sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

PAPO DE ÔNIBUS


Eu subi no ônibus e me sentei na primeira cadeira do corredor que encontrei, cansada e contente por não ter ficado em fila. Havia um senhor de cabelos grisalhos na janela. Assim que o ônibus saiu, ele começou. “Imenso, este ônibus”, disse. Concordei. Preferia ficar quieta e levar minha pequena jornada em silêncio, mas ele ainda falou algo a que não dei atenção.

Ele não se importou e, poucos segundos depois, continuou puxando assunto.

— Quanta gente ao mesmo tempo vai nele. Mais de mil pessoas.

— Fez quatro anos em março que ele me apareceu da primeira vez. De lá pra cá, mais três vezes. Jesus mudou minha vida.



— Eu não sei ler. Jesus não quis que eu aprendesse. Mais de cem mensagens eu já entreguei que ele mandou. A Igreja hoje tem às vezes só cinquenta. A senhora é evangélica?

Ops, será que ouvi mal? Um exagero. Não, acho que ouvi mal. Mas ele continuou em várias considerações sobre tamanho de ônibus e população. Logo depois, mudou o assunto.

Imaginei que seria mais uma pessoa que se convertera pela força da fé.

Não sou.” Se eu fosse, talvez pudesse entender o que é entregar mensagens. Ele continuou em sua discreta incontinência verbal: “Na terra não podemos consertar o mundo. Jesus pode. Ele me ensinou. A Bíblia é sagrada.” O cheiro de guardado do blazer de lã não combinava com os sapatos marrons.

— Não aprendi a ler porque Jesus não quis. No ano passado o pastor ficou doente e desenganado. E com as orações ele ficou bom. Sou do Ceará. O povo que vai da Alemanha para o Japão gasta menos tempo que o que vem do Ceará.

“Não aprendi a ler porque ele não quis.” Essa frase repetida doeu em mim. Muito. Talvez tanto como nele próprio.

De repente, fez-se uma ligação entre eu e aquele desconhecido. Ele não era mais um cidadão no ônibus, passageiro anônimo da cidade grande. Era companheiro da triste sina de uma vida difícil, também perdido entre ruas e ônibus. Eu estava sofrendo por imaginar a situação de um desejo interrompido — ferida aberta — e sua atitude respeitosa à autoridade: não aprendi porque ele não quis.

Eu estava rendida à solidariedade humana através de uma dor. Era um drama de alguém que se perguntava algumas coisas, mas não todas. Procurava comunicação e expressão para as aflições de sua alma curiosa. Alívio para sua insatisfação, cobertura de uma defasagem entre sua expectativa e a realidade. Não podia dar muita continuidade a seus pensamentos renitentes. Ele poderia se perguntar: por quê? Mas, não. Parava antes das possibilidades, numa espécie de aceitação, loucura mansa. Delírio?

Ele não se dava o direito de questionar por que papo de ônibus é assim. Eu não queria conversa. mesmo assim, o encontro aconteceu, em meio à corrida do dia-a-dia, me apresentando o ser humano em sua tragédia. Trágico era ele querer ler e não poder investir contra o que no seu imaginário — a autoridade máxima da hierarquia de sua religião — o impedia de ler. Dentro dele não havia espaço para nada diferente disso. E se ... quem sabe? Uma revolta, um questionamento.  Um gesto de energia. Uma pedra na mão. Nada. Havia uma parede enorme de inconsciência entre ele e a realidade. Injustiças de um mundo mau. Um desperdício. Um analfabeto funcional em tudo na vida. Um quase. Um projeto mal acabado. Tão desajeitado. É assim.


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O MESTRE DOS GÊNIOS



No filme "O Mestre dos gênios" encontramos duas pessoas que se conhecem e se encantam mutuamente. E depois de um tempo, acabam se desentendendo. Já vimos essa história antes, não é mesmo? Relacionamentos humanos são teste importante e instrumento de percepção principalmente de nossas fragilidades. Quando conseguimos ultrapassá-las, podemos até crescer. 




encontros e paixões

A primeira cena em slow motion focaliza pés, chapéus e guarda-chuvas, numa sequência cadenciada. Um desfile nova-iorquino elegante e sinistro ao mesmo tempo. A cor da fotografia é sombria adequada à época de crise de 1929. A direção de arte e construção de época são primorosas, o diretor do filme é Michael Grandage.

Enquanto isso, os pés impacientes do escritor Tomas Wolfe (Jude Law) pisam com força a água empoçada, querendo furar o chão. Fumando, ele olha para cima onde o editor Maxwell Perkins (Colin Firth) deve estar avaliando seu texto. A espera é tortuosa e a água da chuva que deixa seus cabelos ensopados não o incomoda. Ele habita outra realidade.

Essa primeira cena nos desenha o temperamento de Tomas Wolfe, exuberante, impulsivo e até briguento. Um comportamento sem limites e inovador, ao mesmo tempo em que é sedutor. Com dificuldade de foco e uma inconstância física, com tiques nervosos difíceis de serem controlados. Ele vai se deparar com a estabilidade de Perkins, com sua capacidade de disciplina e atenção. Com seu bom senso e equilíbrio emocional.

