quarta-feira, 24 de agosto de 2016

OLÍMPIA E AS OLIMPÍADAS

As Olimpíadas são evento mundial e apresentam o melhor do ser humano. Visitemos a cidade em que tais jogos começaram, muito longe de nós no tempo e no espaço. E celebremos este feito humano! Por Zeus! 



OLÍMPIA E AS OLIMPÍADAS  

Eu estava no primeiro dia do voluntariado junto aos atletas chineses no clube de que sou sócia. Outro sócio espiava o treino na piscina. Antes de sair, puxou mais um dedo de prosa: Minhas filhas não quiseram vir. Não se interessaram por nada. Pena, ele completou. Concordei e me alegrei por ver que ele tinha a mesma sensação de entusiasmo com o que estávamos vivendo.

A conversa tinha sido formalmente finalizada, mas esse pequeno diálogo me levou longe. De lá, me vi em Olímpia, na Grécia antiga procurando vestígios daquilo que eu estava experimentando. Era algo ainda não identificado, não reconhecia seus limites.

Nesse local estava a origem das Olimpíadas. Possivelmente lá eu encontraria o sentido do ser olímpico e daquilo que move milhares de pessoas em torno do esporte.

A OLÍMPIA GREGA

Na verdade, Olímpia era um santuário e pertencia à cidade de Pisa. Geograficamente, ele se situava no bosque Áltis, perto do Monte Cronos, entre os rios Alfeu e Cladeu, na região do Peloponeso. Essa descrição não faz muito sentido no espaço físico, não é verdade? Nem para mim. Mas, fiquei nas palavras, nesses nomes que me lembram poesia. Esse lugar de nome tão feminino estava ligado indelevelmente aos jogos esportivos.

Nessa localidade na Grécia Antiga, há mais de 2700 anos já se realizavam os jogos a cada quatro anos que reuniam atletas em nome do deus Zeus, o rei de todos os deuses. Eles disputavam honra e fama. Há mais de um mito relacionado às origens dos jogos. Entre eles, a figura de Zeus estaria presente e era dele uma grande estátua feita de marfim e ouro pelo escultor Fídias em um dos templos de Olímpia.

Segundo a mitologia, seria o lugar em que Zeus teria derrotado seu pai Cronos. Olímpia seria então uma referência ao Olimpo e ao próprio Zeus, chamado Olímpico.

Atualmente, nesse sítio arqueológico há sinais indicativos de visitação de fieis e de oferendas. Algumas de suas descobertas são datados do século X a.C, época em que se acredita já ter havido a prática de esportes no local. Ao longo do tempo, esse santuário foi se constituindo de muitas edificações: templos, altar para sacrifícios, hipódromo e o estádio, entre outras. Os gregos relacionavam as competições esportivas às celebrações religiosas.

No ano de 776 a. C., Olímpia realizou a primeira edição dos Jogos Olímpicos, pela qual começou a ser mais conhecida. Durou um dia e a corrida era a modalidade esportiva. Era uma Grécia bem diferente do que conhecemos. Difícil imaginar, mas contamos com um período de mais de mil anos em que tais jogos aconteceram. O imperador romano Teodósio I, o Grande teria proibido cultos e práticas pagãos em 393 d.C.

Depois de um longo intervalo, Pierre de Coubertin retomou a ideia, desejando resgatar a experiência do ser olímpico.  Como educador ele poderia perceber a necessidade de trazer tais práticas para os jovens de sua época. Ele sabia que o jovem grego treinava nos ginásios e pistas em suas cidades, o que era uma prática na formação para a vida adulta. O esporte possibilitaria o desenvolvimento de força e competência pessoal. Ainda que elitistas, os gregos assim se diferenciavam dos bárbaros. Era uma civilização de cultura que se alimentava de virtudes e valores.

OS JOGOS DE OUTRORA E OS DE HOJE

O Barão Pierre de Coubertin idealizou um plano para a realização dos Jogos Olímpicos como na Antiguidade. Inspirado na descoberta das ruínas arqueológicas de Olímpia apresentou um projeto em congresso internacional em junho de 1894, na Sorbonne em Paris. Nesse congresso foi constituído o Comitê Olímpico Internacional (COI). Desde então, a cada quatro anos o mundo volta a atenção para os novos deuses que disputam medalhas e conquistas. Mas as Olimpíadas não são isentas das máculas da sociedade humana.

