terça-feira, 28 de julho de 2015

BOM DIA, MARCELO

Gente na calçada. Muitas mãos acenando no ponto para o ônibus que se aproxima. Ele para. Subi ao me certificar de que faria o trajeto desejado. O motorista me cumprimentou. Bom dia! Teria eu me esquecido de lhe dar bom dia ao pedir a informação? 
  
Talvez. Dei-lhe também o bom dia e coloquei-me nos assentos da frente do ônibus para olhar o caminho a ser percorrido.

Nos próximos pontos percebi que o motorista cumprimentava todas as pessoas que entravam. Isso se repetiu em todos os pontos de parada. Muitas pessoas respondiam. Algumas se espantavam. Outras simplesmente descartavam. Era um comportamento intencional, com certeza. Um teste?

A conversa atrás de mim começou a correr solta. Pela conversa entre duas senhoras fiquei sabendo que o Marcelo tinha sido traído. Não fiquei sabendo se ele era jovem ou mais velho. Mas era conhecido das duas mulheres, que continuavam seu tititi animadas. Ele chorava muito e chegou a passar mal fora de casa, em uma lanchonete. Coitado. Chegou a cair no chão com um mal súbito. 

Mas não chegou a ser ataque do coração. Teve socorro, foi reanimado e levantado do chão por pessoas que cuidaram dele. Ainda bem, continuava a senhora, que ele foi traído por sua mulher com outro homem, né mesmo?

A última frase me pareceu surpreendente. Fez muito sentido porque atualmente o comportamento homossexual anda fora do armário, à vontade. Coitado do Marcelo. Fofocas à parte, concordei com ela internamente. Teria sido um desprazer encontrar sua mulher com outra mulher na sua cama! Bem, nesta parte da história eu supus uma cena com criados-mudos, cinzeiro, copos. E abajur, claro.

Não sei se outras pessoas estavam seguindo a história do Marcelo, mas algumas também perceberam os bons dias repetidos à exaustão. O motorista teria uns quarenta anos e era tranquilo. Parecia alto e grandalhão de corpo. Camisa clara e bem passada. Cabelos curtos e assentados. Ele continuava cumprimentando todos que subiam por aquela pequena escada da entrada, como se fosse sua casa e eles o estivessem visitando. Outras pessoas que estavam nos bancos da parte de trás começaram a conversar também. Não sei bem, mas algo mudou. Espalhou-se um clima de intimidade ou familiaridade entre os passageiros. Por isso a história do Marcelo me passou pelos ouvidos tão convincente. Só poderia ser verdade, ainda que tragicômica. Eu fiz parte daquela história.

Sem saber do que se passava na vida do pobre Marcelo, as pessoas chegavam na sala de visitas que se instalara naquele ônibus. As caras eram engraçadas. Surpresos, mal-humorados, distraídos. Depois vi uma senhora conversando com o motorista e falando dessa postura. Antes de descer, parei um pouco ao lado dele. Sim, era intencional. Ele fazia porque achava que devia e ainda expôs alguns argumentos dentro do que eu esperava. Além de tudo o que enumerou, ele tivera uma experiência de dois anos em Londres.

Mas, essa informação por si só não poderia justificar seu comportamento. Havia um valor agregado em relação a sua visão de vida na cidade. Muito pessoal. Uma visão maior do que aquela que temos do nosso quintal. Ele antecipou, imaginou uma alternativa. Parece ter escolhido fazer a diferença.

Sendo o responsável pela direção de um ônibus em uma cidade com um trânsito infernal, acrescida de todas as pragas das grandes cidades do mundo contemporâneo, ele ainda conseguiu tomar uma decisão. Aos poucos, vai construindo uma experiência que agrega as pessoas. Assim também diminui a fragmentação da vida urbana e as distâncias entre os padrões sociais. Elimina as diferenças.

Agradeci e segui com um olhar generoso para o dia, plantado pelos muitos bons dias que eu assisti serem distribuídos por aquele motorista de ônibus.

E que o Marcelo seja feliz.


quinta-feira, 23 de julho de 2015

ÓBIDOS, DAS MURALHAS E DAS RAINHAS

obidus__brazao_.jpg
Um amigo me disse em meio a café e creme que, para quem viaja todas as cidades são lindas. Concordo. Só que cada cidade tem uma alma. Se o viajante tiver tempo, ele a descobrirá. Ela habita detalhes em um edifício, nos vitrais da igreja, nas árvores às margens do rio. Ou ainda, em cantos escondidos ou na personagem de uma praça. Encontrei a alma de Óbidos, em Portugal, enquanto andava pelas altas muralhas da cidadela. Lá encontrei também rainhas, princesas e até um escudeiro.