Essa radical diferença de temperamento entre as personagens a princípio não impede a grande atração que um exerce sobre o outro. O editor percebe de forma íntima e pessoal a natureza vibrante que o escritor possui. Ele reconhece a força positiva desse temperamento. Ocorre, então, a cooperação entre as necessidades e possibilidades dos dois. Tão bem que aparecem até ciúmes na companheira de Tom (Nicole Kidman). Ela sabe que teria sido de alguma forma substituída pelo editor na vida de Tom.

Porém, no convívio há um desgaste que leva ao rompimento. Tom não tem a necessária introversão para elaborar o que é desequilibrado em sua natureza. O contato vai se tornando cada vez mais insuportável para os dois.

O relacionamento desanda. Tom não consegue entender a limitação que Perkins lhe pede, sugerindo inclusive que ele está errado em sua maneira de viver. Ele se irrita com o comedimento de Perkins, que por sua vez explode em defesa própria: “Vivo a vida de forma diferente. ”

Afastam-se. A afetividade não é suficiente. Por mais que Perkins tenha visto nele a figura de um filho, Tom com sua natureza rebelde, livre de compromissos, de forma até infantil e com argumentos irracionais, não se submete às demandas e à autoridade do editor. E ele precisava tanto da figura de um pai.

Mesmo assim, ocorre tardiamente a revisão do comportamento de Tom, revelada na carta de despedida a Perkins. Teria sido essa carta de Tom um alívio para suas possíveis culpas nesse momento de consciência?

OS GÊNIOS E A LITERATURA

A tradução em português do título do filme (O Mestre dos Gênios) privilegia a figura do escritor. O título Genius em inglês é mais adequado, se pensarmos que as duas personagens centrais são igualmente geniais em suas funções.  Enquanto o livro é criação do escritor, é do editor a tarefa de colocar bons livros nas mãos dos leitores, sendo assim esteio para tal talento.

E o contato entre os dois nos aproxima da paixão de ambos pelo mundo da ficção. Mergulhamos no mundo da literatura para perceber detalhes na escolha das palavras, na construção das personagens e na maneira como uma história é contada.
Sabemos pelas palavras de Perkins que “A história é o que importa, não o número de palavras”. O impacto de uma descrição deveria ser como um relâmpago. A escolha das palavras adequadas para conduzir o leitor ao essencial, como um raio, simples e sem adornos.

Perkins cuida para que os excessos de estilo de Wolfe sejam eliminados. Simplificar frases, eliminar senso-comum, moldar o título para expressar a síntese da obra. Sem retórica, sem digressão. Por sua vez, para Tom, tudo importa: imagens, adjetivos e sons. É um diálogo entre diferenças. E a partir dela podemos entender de onde vem a inspiração desse escritor e quais são as dúvidas do editor, que se divide entre a necessidade de um público e a expressão espontânea de um talento.

NARRATIVAS AO PÉ DO FOGO

Mas, uma cena permanece dentro de mim. Era entardecer e eles visitam o topo do prédio em que Tom morou ao chegar a Nova York. É uma parada especial para lembranças, em seu retorno após a viagem à Europa. Ouvimos relatos de experiências de Tom e reflexões de Perkins. Um conjunto que oferece poder àquele momento.
Perkins vai longe, a um lugar em que homens ancestrais se reúnem ao redor do fogo para contar histórias. Um ritual coletivo de narração para afastar o medo. Ou então, um ritual para dar sentido ao absurdo da experiência humana.
Não seria essa ainda a função da literatura e das histórias de hoje em dia? Talvez permaneça vivo ainda entre nós essa força das narrativas, como se a liturgia de escutar ou falar histórias repetisse um gesto, o mesmo de sempre, de novo e de novo inaugurado. Ao pé do fogo ou nas palavras lidas em voz alta ou no silêncio no texto literário. Um momento de poesia e de imaginação necessário à vida.

A história é o que importa e os personagens falam à alma. E ele e Tom leem e declamam textos, promovem prazer acordando significados, sendo eles mesmos personagens porque segundo Tom todos somos personagens.  

E nessa cena, nesse final de dia, na frente da cidade, abraçados pelo mesmo ideal, frente às luzes da cidade, sob o céu e a amplidão do horizonte, eles reafirmam seu amor à literatura e à ficção. São nesses instantes eles mesmos personagens de uma grande história de irmandade entre seres humanos.


O MESTRE DOS GÊNIOS



No filme "O Mestre dos gênios" encontramos duas pessoas que se conhecem e se encantam mutuamente. E depois de um tempo, acabam se desentendendo. Já vimos essa história antes, não é mesmo? Relacionamentos humanos são teste importante e instrumento de percepção principalmente de nossas fragilidades. Quando conseguimos ultrapassá-las, podemos até crescer. 




encontros e paixões

A primeira cena em slow motion focaliza pés, chapéus e guarda-chuvas, numa sequência cadenciada. Um desfile nova-iorquino elegante e sinistro ao mesmo tempo. A cor da fotografia é sombria adequada à época de crise de 1929. A direção de arte e construção de época são primorosas, o diretor do filme é Michael Grandage.

Enquanto isso, os pés impacientes do escritor Tomas Wolfe (Jude Law) pisam com força a água empoçada, querendo furar o chão. Fumando, ele olha para cima onde o editor Maxwell Perkins (Colin Firth) deve estar avaliando seu texto. A espera é tortuosa e a água da chuva que deixa seus cabelos ensopados não o incomoda. Ele habita outra realidade.

