terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

HACKSAW RIDGE, O FILME

Ana Maria M. González 

“Tenho que ser fiel ao que acredito.”
“Se você tem uma crença, você é isso.”




O título original é Hacksaw Ridge, o nome de uma aresta de monte, um penhasco de mais de 120 metros de altura localizado em Okinawa no Japão que os soldados têm que subir para avançar nos objetivos vencendo os japoneses que se multiplicam lá em cima saídos de túneis subterrâneos. Uma tarefa para homens dispostos a morrer. Guerra é isso: confronto com a morte.

Candidato a prêmios da Academia? Com certeza. Filme de 2016, da Austrália, dirigido por Mel Gibson. Andrew Garfield é Desmond Doss, filho de família de pequena cidade da Virgínia, pai violento e mãe amorosa, um irmão com quem na infância brincava e brigava muito.  Ele é também o soldado que não quer empunhar a arma, por questões de fé religiosa.

Essa decisão é difícil de ser mantida e as consequências dela advindas constituem a primeira parte da narrativa. Ele faz tudo para estar ao lado de seus pares no serviço militar, mas os superiores não concordam facilmente com a ideia. Quando ele consegue a permissão para ir como médico com seu batalhão, começa a segunda parte em que ficamos sabendo como é a presença de Desmond na guerra sem arma para se defender.

E todos descobrem que o soldado magrelo que parecia fraco e covarde, na verdade, é mais do que isso.  Para registrar a crueldade da batalha, pode ter havido certo exagero do diretor no sangue espirrando dos corpos, nas cabeças voando, na fumaça e fogo se espalhando pela tela em meio a barulho imenso. Sem faltar aspectos de rituais japoneses (ops!).

Nesse espaço de luta intensa, ocorre o feito de Desmond. Ele conseguiu ao final da batalha, salvar 75 de seus companheiros de tropa que ainda estavam vivos, mas sem condições de se movimentar. De forma engenhosa e inteligente, com esforço e coragem, ele se coloca a serviço do compromisso assumido. Estar na guerra sem matar. Pelo contrário, salvou muitas vidas.

Mas, no conjunto da obra há detalhes que só um mestre do cinema como Mel Gibson poderia imaginar.

CRENÇA PESSOAL E DEVER CÍVICO

Paralelamente temos cenas espalhadas aqui e ali, em flashback que vão delineando os motivos para a intrincada decisão de Desmond. Uma sequência de fatos o conduziu a esse comportamento. Uma força maior.

Na infância, vemos dois meninos que parece gostarem de desafios físicos como subir em altas montanhas e se haverem em disputas. Em uma dessas cenas de briga, Desmond bate com uma pedra na cabeça do irmão que desmaia. Hal teria morrido? Os olhos de Desmond assustados falam de um terror interno depois que ele avistou  o quadro da parede que anuncia a lei do Senhor: Não matarás! O pior dos pecados.

A segunda vez, no limite de matar seu próprio pai, no momento em que ele se depara com a própria violência, toma sua decisão que será problema quando ele quer estar junto de seus pares na situação de guerra.

Depois do alistamento, ele vive complicações no exército com seus companheiros de batalhão e com seus superiores para poder manter sua deliberação. Argumentação inteligente e afinada não o salvam de humilhações, constrangimentos e do tribunal militar. A intervenção decisiva do pai -surpresa!- consegue libertá-lo para ir ao combate.

No campo da guerra, Desmond vai descobrir a que veio. Ao final da primeira batalha, quando tudo estava perdido e ainda sem sentido, ele conversa com Deus: “O que você quer de mim?”, pergunta. E continua, “Eu não entendo, eu não consigo ouvi-lo.”  Neste momento alguém no campo de batalha arrasado e cheio de fumaça pede: “Médico , me ajude.” Outra voz, grita: “Socorro!” Senhor!, ele entende esse chamado e mergulha na colunas de fumaça em busca de quem precisa de sua ajuda. É hora de salvar vidas.

Herói? De certa forma sim. Mas há mais do que isso na construção dessa personagem. Há indícios de uma moral cívica e religiosa que constrói um ser humano. Assistimos à integridade sustentada a alto custo. O que parecia fraqueza ou falta de coragem, surge diferente junto a uma grandeza de comportamento, ausência de reatividade, contenção emocional adequada.