Será que mais recentemente, temos atingido o que os jogos gregos teriam conseguido e o que Coubertin sonhou? Vivemos uma época diferente em que o doping ocupa as manchetes dos jornais. Como é ser olímpico em tempos de terrorismo? Os jogos ao longo do século XX foram inseridos de politização e outras disputas. O que é ser olímpico na atualidade? O que era esse conceito na antiguidade? Não temos mais um Zeus a quem nos reportar.

Os jogos foram fruto de uma civilização que honrava seus deuses. Havia um mérito no esporte e na força física. O reencontro com o espírito olímpico pode ser almejado, mas, na verdade, aspectos da atualidade quase deturpam tal aspiração.

Mesmo assim, ouvimos histórias de vitórias, de superação, de imenso esforço a respeito de atletas que estão nesta olimpíada moderna. Rafaelas da Silva suportam estresse, dor e restrições tendo à frente um objetivo que as mobiliza. Conquistas que têm um valor pessoal e também coletivo. São todos exemplos de compromisso e responsabilidade, de resistência e disciplina. A perfeição lá na frente, no coração e na mente. Atletas são todos heróis.

Duramente o tempo do voluntariado junto à equipe dos chineses, observei e refleti, me alimentei disso tudo.

A partir desse voluntariado eu me reencontrei com o espírito olímpico mais essencial. Me senti um pouco olímpica, mais perto dos valores que inspiraram os habitantes de Olímpia e o Barão de Coubertin. Imagino todos os atletas possivelmente sob a égide implícita de Zeus que abençoava os primeiros atletas das cidades gregas e que talvez abençoe ainda os jogos modernos, que acabam se safando dos fantasmas que podem empanar o seu brilho.

A pira olímpica ainda hoje é acesa na cidade de Olímpia, na Grécia, aquela entre os rios Kladios e Alpheios, em um vale, no território de Pisatis, na região do Peloponeso.

Lindo, não é mesmo? Fiquemos um pouco por ali. Que desde o Olimpo Zeus abençoe todos os atletas.

ILUSTRAÇÕES: Ruínas arqueológicas de Olímpia, sede dos jogos na Antiguidade.  
PS 1: Site oficial do SÍTIO ARQUEOLÓGICO de Olímpia: http://whc.unesco.org/en/list/517
PS 2:  Muitas das informações para este texto foram coletadas no link a seguir. Leia mais.http://seguindopassoshistoria.blogspot.com.br/2012/08/olimpia-e-os-jogos-olimpicos.html    


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

CLUBE OLÍMPICO


O sócio que espiava o treino na piscina puxou mais um dedo de prosa antes de sair: “Minhas filhas não quiseram vir. Não se interessaram”. Pena, ele completou. Ops! Não só concordei como estava feliz e surpresa de ver que ele tinha uma sensação especial como a que eu estava tendo com todas as novidades desse voluntariado.

Relembrei as etapas desde o começo. Ao receber o convite para participar do programa, um alvoroço enorme. Aí então, a primeira fase com preenchimento de questionário. Quando chegou o aviso da entrevista, mais ansiedade.

Alívio quando veio o email de confirmação de participação e o calendário com as reuniões de treinamento.Sensação adolescente! Seriam quatro ou cinco encontros para informações a respeito do clube, das Olimpíadas, da cultura e costumes dos chineses e ainda outros dados necessários para a preparação dos voluntários. Que função teriam eles? Ser um ponto de contato entre os atletas e os sócios, entre outras funções das quais eu não tinha a menor ideia. Nem os colegas com quem eu tive contato. Éramos muitos, cerca de 180 no início.

E quais teriam sido as motivações que teriam levado tantas pessoas a se interessar por um programa de voluntariado no clube? Os jogos e esportes das Olímpiadas? A proximidade junto aos atletas? Mera curiosidade? O kit do uniforme e mochila, lindo?

Com certeza, motivações particulares e diferentes. Mas, havia a solidariedade e disponibilidade comum a todos, certamente.
E para iniciar o trabalho logo se organizou um grupo no whatsapp que fez o papel de contato rápido entre os participantes. As situações eram novas para todos, inclusive para a equipe de organização. Nem eles talvez pudessem ter previsto situações que foram se apresentando e definindo ao longo dos dias.