Essa primeira cena nos desenha o temperamento de Tomas Wolfe, exuberante, impulsivo e até briguento. Um comportamento sem limites e inovador, ao mesmo tempo em que é sedutor. Com dificuldade de foco e uma inconstância física, com tiques nervosos difíceis de serem controlados. Ele vai se deparar com a estabilidade de Perkins, com sua capacidade de disciplina e atenção. Com seu bom senso e equilíbrio emocional.

Essa radical diferença de temperamento entre as personagens a princípio não impede a grande atração que um exerce sobre o outro. O editor percebe de forma íntima e pessoal a natureza vibrante que o escritor possui. Ele reconhece a força positiva desse temperamento. Ocorre, então, a cooperação entre as necessidades e possibilidades dos dois. Tão bem que aparecem até ciúmes na companheira de Tom (Nicole Kidman). Ela sabe que teria sido de alguma forma substituída pelo editor na vida de Tom.

Porém, no convívio há um desgaste que leva ao rompimento. Tom não tem a necessária introversão para elaborar o que é desequilibrado em sua natureza. O contato vai se tornando cada vez mais insuportável para os dois.

O relacionamento desanda. Tom não consegue entender a limitação que Perkins lhe pede, sugerindo inclusive que ele está errado em sua maneira de viver. Ele se irrita com o comedimento de Perkins, que por sua vez explode em defesa própria: “Vivo a vida de forma diferente. ”

Afastam-se. A afetividade não é suficiente. Por mais que Perkins tenha visto nele a figura de um filho, Tom com sua natureza rebelde, livre de compromissos, de forma até infantil e com argumentos irracionais, não se submete às demandas e à autoridade do editor. E ele precisava tanto da figura de um pai.

Mesmo assim, ocorre tardiamente a revisão do comportamento de Tom, revelada na carta de despedida a Perkins. Teria sido essa carta de Tom um alívio para suas possíveis culpas nesse momento de consciência?

OS GÊNIOS E A LITERATURA

A tradução em português do título do filme (O Mestre dos Gênios) privilegia a figura do escritor. O título Genius em inglês é mais adequado, se pensarmos que as duas personagens centrais são igualmente geniais em suas funções.  Enquanto o livro é criação do escritor, é do editor a tarefa de colocar bons livros nas mãos dos leitores, sendo assim esteio para tal talento.

E o contato entre os dois nos aproxima da paixão de ambos pelo mundo da ficção. Mergulhamos no mundo da literatura para perceber detalhes na escolha das palavras, na construção das personagens e na maneira como uma história é contada.
Sabemos pelas palavras de Perkins que “A história é o que importa, não o número de palavras”. O impacto de uma descrição deveria ser como um relâmpago. A escolha das palavras adequadas para conduzir o leitor ao essencial, como um raio, simples e sem adornos.

Perkins cuida para que os excessos de estilo de Wolfe sejam eliminados. Simplificar frases, eliminar senso-comum, moldar o título para expressar a síntese da obra. Sem retórica, sem digressão. Por sua vez, para Tom, tudo importa: imagens, adjetivos e sons. É um diálogo entre diferenças. E a partir dela podemos entender de onde vem a inspiração desse escritor e quais são as dúvidas do editor, que se divide entre a necessidade de um público e a expressão espontânea de um talento.

NARRATIVAS AO PÉ DO FOGO

Mas, uma cena permanece dentro de mim. Era entardecer e eles visitam o topo do prédio em que Tom morou ao chegar a Nova York. É uma parada especial para lembranças, em seu retorno após a viagem à Europa. Ouvimos relatos de experiências de Tom e reflexões de Perkins. Um conjunto que oferece poder àquele momento.
Perkins vai longe, a um lugar em que homens ancestrais se reúnem ao redor do fogo para contar histórias. Um ritual coletivo de narração para afastar o medo. Ou então, um ritual para dar sentido ao absurdo da experiência humana.
Não seria essa ainda a função da literatura e das histórias de hoje em dia? Talvez permaneça vivo ainda entre nós essa força das narrativas, como se a liturgia de escutar ou falar histórias repetisse um gesto, o mesmo de sempre, de novo e de novo inaugurado. Ao pé do fogo ou nas palavras lidas em voz alta ou no silêncio no texto literário. Um momento de poesia e de imaginação necessário à vida.

A história é o que importa e os personagens falam à alma. E ele e Tom leem e declamam textos, promovem prazer acordando significados, sendo eles mesmos personagens porque segundo Tom todos somos personagens.  

E nessa cena, nesse final de dia, na frente da cidade, abraçados pelo mesmo ideal, frente às luzes da cidade, sob o céu e a amplidão do horizonte, eles reafirmam seu amor à literatura e à ficção. São nesses instantes eles mesmos personagens de uma grande história de irmandade entre seres humanos.