Trata-se de uma personagem real que ganha no cinema a homenagem merecida. A descrição de uma biografia que é possibilidade de vermos a nós próprios. De nos percebermos em experiências semelhantes e que muitas vezes não estão longe das que nos cabem na vida. Desmond conseguiu ir atrás de seus desejos mesmo pagando caro. Quanto estamos dispostos a pagar pelo que desejamos? Quantos de nós pode ir atrás de suas crenças e objetivos? Em que colocamos nosso empenho?

E o diretor ainda nos brinda com beleza e cenas de forte apelo metafórico, adequadas à dimensão de grandeza que ele quer dar à personagem: após a guerra, o banho purificador e, após a segunda batalha, a maca sobe em direção aos céus. Um sorriso nos lábios marca a sensação -quem sabe?- da bênção libertadora. Duas cenas com elementos estéticos para significar a sensação bendita de paz pela missão cumprida.

Filmes de guerra não são os meus preferidos, pelo contrário. Em geral fujo deles. Porém este me agradou muito. Ele fala dessa personagem e de sua fé que movimentou as pessoas em torno dele. Diz o capitão: ”Os homens do batalhão não creem como você, mas eles acreditam que você crê.” Portanto, um exemplo a ser seguido por causa da firmeza de defender aquilo que o fez diferente de todos. Ele traz dentro de si convicção, a mola propulsora de ações na vida.

Tudo baseado em uma história real. Incrível não é mesmo? Biografias são sempre incríveis. 

GIRASSOL – CENTRO DE ESTUDOS DE ASTROLOGIA

Antonio Brito  


Mais do que uma escola de Astrologia, a Girassol é um centro de estudos onde o principal objetivo é ‘elevar’ o status da Astrologia, formando profissionais realmente competentes.”(Maurice Jacoel em 1989)


ORIGEM



Maurice Jacoel
Maurice Jacoel nasceu no Egito, mas vive no Brasil desde 1977. Formado em Filosofia pela USP, tornou-se astrólogo e desenvolveu nos anos 80 um tipo de Astrologia pouco conhecida na época: a Astrologia Empresarial.

Em 1987, Maurice e Constância Nader resolveram criar uma escola de Astrologia, o Centro de Estudos de Astrologia Girassol, que ficava na Rua Girassol 231, Vila Madalena em São Paulo.Os dois chegaram a fazer contato com a Secretaria de Educação, no intuito de um reconhecimento oficial do curso e da regulamentacãoda profissão de astrólogo.

A Girassol nasceu de uma perspectiva que congregava astrólogos de várias tendências e caminhos, em um espaço multidisciplinarque permitia a troca e a integração de conhecimentos.

Dessa ação pioneira participaram outros astrólogos: Sônia Barros, Maria Alice Camargo, Amâncio Friaça, Valdenir Benedetti, Henriette Fonseca, Ricardo Riseck, Ion de Freitas, Valderson, Beto Botton, Bárbara Abramo; entre outros.

ATIVIDADES DA ESCOLA




Mais do que uma escola de Astrologia, a Girassol era um centro de estudos onde o principal objetivo era formar profissionais competentes. Devido a isso, oferecia cursos de Astrologia desde o Básico para iniciantes e curiosos, até os mais específicos de Interpretação e Previsão, para os estudantes mais avançados e astrólogos.

Além de Astrologia, a escola Girassol oferecia cursos de Tarô, I-Ching e Metafísica. Havia também um curso chamado “Perspectivas Esotéricas na Estética Cinematográfica”, ministrado pelo professor de estética da FAAP Ricardo Risek, que abordava a linguagem dos símbolos contida em filmes como Blade Runner, Coração Satânico e outros.

A astróloga Maria Alice Camargo e a psicóloga Vivian Hamann Smith conduziam o Astrodrama, que era uma combinação dos conhecimentos da Astrologia e Psicodrama, trabalhado de acordo com a posição do mapa astrológico de cada participante. O desenho do mapa era feito pelo computador. A interpretação do Sol, da Lua e dos demais planetas era dramatizada por cada um, de acordo com a posição dos astros no mapa.