EM DIREÇÃO AO DESEJO
  
A primeira passagem pela cidadela tinha sido rápida. Eu estava em uma excursão por algumas cidades próximas a Lisboa. Não me conformei quando voltei ao ônibus, de saída para outro destino, sem andar por aquelas muralhas, sem tomar um tempo maior pelas ruelas apertadas. Óbidos ficou calada dentro de mim ao longo do tempo junto a uma ansiedade mansa. Era agora o momento de resolver essa pendência.


obidus_dentro_das_muralhas_-_copia.jpgDe Lisboa, o trajeto de hora e meia se fez por um trem composto de um vagão antigo, que tinha um marcador digital de velocidade acima do compartimento do maquinista. Tal marcador não combinava com as pequenas cidades do caminho: Torres Vedras, Bombarral, Outeiro, São Mamede, Mafra. Em cada uma delas, havia painéis de azulejos azuis e brancos enfeitando suas estações, que são sempre promessa na chegada e solidão na partida. Ele também não combinava com a população que utilizava esse meio de locomoção, com suas sacolas de verduras e pacotes, senhoras e senhores que se conheciam e conversavam discretamente. Mas ele ficou lá me avisando a cada mudança de velocidade. Confesso que quando ele ultrapassou os 90 km/por hora, eu tive medo de que a composição se desintegrasse. Hoje eu penso que teria sido bom, caso isso permitisse ir para outra dimensão. Aventura.


Ao chegar à estação de Óbidos, encontrei um rapaz que deu a informação do melhor caminho para a subida pelo monte até a cidadela. Podemos ir juntos, vou também para lá. Além da companhia, recebi dele informações históricas do local, algumas de suas particularidades e sugestão para o almoço. Ele citou três restaurantes. Qual seria o melhor?, insisti. Então ele reafirmou o nome do restaurante da Casa das Senhoras Rainhas e timidamente confessou que trabalhava lá. Delicadeza e respeito na postura.


A caminhada pela estrada estreita em direção ao meu desejo foi lenta, com a vista da paisagem cada vez maior se abrindo no horizonte, à medida que subíamos ladeando o morro. 

Óbidos é uma vila de 2200 habitantes e um quilômetro e meio de extensão de muralhas a sua volta.  Foi construída pelos celtas no ano de 308 a.C., mas tomada ao longo da história pelos romanos, visigodos, fenícios, mouros, até que D. Afonso Henriques a reconquista, em volta de 1140. Camadas de história comuns no velho continente. Mas, D. Dinis, o rei Lavrador, amante das artes e das letras, casado com Dona Isabel, em 1282 a instituiu como a Casa das Rainhas, ou seja, a cidadela seria desde então dada a todas as rainhas como prenda de casamento. Portanto, Óbidos é uma joia real.


_bidos_1afonso_henriques_jul15_-_copia__3_.jpgPassar pelo portal de entrada me trouxe a sensação de ter chegado a casa. Não distante dali, estava a praça central de Santa Maria junto ao Pelourinho. Havia um movimento de crianças de uns oito a dez anos que corriam e se juntavam em grupos com o mapa da cidade nas mãos. Estudavam brincando, possivelmente. Além deles, outros visitantes enchiam as ruelas e as lojas de lembranças e comidas típicas do comércio local. Tomei a bebida típica, ginja, em copinho de chocolate na companhia do D. Afonso Henriques me olhando a partir de um retrato enorme na parede do local escolhido para uma parada. Entabulei conversa: Eu o conheço como o Conquistador, sabia? Seus feitos e conquistas o tornaram fundador de Portugal, na sua época denominado Condado Portucalense.


Daí em diante, segui pelas ruas bem cuidadas. Pequenos vasos ao lado das janelas ou na soleira das portas. A casa Mourisca, Travessa de Mestre Fernando, Arco da Eva da Cadeia, rua de Martim de Curvelo. Tudo lindo. Mas o que eu queria mesmo era andar pelas muralhas. 

Dei-me, então, o tempo necessário para completar essa tarefa que a princípio pareceu difícil. O espaço para caminhar ao lado delas, parecia estreito. Esse temor logo se dissipou ao ver os sítios todos da perspectiva do alto.


De lá, percebi melhor os tetos em triângulos, as construções brancas com os picos laterais das paredes em azul ou amarelo forte. E a paisagem de fora da cidadela se estendendo ao longe. A vila bem no alto do morro e embaixo os campos e povoados a sua volta com construções mais atuais e estradas perdidas no horizonte. Do lado de lá, o tempo presente. Do lado de cá, uma história muito antiga com detalhes de rainhas e seus reis. Trovadores sussurravam ao meu ouvido penas de amor, cantando baixinho sua dor a falar de mulheres lindas e distantes. Procurei adivinhar os pensamentos dos vigilantes que teriam andado por elas por séculos a fio em caminhadas solitárias com vento e frio pelas frestas das armaduras.

Depois, veio o almoço na Casa das Senhoras Rainhas. Um bacalhau em etapas cuidadosamente arranjadas. Vinho branco dourado. Uma sobremesa que quase deu dó de comer de tão lindamente apresentada, com amêndoas e caramelo. E me dei conta de que a jovem que servia era como uma princesa por sua postura e comportamento. 