PS 1: É difícil viver na cidade de São Paulo. Por outro lado, ela tem aspectos apaixonantes. Leia o texto e discorde de mim.  http://coisasdoimaginario.blogspot.com.br/2016/11/paixao-pelo-centro-ii.html

PS 2: A passagem dos cálculos manuais astrológicos para o uso dos programas brasileiros em computadores pessoais teve momentos interessantes.  Conheça essa história no link a seguir. http://historiastrologsp.blogspot.com.br/2016/11/dos-calculos-manuais-aos-programas_9.html 

O MESTRE DOS GÊNIOS



No filme "O Mestre dos gênios" encontramos duas pessoas que se conhecem e se encantam mutuamente. E depois de um tempo, acabam se desentendendo. Já vimos essa história antes, não é mesmo? Relacionamentos humanos são teste importante e instrumento de percepção principalmente de nossas fragilidades. Quando conseguimos ultrapassá-las, podemos até crescer. 


encontros e paixões

A primeira cena em slow motion focaliza pés, chapéus e guarda-chuvas, numa sequência cadenciada. Um desfile nova-iorquino elegante e sinistro ao mesmo tempo. A cor da fotografia é sombria adequada à época de crise de 1929. A direção de arte e construção de época são primorosas, o diretor do filme é Michael Grandage.

Enquanto isso, os pés impacientes do escritor Tomas Wolfe (Jude Law) pisam com força a água empoçada, querendo furar o chão. Fumando, ele olha para cima onde o editor Maxwell Perkins (Colin Firth) deve estar avaliando seu texto. A espera é tortuosa e a água da chuva que deixa seus cabelos ensopados não o incomoda. Ele habita outra realidade.

Essa primeira cena nos desenha o temperamento de Tomas Wolfe, exuberante, impulsivo e até briguento. Um comportamento sem limites e inovador, ao mesmo tempo em que é sedutor. Com dificuldade de foco e uma inconstância física, com tiques nervosos difíceis de serem controlados. Ele vai se deparar com a estabilidade de Perkins, com sua capacidade de disciplina e atenção. Com seu bom senso e equilíbrio emocional.

Essa radical diferença de temperamento entre as personagens a princípio não impede a grande atração que um exerce sobre o outro. O editor percebe de forma íntima e pessoal a natureza vibrante que o escritor possui. Ele reconhece a força positiva desse temperamento. Ocorre, então, a cooperação entre as necessidades e possibilidades dos dois. Tão bem que aparecem até ciúmes na companheira de Tom (Nicole Kidman). Ela sabe que teria sido de alguma forma substituída pelo editor na vida de Tom.

Porém, no convívio há um desgaste que leva ao rompimento. Tom não tem a necessária introversão para elaborar o que é desequilibrado em sua natureza. O contato vai se tornando cada vez mais insuportável para os dois.

O relacionamento desanda. Tom não consegue entender a limitação que Perkins lhe pede, sugerindo inclusive que ele está errado em sua maneira de viver. Ele se irrita com o comedimento de Perkins, que por sua vez explode em defesa própria: “Vivo a vida de forma diferente. ”

Afastam-se. A afetividade não é suficiente. Por mais que Perkins tenha visto nele a figura de um filho, Tom com sua natureza rebelde, livre de compromissos, de forma até infantil e com argumentos irracionais, não se submete às demandas e à autoridade do editor. E ele precisava tanto da figura de um pai.

Mesmo assim, ocorre tardiamente a revisão do comportamento de Tom, revelada na carta de despedida a Perkins. Teria sido essa carta de Tom um alívio para suas possíveis culpas nesse momento de consciência?

OS GÊNIOS E A LITERATURA

A tradução em português do título do filme (O Mestre dos Gênios) privilegia a figura do escritor. O título Genius em inglês é mais adequado, se pensarmos que as duas personagens centrais são igualmente geniais em suas funções.  Enquanto o livro é criação do escritor, é do editor a tarefa de colocar bons livros nas mãos dos leitores, sendo assim esteio para tal talento.

E o contato entre os dois nos aproxima da paixão de ambos pelo mundo da ficção. Mergulhamos no mundo da literatura para perceber detalhes na escolha das palavras, na construção das personagens e na maneira como uma história é contada.
Sabemos pelas palavras de Perkins que “A história é o que importa, não o número de palavras”. O impacto de uma descrição deveria ser como um relâmpago. A escolha das palavras adequadas para conduzir o leitor ao essencial, como um raio, simples e sem adornos.

Perkins cuida para que os excessos de estilo de Wolfe sejam eliminados. Simplificar frases, eliminar senso-comum, moldar o título para expressar a síntese da obra. Sem retórica, sem digressão. Por sua vez, para Tom, tudo importa: imagens, adjetivos e sons. É um diálogo entre diferenças. E a partir dela podemos entender de onde vem a inspiração desse escritor e quais são as dúvidas do editor, que se divide entre a necessidade de um público e a expressão espontânea de um talento.

NARRATIVAS AO PÉ DO FOGO

Mas, uma cena permanece dentro de mim. Era entardecer e eles visitam o topo do prédio em que Tom morou ao chegar a Nova York. É uma parada especial para lembranças, em seu retorno após a viagem à Europa. Ouvimos relatos de experiências de Tom e reflexões de Perkins. Um conjunto que oferece poder àquele momento.
Perkins vai longe, a um lugar em que homens ancestrais se reúnem ao redor do fogo para contar histórias. Um ritual coletivo de narração para afastar o medo. Ou então, um ritual para dar sentido ao absurdo da experiência humana.
Não seria essa ainda a função da literatura e das histórias de hoje em dia? Talvez permaneça vivo ainda entre nós essa força das narrativas, como se a liturgia de escutar ou falar histórias repetisse um gesto, o mesmo de sempre, de novo e de novo inaugurado. Ao pé do fogo ou nas palavras lidas em voz alta ou no silêncio no texto literário. Um momento de poesia e de imaginação necessário à vida.