A ideia fundamental da Girassol era estabelecer uma integração entre várias áreas de conhecimento, mas sempre focada na formação do astrólogo e no desenvolvimento pessoal e coletivo dos seus participantes.

Cada aluno podia fazer um ou mais cursos, conforme o seu interesse, e também podia participar de palestras, vivências, workshops e outras atividades.

A Girassol era um espaço aberto não só aos estudantes, mas também a todos os interessados aos assuntos que eram ofertados: profissionais interessados em dar cursos, apresentar temas de pesquisa, seminários ou simplesmente trocar informações, podiam procurar a escola.

A escola Girassol funcionou até o ano de 1992. No entanto, seus integrantes continuam na ativa como astrólogos até hoje.










Antonio Brito é astrólogo especializado em Astrologia Clássica e Horária e participa da equipe que realiza a pesquisa na História da Astrologia em SP. http://astrologiaecompanhia.com.br/

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O MAPA NATAL DE PABLO NERUDA

O mapa do poeta Neruda tem seis planetas no signo de Câncer e o Ascendente em Peixes. A intenção deste artigo é observar como funciona essa grande quantidade do elemento água no comportamento do poeta a partir do filme NERUDA.

Pablo neruda e o filme

Pablo Neruda nasceu com seis planetas em Câncer (Sol Lua, Mercúrio, Vênus, Marte e Netuno) e Ascendente em Peixes. (12/07/1904, 21h, Parral, Chile). Em geral os filmes que lidam com biografias, descrevem os comportamentos das personagens com razoável fidelidade. Como o elemento água dos signos de Câncer e de Peixes são descritas no filme NERUDA que nos serve de ponto de apoio?

Eis uma rápida síntese do filme. Em 1948, o poeta e senador é membro de um partido político, logo colocado à margem da legalidade. O governo autoritário do presidente Videla radicaliza e inicia um tempo de perseguição ao poeta/senador e a todos que são contra suas posições. Neruda foge da perseguição do policial Oscar Peluchonneau.



O poeta canceriano

O lado político não está tão presente na narrativa do filme como a figura do poeta, que vai experimentar as situações de perseguição de que é vítima e manifestar suas preocupações com as dores do povo e com seu local de pertencimento. Em várias cenas do filme e nos textos poéticos lidos se manifesta o envolvimento com seu povo em uma especial expressão da função canceriana de se sentir parte de algo. O povo se reconhece no que o poeta escreve porque suas palavras emprestam consistência à sua luta naquele contexto perverso:

“Por estes mortos, nossos mortos, peço castigo.

Para os que salpicaram a pátria de sangue, peço castigo.

Para o verdugo que ordenou esta morte, peço castigo.”

Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,

e tiritam, azuis, os astros, ao longe”.

O vento da noite gira no céu e canta.”


Dentro dessa relação com o social, há um carinho que se distribui por todos indiscriminadamente, em todos os níveis sociais em uma reação de profunda empatia aos sentimentos dos outros. Há um olhar e cuidado quase maternais dedicado a quem dele se aproxima. A cena da mendiga que ganha seu paletó é expressiva e emocionante.

Por outro lado, quatro dos planetas em Câncer estão na casa cinco. Não são poucas as ocasiões em que ele se diverte e busca a presença das mulheres. Mas esse contato não me parece erotizado à la escorpião, mas mais como fonte de prazer – quase estético- adequado à casa cinco e ás qualidades piscianas do Ascendente do mapa.

Outra expressão da casa cinco aparece na perseguição de que ele é vítima. Ela deixa de ser uma simples perseguição e ganha contornos especiais na medida em que o poeta vai seguindo seu perseguidor, deixando intencionalmente pistas (livros), como um fio de Ariadne a indicar o caminho. Ele, que é o perseguido, acaba sendo o que seduz e amarra o perseguidor em uma armação genial.