Detalhes como esses foram se acrescentando mas, o que teria sido mais importante do que a vista da muralha? Não sei dizer.

obidus_muralhas_a_edit.jpgUm pedaço de minha alma estava ainda nos séculos doze ou treze. Ela se encontrou com a alma medieval da cidadela. Como naquela época, andei pelos caminhos das rainhas. Me senti uma delas. Fui atendida por uma princesa e não faltou a companhia de um escudeiro que, a serviço do rei, me conduziu ao meu desejo pela mais linda via.

      
Cada vez mais longe ficaram as risadas e barulhos das crianças na praça. A princípio desordenados e misturados aos ventos que sopravam pelas ruas estreitas, tais ruídos foram se diluindo enquanto eu revejo hoje na imaginação o balanço leve das bandeirolas nos mastros do portal da entrada. 


Ainda procuro escutar os trovadores sussurrando no meu ouvido suas cantigas a falar de amor em versos baixinho, baixinho. 

segunda-feira, 20 de julho de 2015

OS MUSEUS SE PENSAM



Aconteceu em junho último o seminário Políticas da mediação, no Museu de Arte de São Paulo (MASP). A intenção foi reunir pessoas para pensar questões relacionadas as ações dos museus.  
Como visitante e amante de museus em geral, fui lá ver do que se tratava. Os debates indicaram que as mudanças a que assistimos em tantas áreas de nossa época chegaram aos museus. Eles se preocupam com sua atuação nas sociedades de que participam. Eles se pensam!
Tais preocupações com suas relações com o público, mobilizam seus responsáveis e, especialmente os departamentos educativos, que foram mobilizados para investigar a articulação entre suas práticas artísticas e a mediação intercultural.
Claro que as questões econômicas entraram no rol dos temas em debate. O que o departamento educativo de um museu representa economicamente: despesa ou receita? Financiamento, patrocínio, sustentabilidade e a profissionalização do educador estiveram na pauta. 
E outras reflexões foram feitas. O que mais é possível além das visitas individuais ou de grupos? Como elaborar práticas tais como ateliês, oficinas e seminários, a fim de permitir a colaboração do público de forma mais ativa?  
Foi momento de os educadores e administradores dos museus se perguntarem: o que resta de nossas ações? Qual é a importância dos registros, formas de avaliação e documentação, e das publicações e arquivos das visitas?
Fiquei de lado, participando das sessões de avaliação  e observando que debates como esses poderão fazer os museus voltarem a ocupar o papel que lhes cabe na cultura.
Eles se inserem no quadro das humanidades. Necessárias hoje em dia.
O público tem feito filas enormes para ver exposições nos últimos tempos. Esse é um fenômeno interessante.
E o debate no MASP talvez seja uma resposta a essa demanda por perceber que estão abertas oportunidades. Agora é a hora de mudanças importantes na atuação dos museus para ratificar eficientemente a nova necessidade do público.
Duas perguntas finais:
Você leva a sério o livro de assinaturas nas exposições e museus que visita?
O que fica com você quando vai a uma exposição?
PS. Representados nesse evento, o Museu de Arte Moderna da Bahia (transformado no Museu-escola Lina Bo Bardi), a Fundación Museos de la Ciudad, de Quito (Equador), o Instituto Inhotim (Minas Gerais), o Museu de Arte do Rio (Rio de Janeiro), espaços culturais de Natal (RN), do ABC/ SP entre outros e muitos interessados em espaços de arte e museus.
Aproveite as exposições de Joan Miró no Instituto Tomie Ohtake até 16/08 e Kandinsky no CCBB até 28/09, em São Paulo /para citar somente dois eventos culturais.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

MAPA ASTROLÓGICO, DIÁLOGO E LEMBRANÇAS

É sempre uma boa surpresa ter notícias dos clientes falando de suas lembranças e experiências a partir da leitura do mapa astrológico efetuado.

Certa vez, recebi um cartão postal enorme de Paris, em que uma cliente dizia: "Sua bruxa, estou em apuros, mas foi como você disse, inesperado e forte... Achei o amor por aqui e criou-se uma difícil situação..."

Muitas vezes essa comunicação se dá por telefone:

- Sabe, Ana, aconteceu tudo como você previu... deu tudo certo...

Do lado de cá do telefone, no primeiro momento eu vivo a alegria de ver o contato estabelecido e vivo, o diálogo acontecendo entre o meu trabalho e as pessoas. Um pouco de vaidade. Logo depois, com um frio percorrendo a espinha, entro por emoções desordenadas. Na verdade, o que meu cliente está falando me preocupa por vários motivos.

Minha memória nem sempre registra ou conserva os dados. Ao sair do meu consultório, o cliente leva consigo tudo o que foi dito. Permaneço com o calor da presença amiga. E ela também deixa comigo sua esperança. Os motivos de minha pouca memória? Talvez se trate de algo entre defesa emocional ou cansaço intelectual. Felizmente, na maioria das vezes a lembrança volta quando conversamos ao vivo.


Os outros níveis são mais delicados de tratar. Será que acertei mesmo assim como as pessoas dizem? Tenho esse poder todo?