A história é o que importa e os personagens falam à alma. E ele e Tom leem e declamam textos, promovem prazer acordando significados, sendo eles mesmos personagens porque segundo Tom todos somos personagens.  

E nessa cena, nesse final de dia, na frente da cidade, abraçados pelo mesmo ideal, frente às luzes da cidade, sob o céu e a amplidão do horizonte, eles reafirmam seu amor à literatura e à ficção. São nesses instantes eles mesmos personagens de uma grande história de irmandade entre seres humanos.


PS 1: É difícil viver na cidade de São Paulo. Por outro lado, ela tem aspectos apaixonantes. Leia o texto e discorde de mim.  http://coisasdoimaginario.blogspot.com.br/2016/11/paixao-pelo-centro-ii.html

PS 2: A passagem dos cálculos manuais astrológicos para o uso dos programas brasileiros em computadores pessoais teve momentos interessantes.  Conheça essa história no link a seguir. http://historiastrologsp.blogspot.com.br/2016/11/dos-calculos-manuais-aos-programas_9.html 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

COLETIVO PULSANTE

Difícil encontrar quem me acompanhasse a um passeio ao centro velho da cidade para um show badalado.

Foram muitas as justificativas e negativas. Houve também reticências e até tentativas de me demover da ideia. Outra programação: aniversário, cinema, um lance que vai pintar.

Quase desanimei. Nem era tanto pelo show. Queria mesmo andar pelas ruas, entre os prédios, pelo ambiente antigo. Até que no final da tarde, recebi o telefonema de amiga bem-disposta.

No início da noite, estacionado o carro, descemos na estação da Sé. Tênis confortável, calça jeans, bolsa pequena, quase minúscula. Atravessamos a Sé, passamos pela rua Direita. Em frente ao silêncio da catedral, um palanque com música era acompanhado por um público que dançava e cantava, ou olhava interessado. No Pátio do Colégio, a claridade branca da pequena igreja delineada em azul quase brilhava.

No Largo do Café, entre as ruas São Bento e Três de Dezembro, em vão, procuramos a animação e as mesinhas na calçada que o recorte de um jornal prometia. As ruas estavam desertas e com poucos transeuntes. Seguíamos, levando à frente como escudo, as saudades dessa cidade velha. A pouca iluminação não fazia menores os prédios que nos rodeavam. A mim, tudo assombrava.

Moradores de rua dormindo nas portas dos prédios, em caixas de papelão, cobertores, trapos. Guardas de prédios, uma janela acesa, algum trabalhador de banco fazendo hora extra de trabalho. O comércio fechado, dormindo inacessível.

Assim, sustentando o espírito, atravessamos o Vale do Anhangabaú. O prédio do Correio, as caras de cada coluna. A presença de pessoas nas ruas ia aumentando. Tribos se reuniam nos balcões dos bares. Fui observando os rostos e grupos nas calçadas e avenidas na República. Tipos com muitas tatuagens, com roupas sérias, com tênis ou sandálias, com camisetas e adereços específicos. E vendedores de milhos e de frutas envoltas em chocolate e maçãs do amor. Churrasquinhos, quiosques de caldo de cana e de cachorro quente, acarajé. Diversidade e inclusão no menu. Águas e cervejas nas mãos festejando a noite que seria de chuva. De tudo e muito, para uma longa madrugada de festejo. Porque a vida não é somente trabalho e dor. Ou angústia de ter que viver.

Nos perdemos pela multidão que já se acumulava pulsante. Havia em mim uma ponta de euforia. Eu era uma no meio de toda gente personagem de uma festa. Como se naquele momento, houvesse um elo entre todos. Um significado que me elevava acima da minha pequenez. Ausência e esquecimento de mim mesmo. Um alívio da subjetividade. 

A ansiedade do início estava satisfeita. Um pouco de tudo sobrava nos meus olhos como uma composição de acordes dissonantes e sonantes. Som eloquente sob especial batuta dentro do desacordo de tudo o que eu havia observado. Ruas em parte invadidas por mendigos, praça pública em paz a dançar, pessoas em busca do mesmo destino em que também me perdera, no meio da multidão, na larga boca de cena.

Denso de suor, um transpirar em conjunto, um ritmo das duplas, dos grupos , dos sujeitos, mulheres e homens solitários, tudo formando o caldo coletivo. Torvelinho de muitos risos e palavras soltas, gestos, movimentos muitas vezes desordenados, sempre grandiosos, sinfonia, ópera de uma cidade. De tudo um pouco, ficou dentro de mim.

A amiga? Ela continuou sempre cúmplice nos sustos e nos medos do trajeto, nas descobertas e nas alegrias. Amiga. Testemunha como eu, mas principalmente, personagem da cidade vivida intensamente por nós naquela noite.


quarta-feira, 26 de outubro de 2016

ASTROCAMP , ASSOCIAÇÃO DE ASTRÓLOGOS DE CAMPINAS E REGIÃO

“Naquela época não tínhamos internet. Só havia o curso
por correspondência na Regulus em SP.
Era longe.
 Resolvemos montar um grupo de astrologia em Campinas.”