Trata-se de um jogo, um indicativo de alguém que vive a casa cinco de forma ampla, utilizando a imaginação para criar aventura. Há sedução e artimanha. Talvez esse seja um indício do Ascendente em Peixes e seu regente na casa cinco (Marte em conjunção com Netuno). Se isso é imaginação do diretor ou verdade biográfica? Se não for biográfica é, então, genial a intuição do diretor!!!

Tal conjunção pode indicar também uma ação com instável contato à realidade e muito namoro com o perigo. Ele escapa das situações de segurança. Não quer restrições mostrando independência. Avalia mal os precipícios à volta. Na intensificação da perseguição, as situações se enriquecem de contornos aventureiros, com detalhes de fantasias. Nada mais netuniano.

Ninguém escapa, e o policial também não, do encantamento (netuniano) provocado por Neruda, seja por sua vida de protagonismo, seja por suas ações surpreendentes, seja por sua linda casa (ele montou lares em vários endereços), seja por seus textos de esperança. Todos param para ouvir suas poesias arrebatadoras. Por onde Neruda passa, ele deixa um doce rastro de sua pessoa. Todos querem estar perto dele. Ele é adorado.

As palavras de Delia, sua mulher, podem indicar a sensação(canceriana) que podemos ter ao conviver com uma pessoa como ele: “É lindo estar contigo, é como viver em um bairro com árvores. ”

Ele é o caso de uma expressão positiva de excesso de água.  Sim, a teoria descreve mais possibilidades, mas não encontramos temores irracionais ou exagerada reatividade, medos e inseguranças. Por outro lado, o lado pisciano surge como criatividade artística e elegante sentido estético. Não é rara a afirmação de que o canceriano é o órfão ou o carente do zodíaco. Não cabe em Neruda, não é mesmo? Em Neruda podemos observar uma imensa empatia aos sentimentos dos outros, coletiva e individualmente expressada. E um derramamento de sensibilidade literária (falta de limites da água) em uma obra imensa.

Há muitos símbolos que não foram analisados. Sobram perguntas: o trígono entre Júpiter/Áries (casa dois) e Urano/Sagitário (casa dez) indicativos de uma sabedoria de caráter mental e inspiradora poderia ter a função de equilibrar o excesso de água? Pode ter sido recurso importante para a realização de sua obra pelas casas do elemento terra? Saturno em Aquário na casa doze talvez não possa ajudar nessa tarefa. Pelo contrário, talvez ele apenas aguce a imaginação e sensibilidade em muitos segredos e solidão de que deve ser feita a vida de um criador da literatura. Temos ainda o trígono entre Saturno e Plutão. Esse sim, poderia gerar outras análises complementares nessa linha de busca de equilíbrio para o excesso de água. 

De nossa parte, ainda cabe uma citação do livro de Stephen Arroyo, palavras de um erudito chinês do século XI: “Entre todos os elementos, o Sábio tomaria a água como seu preceptor. A água é submissa mas conquista tudo. “ (*) Pode ser que Neruda seja exemplo dessa maestria. Ele esteve a serviço e conquistou a todos.

Eis mais alguns versos do poeta repetidos em várias cenas do filme, para sentirmos um pouco mais desse universo aquático e estético em que ele se move:“Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

(*)(Astrologia, Psicologia e os quatro elementos, SP, Editora Pensamento, 1993, p. 111).

Caso queira mais informações a respeito do filme NERUDA, entre no link a seguir: http://coisasdoimaginario.blogspot.com.br/2017/01/pablo-neruda.html

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

PABLO NERUDA

“Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros, ao longe”.
O vento da noite gira no céu e canta.”
 NERUDA

O universo de Pablo Neruda por se situar entre a literatura e a política, sempre abre possibilidades para mais uma abordagem no cinema. De uma, outra ou das duas. O filme NERUDA privilegia qual delas? Segundo a crítica, ele passa ao largo da política e privilegia a literatura. Será?