Elas vêm buscar algo, como uma resposta ou um alívio e o mapa é o instrumento para que a questão possa ser elaborada. Mais raramente, a pessoa vem buscar elementos para seu autoconhecimento. Em ambos os casos, eu lhes ofereço uma análise do mapa de nascimento através da linguagem astrológica.

O mapa do nascimento é instrumento objetivo: identifica características, vocações e dificuldades, discrimina direções, indica alternativas possíveis. Mas ele é também passível de vários níveis de interpretação. Aí entra meu temor. Guardo uma indefinível sensação de ter nas mãos algo muito delicado. Um descuido no uso das palavras pode ser desastroso. As possibilidades de compreensão dependem do nível de consciência de cada um.

Ou seja, a elaboração dos conteúdos vai depender das possibilidades de uma linguagem comum entre eu e a pessoa a minha frente.

Na verdade, os elementos intermediários desse diálogo são dois: os símbolos astrológicos e a linguagem propriamente dita. A leitura desses símbolos deve ser expressa de forma a ser compreendida pela pessoa a quem ela se dirige. Tal diálogo permitirá, então, que a pessoa utilize as informações astrológicas conforme suas necessidades. O valor do discurso e das palavras utilizadas estará a serviço de descobertas e de respostas e para isso devem permitir o estabelecimento de uma relação com a pessoa a quem se destinam. Trata-se de um encontro sutil que possibilitará também uma espécie de catarse, um efeito químico de necessidades satisfeitas. O poder não foi meu, mas de um contexto de aspectos em cuja lista se incluem a atuação do profissional e certa prontidão do ouvinte.  

Aconteceu nosso encontro? Comemoremos. Há muito que ser celebrado.

Certa vez, recebi um cartão que dizia assim: “Lembrei-me de você.” E a imagem era um canteiro cheio de flores coloridas, cheias de sol e de brilho. Em uma cidade do Canadá, em um mês de primavera quase verão.

A generosidade desse gesto talvez seja sinal de um diálogo que se alongou, de um encontro de sucesso. De que a linguagem astrológica ecoou. Fez-se lembrança.

Ela merece meu agradecimento. Ela reafirma o contato e abre outros espaços de relacionamento. Como diz a propaganda, isso não tem preço.



quinta-feira, 2 de julho de 2015

VISITANDO OS REINOS DE PLUTÃO

O diretor de Relatos Selvagens, Damián Szifrón, a partir da linguagem do cinema construiu um universo em que podemos entrever alguns aspectos do mundo de Plutão. Embora sejam apenas alguns aspectos, é evidente a manifestação do clima plutoniano nos comportamentos sociais e individuais de suas personagens. Acompanhe o texto e opine.

I o filme, suas histórias e significados

O cinema é bom apoio para o estudo dos símbolos da mitologia e da astrologia. Esse filme se compõe de um conjunto de histórias sem ligação entre si, mas que apresentam em comum o lado selvagem da natureza humana. São experiências explícitas no mundo contemporâneo mais do que nunca. Com um humor ácido, ironia e surpresas, ele nos desconcerta. O mundo de Plutão é desconcertante. A sensação será sempre de medo e de susto.

A apresentação do filme reúne as personagens em um plano de vingança. Daí em diante, assistimos a outras cinco histórias em que as emoções de raiva, frustração e impotência ultrapassam os limites do bom senso de maneiras variadas: um acerto de contas do passado de duas funcionárias em uma lanchonete; o encontro de dois motoristas em uma estrada e seus acessos de fúria; um engenheiro envolvido com questões urbanas e burocráticas acaba sendo preso e levado ao papel de anti-herói, por servir de porta-voz à coletividade; um atropelamento com morte e a construção de uma rede de corrupção; a traição e a hipocrisia social e familiar em uma festa de casamento.
Elas carregam significados e, portanto, dizem mais do que parece.

II UM mundo profundo e escuro
A narrativa do filme apresenta a natureza humana lidando com situações de pressão que não são suportadas. Rompe-se com a realidade ordinária. Estamos saindo dos limites de Saturno e acessando outros. Nesse caso, entramos nos terrenos pós saturninos. Adentramos o cenário de Plutão.  

Onde se pode chegar em uma situação de pressão? Em três histórias o limite é a morte. Os toques de humor não diminuem o impacto que elas promovem por causa do nível de violência mais ou menos explícito. Em duas delas há um suposto final feliz.  E ironia. Nada pode nos prometer que as questões foram realmente solucionadas. Nesses casos temos, na verdade, apenas a resolução dos conflitos de forma um tanto patética com abrandamento do clima na narrativa. Um tostão de alívio.

As indicações caracterizam o terreno intenso do Plutão que lida, entre outras coisas, com questões de morte, de poder e de violência. A romper os limites de Saturno, as pessoas lidam com outros aspectos em seus comportamentos. Vejamos como acontece essa passagem.

