com suas páginas negras e brancas provocando pausas e o deixando ao final sem fôlego.

As minhas fotos? Um conjunto sem critério, a não ser o gosto de ir juntando imagens pelas viagens, flores e paisagens urbanas.  Depois de eu lhe confessar meu real interesse na fotografia enquanto representação biográfica, ele me questiona: Você quer mais? Vi-me no confronto com o desconhecido. Nunca tinha pensado a respeito de ir mais longe. Será que eu queria?

Assim como ele descobriu a ansiedade de Gi e a distração subjetiva do rapaz a se perder, ele revelou de mim certa duplicidade, uma dúvida, paradoxo. Decidir como? 

LIÇÃO

As indicações de Leo iam mostrando como as fotos devem ser olhadas. Na verdade, como olhar a realidade externa. Estávamos aprendendo a olhar o mundo. Aprendíamos a trazer as coisas para perto de nós, junto a outras imagens, textos e músicas.

Mas, ao fazer isso abríamos possibilidades de despertar imagens internas. Estabelecíamos ligação com os objetos, pela sensibilidade no olhar e pela intensidade do tempo, sem pressa. Todas essas ações contribuindo para a formação da linguagem pessoal de cada um. Assim como ele fazia ao estudar cada conjunto de nossos trabalhos. Sua fala era pausada - como seus gestos- e ele ia soltando as ideias devagar em um inglês arrastado com forte sotaque. 

Há necessidade de se dispensar tempo e energia para fazer foto, ele dizia. Ir do realismo ao impressionismo, chegar a uma atmosfera especial, descobrir uma coreografia.  Entrar no valor metafórico do que se vê. 

leo_divendal_4_nov14.jpgA beleza não precisa estar somente nos momentos mais previsíveis de beleza. Imagens-ícones por serem muito conhecidas tornam-se sem sentido, achatadas. Há beleza em coisas comuns. Porém, beleza é palavra generalizada. São possíveis nuances, interpretações, estímulos ao jeito de olhar. Processo que é também linguístico. É preciso criar beleza do mais geral para o mais pessoal.
   

Parece que entendi como se cria a linguagem pessoal: trazendo o mundo para perto de nós. Dessa forma, fotografamos a nós mesmos. Somos o que é expresso e quem constrói a expressão ao mesmo tempo. Essa é a marca da autoria.

Eu não sei se vou continuar pela fotografia, mas ao atravessar de novo as paredes de vidro do museu no momento de ir embora, sabia que levava comigo uma pergunta sem resposta: quero ir mais longe? Talvez seja suficiente chagar mais perto de mim mesma, como ensinou o mestre.
 


Levava comigo muitas ideias e imagens e, principalmente, a sensação de ter partilhado da companhia de um mestre, pelo planejamento das estratégias, pelo bom gosto do material selecionado, por sua atenção a cada participante, por sua competência.

E ainda trazia na memória a melodia de uma canção de que, em algum momento do trabalho, Leo cantarolou trechinhos. Era uma canção antiga de Paul Anka cujo refrão dizia: 


You are my destiny
You share my reverie
You are my happiness
That's what you are.

PS : As fotos ilustrativas são do Leo assim como o retrato. Leo Divendal  ( http://www.leodivendal.nl/  ) veio ao Brasil a partir de uma parceria com o fotógrafo Marcelo Greco ( http://www.marcelogreco.com )