PABLO NERUDA






‘’Por estes mortos, nossos mortos, peço castigo.
Para os que salpicaram a pátria de sangue, peço castigo.
Para o verdugo que ordenou esta morte, peço castigo.”
NERUDA

O filme chileno NERUDA é dirigido por Pablo Larraín se passa em 1948 e apresenta Pablo Neruda (1904-1973) como senador e membro de um partido político que será logo colocado à margem da legalidade. O governo autoritário do presidente Gabriel González Videla radicaliza e inicia um tempo de perseguição aos que são contra suas posições. O povo e a figura do poeta sofrem com isso. Porém, ele tem saída e inicia uma fuga da perseguição que é montada para prendê-lo. Esta é a história do filme cheia de cores e de lances de aventura.


Neruda (Luis Gnecco) e o policial Oscar Peluchonneau (Bernal) encarregado de prendê-lo, entram em um jogo que vai além das ações esperadas por suas funções. Tal perseguição ultrapassa as intenções políticas e ganha um colorido literário. No conjunto há momentos de humor e ironia, muita leitura de poesia, muita poesia nos diálogos. Linda fotografia.

O cenário político tem presença importante, mas é a poesia que ganha relevos em todos os passos dessa história. O que o poeta escreve tem como objetivo as dores de seu povo, que se reconhece em seus versos que expressam ideais, dando consistência à luta pela sobrevivência em um contexto perverso. Essas funções dos versos são claramente demarcadas nas situações.

Mas, há também uma crítica indiscriminada a poetas e a atores políticos, da esquerda ou da direita e que nos põe a repensar conceitos. Todos são igualados abrindo espaço para nossa reflexão: “A esquerda chilena, são felizes, intelectuais, viajam, voltam felizes.” ; “A higiene é um hábito burguês. Não limpar é um ato político”; “Os comunistas não gostam de trabalhar.”; "Poetas pensam que o mundo é algo que imaginaram”.

A PALAVRA E A LITERATURA

A história central da perseguição vai se transformando e ganhando os contornos de um jogo ou de uma performance em que os protagonistas trocam sinais que somente eles entendem.

Oscar encontra o primeiro livro deixado na máquina de escrever com a dedicatória simples e direta: “Venha nascer comigo, irmão policial.” Um chamariz, uma isca. Oscar não consegue escapar do jogo armado por Neruda.

O policial sente um encantamento pela casa, pelos textos, pela vida do poeta. Escuta a confissão do cantor da casa noturna, um milagre! Percebe que a adolescente pedinte da rua ganhou o paletó do poeta e outro livro. Por onde Neruda passa,  deixa um doce rastro de sua pessoa.

Todos querem estar perto dele. Ele é adorado. O convite diz para ele: vem nascer comigo, irmão policial. Seria esse um encontro que mudaria sua vida? Dessa forma deixaria de ser o filho da prostituta rejeitado pelo pai? Deixaria de sentir a humilhação ante palavras como as do cantor: “[Neruda me falou] de artista para artista, com respeito humano. Você não vai entender isso nunca, policial”. Sairia ele da condição de habitar uma página em branco?

Enquanto Oscar vai se afundando nos versos de Neruda, vai se instalando nele uma obsessão.  Segue na tarefa de policial. Será o protagonista principal dessa história? Mas sua mente se expande em imaginação sem limites. Sonha e se confunde. Na verdade, cada vez mais, quer também se aproximar dessa personagem em que todos se reconhecem.

Até que a perseguição fracassa e a morte chega.

Mas o jogo continua em outro nível de realidade. Uma ficção? Haverá outra saída para ele? Pode ainda nascer com o poeta, iniciar outra vida de significados?

A nomeação por Neruda é a sua salvação. Ele ganha nova vida a partir da palavra falada.  Uma existência garantida pelo poder da palavra. Eis a poesia e a literatura, que dá vida e significado, que refaz o que ficou imperfeito, incompleto, sem sentido.

Assim como o poeta deu a seu povo palavras que deram sentido a seus sonhos – “poemas de fúria, de um futuro imaginário”, Neruda faz Oscar eterno. “ Sua arte me deu vida.”, ele diz.

Sim, este filme é uma homenagem à literatura e ao poeta Neruda. Seguindo os livros deixados por onde ele passa, Oscar tem um fio de Ariadne que impede o herói de se perder no labirinto. É a salvação, o poder libertador da literatura, sinais de um caminho para o desvendamento do segredo e do mistério.