ORIGEM

Rose Villanova quando se mudou para Campinas em 1984, quis fazer um curso de astrologia e não teve sorte ao buscar uma escola ou professor. Teve a indicação de Cecilia França, com entrou em contato.  Como ela ia para Campinas todas as semanas para fazer supervisão em psicologia analítica, área em também atuava, fez a proposta: se Rose montasse uma turma, ela daria aula de astrologia. 

Então, Rose mobilizou seus recursos pessoais. Espalhou cartazes pela cidade em casas de produtos naturais e esotéricas. Juntou dezesseis alunos. As aulas aconteceram em uma loja de produtos naturais no bairro Barão Geraldo chamada Cia do Campo. 

Era o segundo semestre de 86. Chegou a tornar-se sócia da dona da loja que acabou sendo depois ma espécie de quartel general do grupo. Logo conheceu Fernando Guimarães que em 1987 também começou a dar aulas para outra turma. Um grupo de estudo foi também formado por alunos de turmas anteriores.

Chegaram outras pessoas para dar aulas, como o professor Álvaro Schmidt Neto, que participara da Escola Júpiter juntamente com Olavo de Carvalho ou para dar e participar das palestras que ocorriam com regularidade. Entre os anos 87 e 88, outras turmas e níveis de conteúdo. O curso se expandia. 

Estava se aproximando o momento de aparecer uma organização mais formal. 

DAS REUNIÕES INFORMAIS AO ESTATUTO DE INSTITUIÇÃO

Os alunos dos vários professores (Cecília França, Fernando Guimarães e Álvaro Schmidt) continuaram a se reunir nas aulas e fora delas para estudar e discutir astrologia. 

Os participantes do grupo começaram a participar de congressos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Frequentaram alguns cursos com Adonis Saliba (Astrologia Eletiva), com Maurício Bernis (Astrologia Empresarial e Economica) e com Sérgio Mortari (Astrologia Médica). Rose Villanova também fez curso de Astrologia Preditiva com Waldir Fücher e depois no Rio com Otávio Azevedo de Astrocartografia. Fernando Guimarães apresentou ao grupo o astrólogo Darci Lopes que começou a vir a Campinas para dar palestras. 

Tantas atividades promoveu entusiasmo no grupo e a ideia de formar uma associação de astrólogos da região. Organizou-se, então, um Encontro de Astrologia de Campinas e Região que ocorreu em 13 de novembro de 1988. A pauta era: criação da Associação dos AACR – Associação dos Astrólogos de Campinas e Região; sugestões para trabalhos de grupos de estudo; elaboração de um boletim informativo. Esse foi o primeiro esboço do que seria a Astrocamp.

A partir daí, a associação foi sendo amadurecida. Em 30 de Setembro de 1990 às 9h45 minutos, ela foi registrada em cartório e na Receita Federal, com CGC e todas as formalidades de uma associação.

O advogado Guido Ivan de Carvalho, amigo do grupo, que a pedido da Maria Eugênia de Castro já tinha elaborado o estatuto da Sarj no Rio de Janeiro, colaborou nessa tarefa. Dalva Helena Tupinambá, advogada e astróloga, acompanhou esse processo jurídico junto a ele, eleito pelo grupo associado de honra.

Estavam presentes no ato da fundação César Moura, Alma A. Bacci Garcia, Dalva Tupinambá, Rose Villanova, Eduardo Moreno Marques, Yolanda Martinelli de Souza e Fernando Mattos Guimarães. Também participaram da instituição entre outros: Darci Lopes, Juarez Fausto Prestupa, Lilia Donadon, Bronislav Antonys Drabek, Sonia Regina Pequeno e Yolanda Martinelli.

ATIVIDADES DA ASSOCIAÇÃO

Havia boletins mensais e reuniões que ocupavam a tarde toda (contando com lanche compartilhado!). Nelas, os associados davam palestras que eram acompanhadas de discussão.

Além dessas reuniões, aconteceram também nove palestras, realizadas aos sábados mensalmente, com astrólogos convidados e especialistas de outras áreas de interesse (radiestesia e iridologia) realizadas em locais mais amplos com um público mais eclético e em maior número. O intercâmbio com astrólogos de São Paulo e outras cidades era grande.

Houve três eventos maiores com formato de congresso. O primeiro em Jaguariúna, no hotel Jaguari, a 26 de novembro de 1993 com pouco mais de cinquenta participantes. O segundo foi em um restaurante em Holambra. O terceiro em águas de São Pedro no Hotel Fazenda Fonte Colina Verde nos dias 23, 24 e 25 de agosto de 1996. Antes desse terceiro encontro, Darci Lopes apresentou a Rose Villanova, Valdenir Benedetti que foi de grande ajuda na organização. Este último contou com mais de cem fichas de inscrição, o que é um número grande levando-se em conta ser um evento de astrologia em contexto regional.

Os convites eram enviados e alguns patrocínios conseguidos para as despesas do hotel. Às vezes, os participantes se cotizaram para bancar os palestrantes locais e convidados de outras localidades: Rose Villanova, Lidia Carmelli, Darci Lopes; Kika Magalhães; Henriete Fonseca, Paulo Granjeiro, Nezilda Passos, Hanna Opitz, André Peixoto, Elza Calder. Rui Sá foi palestrante em todos os eventos.