Em todas as histórias, um limite é extrapolado. O cenário de estresse e lutas por poder as personagens agindo na dinâmica de Plutão, do escondido e do proibido. Os critérios de convivência social são perdidos e/ou abandonados. As estruturas saturninas e organizadoras da ordem social que sustentam tal convivência se rompem. As defesas são postas abaixo, os comportamentos se liberam dessas estruturas, e andam por outros parâmetros que não são os da realidade ordinária. O que poderíamos chamar de racionalidade, sai da órbita de controle.  Lá está um espaço de intensidade além dos limites possíveis ao ego.

E descobre-se o que está mais além, o lado irracional, o instintivo ou o amoral que habita além das convenções sociais. Nesse filme, o selvagem que habita o nosso lado escondido é revelado de forma trágica e cômica, ás vezes beirando o absurdo. Manifestam-se as camadas profundas do indivíduo. Eis o mundo de Plutão.

A partir dessa coleção de relatos, podemos refletir sobre as possibilidades de rompimento desses critérios de convivência social. Não escapamos da proximidade dos perigos que nos rondam e que ficam mais explícitos em épocas de crise como a da atualidade. Perante a sensação de impotência e de injustiças, a raiva cresce. Nesse momento, estamos à beira do descontrole e da perda de consciência. O terreno é propício à explosão da violência.

O recado pode ser mais ou menos esse: na convivência social a sanidade e loucura andam lado a lado, separadas por um fio. Pelas pressões a que estamos sujeitos na vida somos afeitos a uma ordem sem moral sob o comando da natureza instintiva. Como lidar com isso?

O filme é tão envolvente que nos esquecemos da belíssima seleção de fotos de animais que serve de pano de fundo para a apresentação dos informes iniciais do filme.

Tais animais são o espelho daquela parte que escondemos ou preferimos não aceitar. Só que os animais vivem como devem: lutando pela sobrevivência em uma ordem sem moral, ou melhor, sob o comando do instinto e da Natureza. É sua sina.

Nós recebemos a linguagem e a consciência que nos conduzem a outras dimensões de compreensão. Temos outras demandas da vida. Cada vez que ultrapassarmos os limites de nossa humanidade estaremos rompendo também nossos compromissos com tais privilégios. Por mais justo que nos pareçam os argumentos para tais atitudes, devemos respeitar uma ordem maior de critérios diferente daquela que organiza o plano material.

Mesmo que nos deparemos com as feias e injustas nem sempre podemos fazer algo. Perante elas, muitas vezes, estamos impotentes. No âmbito individual ou no coletivo podem se manifestar, então, as questões irracionalidade.

Como lidar com essas situações de estresse sem que nos percamos em comportamentos indesejáveis? Aceitar a submissão a forças maiores pode ser a chave para não extrapolar limites. A ordem moral e ética de convivência social deve reger nossos atos. O filme abre espaço para reflexão a respeito das questões desse mundo submerso de Plutão em que temos poucas alternativas de negociação. Não é fácil acatar certas situações de nossas experiências, mas pior é visitar os terrenos de Plutão.
Que o filme nos sirva de aviso.




segunda-feira, 29 de junho de 2015

RELATOS SELVAGENS, O FILME

O filme se compõe de um conjunto de histórias sem ligação entre si. Porém, há um fio que as une e que é quase óbvio: o lado selvagem da natureza humana. Além disso, todas levam a marca de certo tipo de humor. O filme traz complexidades, riqueza de detalhes, muita ironia e surpresas que nos desconcertam. Difícil e importante: identificado onde mora o perigo, como lidar com ele?



uma história e mais cinco

São seis histórias que falam do lado instintivo e selvagem de nossa natureza. O filme conta com a correta direção de Damián Szifron e com a produção dos irmãos Almodóvar, Pedro e Agustín. Encontramos nelas o cômico e o trágico permeando os seis relatos, talvez um sinal da escola espanhola de humor. Mas, tudo isso é só artifício. Pelo absurdo, algumas situações são quase caricaturas. Dizem outra coisa, às avessas, mais do que parece. Elas têm valor metafórico.

Antes da apresentação do filme, temos uma delas: uma vingança junta todos os personagens em uma viagem de avião com destino para a morte. Outras duas pessoas em terra (supostamente os pais do culpado) também são atingidas. A narrativa é curta e foi colocada no início intencionalmente. De certa forma somos incluídos como protagonistas pela forma como a cena é construída.

Daí em diante, assistimos a uma série de situações em que as emoções de raiva, frustração e impotência ultrapassam os limites do bom senso de maneiras variadas, mas com o mesmo humor ácido e clima de susto.

A primeira nos conta sobre um acerto de contas. Duas funcionárias de uma lanchonete se deparam com o passado. Uma delas é diretamente envolvida, mas é a outra também em débito que se encarrega de finalizar o acerto. Na verdade, essa justiceira se sente melhor na prisão do que na sociedade. Talvez lá ela esteja a salvo dos males com que não pode pactuar. Foi fácil ter a decisão e a faca nas mãos.

A segunda nos mostra dois motoristas em uma estrada e uma fala impensada que conduz os dois a acessos de fúria, cada um à sua vez. Ambos morrem carbonizados. Final absurdo? Sem dúvida. Mas, também cômico.