As repetições dos textos por sua voz, em uma leitura com ritmo e tom próprios ao longo da narrativa, destacam o caráter diferencial da palavra poética. Essas repetições são um mantra em que ocorre o nascimento pela fala, pela palavra, ou seja, a mesma nomeação que dá nova vida a Oscar. Temos a metáfora de um renascimento a cada texto poético.

Também podemos lembrar das palavras de sua mulher Delia ao se despedir dele: “É lindo estar contigo, é como viver em um bairro com árvores.” Ou ler mais alguns versos do poema da abertura deste artigo. Ou ler mais alguns versos do texto da abertura para nos sentir mais perto de Neruda e da sensação de libertação e de vida da palavra poética.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.


PS: Visite o link  do poeta Pablo Neruda http://www.fundacionneruda.org/en , organizado a partir dos últimos desejos e testamento da viúva Matilde Urrutia. Especial é a leitura dos poemas por Neruda, cuja entonação se repete no filme em questão.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

MINHA EXPERIÊNCIA COM VALDENIR BANEDETTI POR DOUGLAS MARNEI

Muitos de nós se lembram do astrólogo Valdenir Benedetti que nos deixou em 2009. Ele desempenhou vários papéis na comunidade astrológica do Brasil e em especial aqui em São Paulo. Ele fundou escolas, organizou eventos e deu luz a vários livros de Astrologia. O astrólogo Douglas Marnei nos traz alguns aspectos de seu trabalho e algumas de suas características pessoais. Trata-se de um relato pessoal delicado e bonito. Leia o texto a seguir e participe desse trabalho de resgate. São bem-vindas contribuições nessa tarefa de construção de memória. 

OBS: Esse trabalho faz parte da pesquisa que se desenvolve a respeito da HISTÓRIA DA ASTROLOGIA EM SÃO PAULO. Sua colaboração é bem-vinda! 




Nós bebemos na mesma fonte, tivemos aulas com o professor Wanderley Vernili quando iniciei meus estudos de Astrologia no período de 1977 a 1979. O professor Wanderley dava aulas de graça para uma turma de mais de 100 alunos em um salão paroquial na Vila Nova Conceição. As aulas eram ditadas e os alunos tinham que anotar rapidamente os ensinamentos, para aprimorar o Mercúrio segundo o mestre.

Interrompi os estudos por cinco anos devido ao nascimento de meu filho Icaro e retornei em 1984 com o colega Maurice Jacoel e depois com outros professores. Soube que o Valdenir teve uma escola de Astrologia na Vila Madalena junto com o Edmur Balle, meu amigo de infância da cidade de Pompéia no interior de São Paulo. Ambos tinham sido alunos do professor Wanderley e evoluíram para a condição de professores.

Em 1991 Valdenir e Cintia Turella di Stasi, sua parceira da Cintila Eventos, trouxeram a astróloga Donna Cunningham para o Brasil. O evento aconteceu nos dias 24 e 25 de agosto na Sala São Luiz, na Avenida Juscelino Kubitschek. O livro “Plutão no seu mapa Astrológico” da simpática astróloga americana havia sido lançado pela Editora Pensamento e os temas tratados no Seminário foram Plutão, evidentemente, e terapia com florais.

Logo após comecei a ter aulas com o Valdenir na Escola Planeta de Astrologia na Rua Pamplona, cujo primeiro logotipo foi elaborado pela Artista Plástica e Astróloga Mônica Grohmann (vide ao lado). Foram vários anos de cursos com uma turma assídua quando construímos uma grande amizade.

Valdenir utilizava algumas técnicas de interpretação como a que foi denominada de “provolone”, devido ao formato do gráfico, no qual diante de uma determinada questão Q, procurávamos o Indicador Universal, o Indicador Essencial e o Indicador Acidental. Por exemplo, em uma determinada questão de valores trazida pelo consulente, procuramos primeiramente a Vênus do mapa, que é o Regente Universal da Casa II. Depois vemos o regente da casa II do mapa em questão, que é o Indicador Essencial e por fim, caso houvesse um ou mais planetas na Casa II, estes seriam os Indicadores Acidentais.