O estatuto instituía reuniões duas vezes por ano. Nelas eram definidas atividades e a realização de evento e/ou conferência. Houve até a eleição de um Conselho Consultivo. 

REPERCUSSÃO 

Desde os primeiros momentos, o grupo se preocupou em emprestar às atividades uma seriedade e compromisso formal. Assim desde os primeiros cursos, antes da formalização da instituição, havia um esquema saturnino de provas e exame. As reuniões do núcleo de estudos davam certificado para seus frequentadores. As reuniões da diretoria tinham atas de registro. A intenção era realizar encontros anuais. Os eventos contavam com questionários de avaliação para os participantes preencherem dando opinião, críticas e sugestões. E certificados de participação.

A última ata registrada é de 11 de novembro de 1994. O último evento da entidade, segundo ela, foi em 1996. Aos poucos, a Astrocamp foi perdendo a força inicial. Entre as primeiras reuniões informais até o final de funcionamento da instituição, foram pouco mais de seis anos de trabalho fora dos grandes centros em que normalmente as coisas acontecem.

As instituições têm um começo e, muitas vezes, um fim. São muitas as dificuldades para manter uma instituição funcionando. Resistências normais à realidade: inúmeras tarefas, problemas de verbas. Mas, podemos dimensionar a extensão de uma instituição pela seriedade e dimensão de suas ações. A história da Astrocamp mostra um esforço conjunto de seus membros, uma disposição para o estudo compromissado da astrologia que com certeza deixou sementes.

Em depoimento, Darci Lopes lembrou certa vez que ele também acreditou nesse ideal astrológico que foi sustentado por Rose Villanova e por Fernando Guimarães. Segundo ele, tal idealismo propiciou que a instituição acontecesse.

Rose Villanova foi secretária, tesoureira e até presidente da associação, talvez a gestão mais marcada por eventos de sucesso, segundo depoimentos de colegas. Ela foi a alma da instituição e juntou em torno de si parceiros de mesmas intenções.

Uma última observação: havia comemoração no Dia de Reis, o dia do Astrólogo. Com certeza, era um grupo que também se divertia muito!


AS IMAGENS: o logo da instituição, uma planilha de gastos, o folder de um evento, um mapa do Rio de Janeiro distribuído para estudo do grupo, um certificado de participação em evento e uma ficha de inscrição . 





sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O INFINITO E A MATEMÁTICA


Quando o infinito é o limite? Parece brincadeira, jogo de palavras, não é mesmo?  Mas um filme que conta a história do matemático indiano Ramanujan nos abre a possibilidade de que não haja limites para a natureza humana. Biografias têm sempre um certo charme, mesmo na hipótese de que haja aspectos fantasiados da narrativa.

O HOMEM E O INFINITO



O HOMEM, ESSE INFINITO é o nome do capítulo do livro O Despertar dos Mágicos, de Pauwels e Bergier, de muito sucesso nas décadas de 70 e 80. Nele, está incluída a história do matemático indiano Srinivasa Aiyangar  Ramanujan (Erode,1887 - Kumbakonam, 1920). A titulação é sugestiva: há infinitos possíveis na natureza humana e, por certo, na vida de Ramanujan essa presença é mais do que uma hipótese.

Nesse livro ele é apresentado por sua excepcional inteligência, identificada já na escola infantil, aos cinco anos de idade. Mas isso não facilitou seu caminho. Pelo contrário. Conseguiu desenvolver seus estudos mais por sua capacidade extraordinária do que por frequentar salas de aula o que ocorreu esporadicamente. Quando se casou, teve que buscar trabalho chegando a ser contador em Madras.

Mas seu espírito inquieto fez que ele entrasse em contato com o matemático inglês G. H. Hardy em Cambridge a quem envia 120 teoremas de geometria que acabara de demonstrar. Essa correspondência impressiona o professor inglês que o convida a ir a Cambridge.

Essa é também a história do filme que se passa antes da Primeira Guerra Mundial, dirigido por Matt Brown e estrelado por Dev Patel (Ramanujan) e Jeromy Irons (Hardy).  As cenas vão construindo as dificuldades por que passa o matemático indiano, proveniente de uma pequena cidade da índia, em contato com as diferenças de cultura e alimentação. A rejeição que sofreu por diferenças étnicas, situações de bullying. Foram cinco anos de esforço a fim de ver seu trabalho reconhecido. Isso aconteceu, mas lhe custou a saúde. Voltando a sua casa, falece um ano depois.

Todos os detalhes da narrativa nos emocionam. Seus esforços para conseguir cumprir as exigências do seu professor, suas conquistas e perdas. O contato difícil e acadêmico entre ele e Hardy ganha importância. Aos poucos um vai transformando o outro. Se Ramanujan consegue dar as provas que o mestre desejava para ratificar seu aluno perante a comunidade acadêmica, Hardy muda sua maneira de conceber a espiritualidade. Perceber que seu aluno era casado foi uma surpresa. Nesse momento ele percebeu sua distração em relação ao lado humano de Ramanujan. Quanto mais ele teria desconhecido de sua vida? Como ele tinha vivido um relacionamento que seria de amizade? Esse questionamento vem tarde quando sabe da doença avançada que acometera seu discípulo.

O contato entre os dois passa por momentos de embate. Mas acabam construindo um respeito mútuo chegando ao contato carinhoso. A humildade e educação do aluno ganham lugar perante a rigidez e ceticismo do professor.