No terceiro episódio, um engenheiro especialista em implosões se depara com questões urbanas e burocráticas. Não suporta pressões, vive reveses pessoais e profissionais e é preso. Mas, acaba sendo levado ao papel de herói, por servir de porta-voz à coletividade, mobilizada pelas redes sociais. Há vazão de uma demanda reprimida. Na verdade, há a criação de um anti-herói que restaura a moral de todos os que se consideram injustiçados pela máquina do Estado.

No quarto, o filho de uma família rica se envolve em um atropelamento com morte e daí em diante assistimos ao desenvolvimento da corrupção mobilizada pelo pai, advogado e autoridades envolvidas. Mas, quem paga a conta é o elo mais fraco do sistema social. Esta história é a menos cômica, mas nos traz temas que estão a nossa volta como as outras.

E a última história nos traz a traição, a hipocrisia social e a família com seus trejeitos. Uma festa de casamento é o local ideal para o desmascaramento destas questões e ainda assistimos a um happy end insuspeitado.

Tudo é forjado na cinematografia, como em todo o tipo de arte. Os recursos e sua linguagem mediam a conversa entre o autor e seu público. Qual seria a intenção do diretor a partir destas histórias?   

O lado selvagem da natureza humana

A leitura que faço do filme está ligada a um aspecto da natureza humana em situações de pressão. Em todas as histórias, há a ultrapassagem de um limite. Os critérios de convivência social são perdidos e/ou abandonados. As estruturas que sustentam tal convivência se rompem. As defesas são postas abaixo, os comportamentos se liberam dessas estruturas, e andam por outros parâmetros que não são os da realidade ordinária. O que poderíamos chamar de racionalidade, sai da órbita de controle.  Lá está um espaço de intensidade além dos limites possíveis ao ego.

E descobre-se o que está mais além, o lado irracional, o instintivo ou o amoral que habita além das convenções sociais. O selvagem que habita o nosso lado escondido é revelado de forma trágica e cômica, ás vezes beirando o absurdo. Manifestam-se as camadas profundas do indivíduo.


Onde se pode chegar em uma situação de pressão? Em três histórias o limite é a morte. Os toques de humor não diminuem o impacto que elas promovem por causa do nível de violência mais ou menos explícito. Em duas delas há um suposto final feliz.  E ironia. O amor poderá vencer a hipocrisia na história do casamento? A consagração do anti-herói na coletividade eliminará a repetição da insatisfação que foi a causa deflagradora da história? Nesses casos temos, na verdade, apenas a resolução dos conflitos de forma um tanto patética com abrandamento do clima na narrativa. Um tostão de alívio.


A partir dessa coleção de relatos, podemos refletir sobre as possibilidades de rompimento dos critérios de convivência social. Não parece haver solução que nos salve dos perigos que nos rondam o tempo todo. Perante a sensação de impotência, a injustiça, a raiva estamos sempre à beira do descontrole e da perda de consciência.    

O recado pode ser mais ou menos esse: na convivência social a sanidade e loucura andam lado a lado, separadas por um fio. Pelas pressões a que estamos sujeitos na vida somos afeitos a uma ordem sem moral sob o comando da natureza instintiva. Cabe a advertência para nossa reflexão, pois é melhor sabermos onde mora o perigo, para podermos lidar com ele.

Lúcido e desconcertante, o filme nos faz pensar a respeito de temas presentes em nossas vidas: a vingança e a injustiça, os motivos e comportamentos reles que movimentam os preconceitos sociais, a impotência perante a máquina do Estado, a corrupção na sociedade privada e pública, as relações entre os sexos e a família. E revela uma parte de nossa natureza que não é fácil de aceitar e ainda é difícil de administrar individual e socialmente.

O filme é tão envolvente que nos esquecemos da belíssima seleção de fotos de animais que serve de pano de fundo para a apresentação dos informes iniciais do filme. Tais animais são o espelho daquela parte de nós que escondemos ou preferimos não aceitar. Só que os animais vivem como devem, lutando pela sobrevivência. É sua sina. Nós recebemos a linguagem e a consciência que nos conduzem a outras dimensões de compreensão. Temos outras demandas da vida. Cada vez que ultrapassarmos os limites de nossa humanidade estaremos rompendo também nossos compromissos com tais privilégios. Por mais justo que nos pareçam os argumentos para tais atitudes. Como lidar com isso sem que nos percamos em terrenos que não nos cabem? Como ele abre espaço para reflexão, que o filme nos sirva de aviso.    


quinta-feira, 18 de junho de 2015

MÚSICA À LUZ DE VELAS


Em uma sala, entre quatro paredes, às vezes a vida é maior do que lá fora. Nesse local podem ser criados mundos, mediados por uma intimidade impensável no dia-a-dia. Uma situação de afetação mútua e encantatória. Isso normalmente acontece em uma leitura de mapa astrológico. É uma geografia que acontece a partir de um desenho em uma folha de papel, do lado de dentro em um pedaço de tempo. A experiência com aquela cliente me fez entrar em um universo especial de histórias cheias de metáforas.
Essa linda mulher nascera à luz de velas.  Minha memória apagou a razão para essa luz especial, e isso não importa agora. Ficou a imagem: uma cena com pouca luz, o entreaberto de cortinas e o choro de um bebê que chega com ouvidos e talentos para notas bemóis e sustenidos, acordes e escalas. Compassos, ritmos e harmonias iriam visitar essa criança impregnando sua vida de sonoridades e uma sequência de orquestras e corais. Herdara a música instalada na família.