Outra técnica que ele costumava aplicar era a do Oposto Simbólico, por onde fluía a expressão inadequada dos signos. Define-se um outro diagrama no Zodíaco onde cada signo tem seu Oposto Simbólico, sobre a tese de que os do elemento Terra se opõe aos de Fogo e os do elemento Ar se opõem aos de Água.

A Árvore dos Dispositores também era utilizada como acessório para a interpretação dos temas. Era uma outra estrutura de relacionamento dos planetas no mapa baseada na regência moderna dos planetas sobre os signos, onde o regente tem a sua disposição os ocupantes de seu signo. O topo da estrutura eram os planetas domiciliados que hierarquicamente dispunham dos demais e assim sucessivamente. O interessante é que cada mapa tem uma árvore própria, como se fosse uma impressão digital.

Valdenir desenvolveu também uma estrutura do mapa baseada nos arquétipos junguianos e na obra de Carlos Castañeda , onde o Guerreiro, o Mago, o Amante e o Rei ocupavam os pontos da cruz cardinal relativos aos signos de Aries, Câncer, Libra e Capricórnio. Esta estrutura foi se ampliando em um gráfico cada vez mais complexo e acabou sendo tema de uma palestra no 3º Simpósio de Astrologia do Sinarj em 1999 sobre “A Arte Astrológica de Ser Guerreiro”. Seguem aqui dois links para assistir esta palestra:


Além disto, ele recomendava a mudança de local para passar o aniversário de modo que a Revolução Solar produzisse um ano auspicioso para o cliente, evitando possíveis aspectos negativos com os luminares e o ângulos do mapa.

Ele era um grande empreendedor em prol da Astrologia, tendo organizado inúmeros congressos, como um que aconteceu na FAAP em 1993, ano de publicação do seu primeiro livro, ocasião em que eu vi pela última vez o professor Wanderley.

Na Escola Planeta aconteciam encontros dos alunos com troca de informações destinadas às diversas turmas, e me lembro de um sábado quando eu tive o prazer de proferir uma palestra logo após a do Roberto de Carvalho, esposo da Rita Lee, um escorpionino de primeira linha.

No andar térreo da Escola Planeta existia o Espade - Escola Paulista de Arte e Decoração, onde ele organizou dois encontros de Astrologia de que tive a oportunidade de participar como palestrante. O primeiro foi no Ano Novo Astrológico de 1997 denominado “1º Encontro da Astrologia em São Paulo” (folder anexo) e o segundo em setembro de 1998 denominado “Astrologia do Amanhã”.

Ele dava muita atenção aos sonhos e me lembro de um curso que fiz com ele onde uma situação ficou marcada em minha memória: se você sonhar que está atravessando um rio, a nado, de barco ou por uma ponte, é sinal que sua vida terá uma mudança radical.

Outra paixão era a fotografia, sendo que possuía câmeras de alta definição com as quais desenvolvia um trabalho profissional de excelente qualidade e ao mesmo tempo dava vazão a sua veia artística, tendo inclusive recebido prêmios pelas suas fotos.

Possuía uma relação muito intensa com a informática. Utilizava sem restrições os programas de cálculo de mapas em computador e participava de listas de astrologia, algumas sob o pseudônimo de Jonas Bee, onde tinha discussões acaloradas com os outros participantes.

Na vida pessoal, Valdenir, este capricorniano de Sol e Lua com Ascendente Escorpião tinha um senso de humor apurado. Costumava criar neologismos ou interpretações etimológicas de determinadas palavras. A mais famosa era a do místico, que teria sido derivada de “me estico”, ou seja, quando nos tornamos místicos nossa mente se amplia.

Após as aulas, a turma tinha por hábito ir à Trattoria do Sargento na Rua Pamplona com a intenção de conversar sobre Astrologia e tomar cerveja. Era uma maneira de fixar o conhecimento adquirido e trocar outras informações. Valdenir aparecia de vez em quando e a conversa ficava mais animada.

Em 1998 Valdenir desfez-se de todos os seus pertences e mudou-se para a Bahia. Ele me deu um autorretrato do pintor M.C. Escher, aquele em que ele segura uma bola de cristal e sua imagem está refletida na bola. Guardo com carinho este presente, mas depois disto nosso contato diminuiu, restringindo-se a congressos de astrologia e outros eventos.