A persistência e capacidade de Ramanujam tocam Hardy que se abre a uma nova noção de fé e possivelmente de Deus.

INFINITOS

Quanto de fantasia existe no filme? Quanto de invenção para ganhar o público? Ainda que seja um filme correto sem grandes ousadias, temos poesia nos diálogos e beleza ao nos serem apresentados os aspectos da cultura indiana. Cenas intensas como aquela em que Ramanujan se depara com a estátua de Newton. O peso da pedra faz-se símbolo e representação. Em busca de força? De motivação?

Mas, mais importante do que tudo isso talvez seja a busca da personagem central, em uma particular perspectiva da vida. Uma especial biografia.

Uma vocação é alimentada desde sempre e a cada situação. Mantida na persistência de um impulso interno. Abrindo caminho para alcançar o objetivo da expressão. Dando espaço a algo inevitável. Simplesmente ele sabia os números, os padrões de que é feita a natureza. Os resultados das equações chegam-lhe. Ele tem de agir nelas e através delas. Para ele, são a expressão do pensamento de Deus.

Essa percepção nos conduz a limites impensáveis mas possíveis da natureza humana. Raros e por isso mesmo inspiradores. Desse modo, desenhar nas pedras, no papel , na lousa é-lhe fundamental. Porque sim. Rastros de sua genialidade, da divindade que o habita.

Observamos a grandeza de um ser marcado por algo impossível de ser explicado. Um mistério inalcançável pelo exercício da mente. Ele é um explorador do infinito. Do mundo dos números que abrem o infinito à inteligência humana.

O infinito pode ser visto? Há pessoas que transitam por pequenos detalhes, há outras por universos de coisas grandes. Portas para infinitos. Para Ramanujam, os números, as equações são tais portais, uma linguagem que ele encontra dentro de si mesmo. Incomensurável.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

DE ASTROLOGIA, TECNOLOGIA E GRUPOS ESPECIAIS

Autoria: Ana González


Se tivermos certo tipo de atenção sobre relatos de memória, poderemos descobrir detalhes que podem surpreender por seus aspectos humanos e afetivos. Tais relatos ganham colorido.

Ao buscar as histórias dos programas Vega e Pegasus para cálculos astrológicos, descobri outras de que eu sequer suspeitava a existência. Assim descobri um grupo especial em torno da busca por novidades tecnológicas: alunos e um mestre. Como isso aconteceu?

Antonio Facciollo no início de sua carreira profissional, como todos os astrólogos daquela época, fazia os cálculos manualmente. Tábua de logaritmos, efemérides e outros apetrechos necessários, além de alguma capacidade matemática.

Preocupado com a precisão dos números, aceitou rapidamente as primeiras calculadoras, máquinas bem rudimentares nos anos de 1973/1974. E aberto ao contato com seus alunos percebeu logo interesses comuns. Todos desejavam os recursos tecnológicos que estavam chegando.

Assim como tinha acontecido entre os profissionais na época dos cálculos manuais, em que havia trocas de livros técnicos, equações e publicações estrangeiras, também na época do aparecimento de novas tecnologias, houve comunicação e partilha de novidades.  Eram disquetes, rotinas em tiras de papel, notícias, cópias piratas que passavam de mão em mão. 

Houve uma movimentação muito grande. Estava montado um cenário adequado à produção de conhecimento e realizações.

Ao entrevistar Antonio Facciolo, pouco tempo depois, pude confirmar algo de que eu já tinha tido indícios. Ele e seus alunos Amauri Magnana e Paulo de Tarso tinham formado um grupo muito especial, trabalhando por um objetivo comum. Eram possibilidades abertas que resolveriam as necessidades de todos.

 A curiosidade dos jovens foi acolhida pelo mestre. Eles tinham competências na área das matemáticas, puderam aproveitar o momento. Eles aprendiam e acompanhavam o entusiasmo do professor. Tornaram-se companheiros e amigos.

Enquanto isso, o caldeirão do conhecimento acontecia. Primeiramente as calculadoras simples, depois as programáveis e, por fim, os computadores pessoais. O professor indicava o caminho da astrologia. A adaptação para a linguagem tecnológica foi o trabalho dos jovens. Os programas que inicialmente eram distribuídos aos amigos, começaram a ser vendidos por insistência do professor.

Os jovens não pararam mais de produzir sempre buscando aperfeiçoamento e a inclusão de novos dados astrológicos.

Nas três entrevistas que eu realizei, apareceu a mesma narrativa de um clima de cooperação. Um brilho nos olhos do mestre ao relembrar esse encontro. O mesmo brilho dos olhos dos dois alunos.

Será que eu estou fazendo uma análise subjetiva? Por outro lado, talvez as três personagens envolvidas não tivessem noção do que acontecia. Porém suas vidas foram marcadas por aqueles acontecimentos.  Duas biografias foram direcionadas para a tecnologia a serviço da astrologia. Direcionadas para sua vocação.

Circunstâncias especiais mudam nossas vidas. Nesse caso, os dois alunos tiveram o privilégio de encontrar um mestre. O mestre exerceu seu Magistério.

Juntos, formaram um grupo muito especial em que uns resolviam as necessidades dos outros. Um encontro especial. Sorte deles. Sorte nossa.