A Lua em Peixes e um Grande Trígono no elemento Ar inspiravam caminhadas por um mundo sensível e mental, que bem poderia ser a música e seus conceitos abstratos e matemáticos. Os planetas implicados nessa formação de trígonos indicavam essa possibilidade: Netuno em Libra, Mercúrio conjunto a Vênus em Aquário e Urano conjunto a Saturno em Gêmeos. Na verdade, os planetas Vênus e Netuno acrescentariam a essa conformação as delicadezas de uma vocação artística enquanto que Urano e Saturno presenteariam a criança com uma personalidade original e inteligência. Ascendente e Sol em Capricórnio prometeriam trabalho e comprometimento. Haveria conflito entre o duplo Capricórnio e o mundo de Ar do Grande Trígono? Ou com a Lua pisciana? 
Entrei em seu mundo por necessidade profissional e também por gosto. Nosso encontro tinha ganhado cenário e sonoplastia. Uma melodia começou a fazer o fundo musical de um cenário de velas e piano de cauda, um mundo feminino.
As histórias me foram contadas com o encanto de valsas e aberturas de óperas. A voz articulando bem os sons junto a gestos elegantes de mãos longas. Havia nela uma integridade interna. Mas o corpo era fino e frágil. 
Aos poucos eu soube de dúvidas em relação a decisões malfeitas, como se aspectos da realidade tivessem caído em seu colo. Decepção em relação a si mesma. Sua fala espalhou frases de dor pela sala, descrevendo a sensação de ter jogado sua vida fora. Ser consciente de sua responsabilidade não diminuía seu sofrimento. “Tudo o que é feito e criado, é roubado?”, ela se questionava.  “Nada ficou para mim”, concluía. Até que perguntou: “O que o divino quer de mim? Por que a vida?”
Com certeza essas perguntas não eram para mim. Vinham do fundo de uma indignação. Ela queria restaurar uma conexão perdida. Eu me senti incluída nessa busca de um propósito humano que acontece aos trancos e barrancos. Mas, como algo se criara entre nós duas, eu era chamada à participação. O que dizer? Nenhuma palavra aplacaria sua dor.  

Senti que era adequado que fossem apresentados os trânsitos dos planetas em seu mapa. Eu podia lhe dar a esperança. O trânsito de Plutão no Ascendente prometia transformações profundas na direção dos projetos de vida. Urano na Lua indicava que haveria libertação em processos emocionais. Saturno na casa dez me contava que ela viveria um chamado à aventura. Poderia ser uma caminhada de responsabilidade junto ao mundo. Eram possibilidades únicas de mudanças, mas que demandavam atitudes e percepção para que o bonde não fosse perdido.
O trânsito na Lua talvez fosse o ponto mais estratégico, pela história que eu tinha ouvido. Abria-se um espaço para a libertação das mágoas do passado em direção a novas posturas. Havia também projetos de música. Ela já havia elaborado trabalhos com resultados positivos nessa área. Ela sabia dos efeitos da música na competência humana. Tinha a dimensão do que podia acontecer com as pessoas em contato com o mundo musical. Esse deveria ser o seu projeto de vida, que me parecia fora dos trilhos nesse momento. Nada poderia ser mais alvissareiro. Mas, quem sabe como manejamos nossas biografias? Será que o discurso simbólico dos planetas poderia lhe dar impulso para sair do canto em que ela se encontrava?
Quando ela se foi, eu fiquei suspensa num certo clima quase de sonho. Lá, naquela sala tão conhecida por mim, visitada sempre pelo cinturão de planetas em seu estado mítico e simbólico, o Divino havia sido invocado. Limite inalcançável, lá estava ele de alguma maneira aproximado de nós.
Ficaram comigo seus gestos elegantes desenhando arabescos com as mãos de dedos longos, certo tom dramático, uma ênfase que combinava com o cenário em que ela havia nascido. Me instalei nele, em silêncio, à luz de velas com uma janela entreaberta em meio a cortinas de rendas.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

O MAPA NATAL DE VIVIAN MAIER, A FOTÓGRAFA-BABÁ

O que diz o mapa natal dessa mulher que foi babá por cerca de quarenta anos e ainda realizou uma obra imensa de fotografias de alta qualidade? Sua obra foi descoberta por John Maloof em uma pesquisa que ele realizava sobre Chicago. Descobriu caixas de negativos e outras pistas que o levaram à autora das fotos. Fez um documentário em 2013 (A fotografia oculta de Vivian Maier /Finding Vician Maier), em que entrevista as pessoas de quem Vivian Maier cuidou como babá, e que o ajudaram a recompor os passos da vida dela. Tais informações nos permitem observar o mapa natal da fotógrafa, pelo menos, em alguns de seus aspectos.