Na década seguinte ele organizou alguns congressos no Largo do Arouche em conjunto com o astrólogo Maurício Bernis. Me lembro de um deles onde o Ademar Eugênio de Melo, já com muita dificuldade para enxergar por causa do diabetes, porém com uma memória impressionante, deu sua palestra sem ver os slides, assessorado por sua esposa que os ia trocando.

No site Constelar temos a última palestra de Valdenir com o título “Lua, criança interior, autorização para ser feliz” do dia 6 de junho de 2009, no centro de convenções do Hotel Atlântico, em Copacabana, como parte da versão carioca do Circuito Nacional de Astrologia, organizado pela CNA - Central Nacional de Astrologia. Este vídeo foi recuperado por Alexey Dodsworth, que o compartilha agora com toda a comunidade astrológica brasileira. Aqui vai o link:http://www.constelar.com.br/constelar/139_janeiro10/valdenir-benedetti1.php

Em seu blog Astrologia Transpessoal, Valdenir se auto definia assim:

“ Estudante e apaixonado pela Astrologia há mais de três décadas. Descobrindo agora que o tamanho do que não sei ainda é imenso, e o tamanho do que nem sei que não sei é inimaginável. Procurando fazer com que a Astrologia não seja apenas um blá blá blá mental e descritivo. Acreditando que a prática da Astrologia é mais do que alimentar ilusões ou autoimagens. ”

Aliás, ele dizia que Transpessoal não quer dizer apenas Além da Pessoa. Para a Astrologia, essa prática quer dizer mesmo é Através da Pessoa. Para quem quiser consultar o material ali armazenado, o link é:

Não podemos deixar de mencionar o Blog da Astróloga Rose Villanova, que disponibilizou inúmeros textos de suas correspondências com o Valdenir neste endereço:

Eu, Ana Cristina Abbade e Valdenir
em um evento no Rio em 1998
Sua partida para outro plano colheu a todos de surpresa, pois todos sentiam que ainda não era o momento. Sentíamos também que tínhamos perdido um amigo, um irmão de fé, um batalhador entusiasmado e apaixonado pela nossa amada Astrologia!


Este é um depoimento pessoal de minhas vivências com meu professor Valdenir Benedetti. Caso algum colega queira manifestar-se, com certeza vai nos enriquecer com suas informações.

Para finalizar vou transcrever a dedicatória que ele fez em um de seus livros, que acho muito oportuna para o momento:

“Douglas, meu amigo, um privilégio ter tido você a meu lado durante esta jornada que é minha vida e de onde surgiu este livro. Obrigado. Sei que você vai curtir. 19/set/97”

É claro que curti, Valdenir!

Douglas Marnei

Janeiro de 2017



O legado de Valdenir Benedetti

Além das aulas, palestras e cursos Valdenir nos deixou vários livros e apostilas nos quais suas ideias continuam vivas e disponíveis para os leitores. Apresentamos a relação deles em ordem cronológica:




- Autor do texto “Astrologia e Sintonia” no livro “Astrologia Hoje – Técnicas e Estilos” editado por Massao Ohno Editor em 1985.





  



- Autor da apostila “Técnicas de Interpretação Sintética de um Mapa Astral” elaborada pela ASAS – Astrólogos Associados de Curitiba em 1990.








- Organizador do livro “Interpretação do Horóscopo: Técnicas e Estilos” editado por Editora Hipocampo em 1993.











- Autor do livro “Textos Planetários” de uma editora não citada em 1997.











- Autor do livro “Manual de Astrologia Essencial – Textos Planetários” editado por Editora Ground em 1999.











- Organizador do livro “Astrologia para um novo Ser” editado por Editora Roka em 2000.










- Autor do texto sobre o signo de Peixes no livro “Astrologia – Os Doze Portais Mágicos” editado por Editora Talento em 2001.










- Organizador e autor do texto “Os domínios e funções terrestres dos planetas no horoscopo” em “Segredos e Estilos – A Arte de Interpretação do Horóscopo” de 2008.