O MAPA NATAL 



Vivian Maier nasceu em Nova York, a 01 de fevereiro de 1926 de mãe francesa e pai austro-húngaro, que abandonou a família quando ela tinha quatro anos de idade.Como não temos a hora de seu nascimento, o mapa foi levantado para as doze horas. Morreu em 2009. 

Com quatro planetas em Aquário, (Sol, Mercúrio, Vênus e Júpiter) podemos entender que ela tivesse tido dificuldade de formar família ou que tivesse optado por não ter filhos. Vínculos de uma forma geral não é fácil para o temperamento aquariano. Além disso, sua Lua em Virgem (ela transita do grau 17 a 29 no dia de seu nascimento), possivelmente está em aspecto de oposição a Urano (23 de Peixes). Tal posicionamento marcaria ainda mais a dificuldade nos relacionamentos sendo de se esperar também uma certa rudeza que é citada no documentário em que ela não é poupada, surgindo em sua humanidade, com defeitos e manias. Ela é qualificada como “intransigente” (radical como o signo fixo aquário?) e “às vezes cruel” (um sinal da visão crua ou “prática” do aquariano?). 

Por outro lado, o lado aquariano e uraniano pode ter lhe dado as qualidades necessárias para ser fotógrafa. Há intuição e velocidade mental (Aquário e Urano) e a facilidade para visualização de imagens. Sabe-se que ela tinha talento para bom enquadramento e utilização adequada da luz, sendo comparada a grandes fotógrafos.   

A Lua em Virgem poderia explicar a mania para colecionar jornais, recortes de forma compulsiva, quase maníaca, tendo até se transformado em problema a certa altura de sua vida. Mas, foram os papéis, tickets ingressos, recibos de compras e pagamentos guardados que permitiram a recomposição de seus passos. Caixas e mais caixas de tudo. Ela teria perdido a noção de limites?

Talvez sim, mas como ter limites se ela tinha Sol em conjunção a Júpiter em signo de Ar? Essa conjunção também a teria levado por viagens a muitos lugares pelo mundo, entre os quais Canadá, Filipinas, Índia, Iêmen, sul da Europa, América Central e do Sul, utilizando na maioria desses deslocamentos o valor recebido como herança de família na França. Ou seja, seu desejo de abarcar o mundo foi expressada assim como outros aspectos sagitarianos: “infinitamente curiosa” e “brincalhona”.

Mas, o dado que chama nossa atenção é a privacidade de seu mundo. Sem nenhum alarde, em silêncio, como uma boa virginiana, ela fez seu trabalho sem a necessidade de público e de reconhecimento. O enigma de sua vida discreta pode ser em parte explicado pela Lua em Virgem. Mas há mais. Ela também utilizava de nomes falsos nos lugares de comércio ou em lavanderias. Estranho gosto de se esconder mesmo em situações assim rotineiras, possivelmente uma preferência aquariana de anulação do subjetivo. Mesmo que houvesse outra motivação, essa postura de anonimato intencional estava bem adequada ao depoimento que a descrevia assim: “Era alguém bastante livre que gostava de estar à margem e que viveu a vida que quis viver ”. Ou seja, ela tinha arbítrio para viver sua liberdade  com a privacidade que lhe daria o conforto necessário, seja qual fosse o motivo para essa escolha.

Ela tinha uma força pessoal incrível, uma identidade do tamanho da conjução do Sol/Júpiter. Ela não dependeu de estímulos externos tais como patrocínio ou reconhecimento de seu imenso trabalho que inclui 100.000 a 150.000 negativos, em centenas de rolos de filme, filmes caseiros, entrevistas de fita de áudio e vários outros itens. Uma vocação ou talvez uma energia a impulsionava: sua identidade, ou melhor, seu Sol.

As fotos são o elemento intermediário que nos conta qual foi o mundo que ela testemunhou e viveu. Sua obra flagra as ruas das cidades por onde andou, Nova York, Los Angeles e Chicago, sua arquitetura e população, em meio a dores, angústias, delicadeza, constrangimento, surpresa, humor e beleza. As fotos indicam uma observação atenta de aquariano sobre as possibilidades de experiência da coletividade humana. Um mundo de grandeza e generosidade. Temos um paradoxo nessa biografia que indica um anonimato pessoal (discrição virginiana) e uma intensa participação no mundo (o amor aquariano à humanidade).

Por isso tudo, “Ela estava mesmo à frente de seu tempo”: essa frase elogiosa que não é original em relação ao signo de Aquário faz jus, com certeza, à biografia de Vivian Maier.

Mais informações a respeito de Vivian Maier no link : http://coisasdoimaginario.blogspot.com.br/2015/06/o-mundo-da-fotografa-baba-vivian-maier.html