Dentre todas as situações novas, aprendi particularidades a cada uma das modalidades esportivas. Eram cerca de catorze. Entre atletas, técnicos, equipes médica e outras, eram cerca de 350 chineses. Aprendi também as nossas funções, tais como limpar os tapetes no salão do badmington, água no CIAA ou gelo na natação. Com quem estão as chaves da sala de esgrima?  Onde está guardada a TV do nado sincronizado?  Os pro-pés estão acabando. Convenhamos que tais funções são bem simples. Mas tinham que ser resolvidas na hora. Sem titubeio. Nunca os edifícios do clube foram visitados tanto em tão pouco tempo. Pernas pra que te quero!

Além desse vai-e-vem entre inúmeras pequenas ações de cunho operacional, ocorreram outras tantas coisas divertidas e carinhosas. Nos plantões de que participei, pude contar com o apoio dos funcionários. Desde os que permaneciam nas recepções e portarias até os responsáveis pela eletricidade, pela limpeza e pela zeladoria. Me pareceu que a aproximação era fácil e o aperto de mão, forte. Cheguei a ganhar uma maçã de um dos seguranças, um mimo a mais. Sinal de uma simpatia com os voluntários?

Houve também a oportunidade de identificar afinidades e desenvolver contatos novos. Amigáveis encontros no QG estabelecido embaixo de uma grande árvore a que eu nunca prestara atenção.

A equipe organizadora para estabelecer os critérios de funcionamento do enorme grupo de voluntários, se muniu de flexibilidade necessária à ordem, eficiência e às surpresas da equipe chinesa. Ou seja, mais rigidez nas regras de proibição das fotos e filmagens? Menos? Isso era sério, pois os chineses queriam total privacidade. Mais conversa com os sócios mais inconformados com mudanças no horário de treinos? Quantos sócios por vez poderiam presenciar em treinos? Da ginástica artística? Mudanças de horário e cancelamento de última hora pelos chineses. Nossa! E agora? Pouco a pouco as questões foram se assentando e tudo se ajeitava. No geral, os voluntários se saíram bem no trabalho que foi intenso e visível a todos. Problemas no grupo? Como impedir em grupo tão grande? Paciência e pra frente, p orque não havia tempo sobrando. Lá vem a equipe do pentatlo para o CIAA!

Mas, a parte mais importante não foram esses aspectos mais explícitos. Um certo clima pairou no ar balizando nossas ações. Havia a percepção de exigência e rigor dos técnicos. O compromisso dos atletas, uma referência clara à vontade imensa que dirige o atleta a seu desejo: a competição, a superação de seus limites humanos. O atleta de alta performance chega próximo à representação do herói.

O treino para a atingir a perfeição do gesto, do movimento do corpo. A busca incansável do detalhe. Isso tudo é o que de melhor temos na natureza humana. Tudo ali bem pertinho de nós! Privilégio.

Ser olímpico é essa busca dentro da disciplina e até da dor. É ter um objetivo maior. É quando o ser humano se transforma em ser olímpico, mesmo em tempos de doping, de questões políticas e de terrorismo.
Acredito que foi esse clima um dos aspectos que mais me motivou, junto da alegria e oportunidade de ser voluntária. Fui incorporando, me alimentei dele.

Prefiro imaginar que todos no clube estavam sentindo algo diferente por causa desses atletas olímpicos e desses treinamentos tão próximos de todos.

Por um espaço de tempo, meu clube, o clube de todos os sócios, voluntários e funcionários foi olímpico! Comemoremos!

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ, O FILME


O filme até tem sido bem aceito pela crítica, apesar do tom romântico. Ele contém um castelo, um príncipe e uma mulher que vira princesa. Mas não temos o happy end tradicional. Ele vai além de qualquer simplificação adolescente. Tais dados talvez o safem da crítica azeda da crítica especializada.

MAIS DO QUE UM FILME ROMÂNTICO

O roteiro foi escrito por Jojo Moyes, autora do livro que lhe serve de base e a direção é o primeiro trabalho no cinema de Thea Sharrock com larga experiência de teatro. Louisa Clark (Emilia Clarke) é uma mulher alegre em busca de um emprego para ajudar a família. Will (Sam Claflin) é um homem rico que está em uma cadeira de rodas por causa de um atropelamento, com comprometimento de movimentos em todo o corpo.  Sem a vida anterior, cabe-lhe uma rotina de dores e de exercícios sem promessa de melhoras. Qual é a função de Clark ao lado dele? Animá-lo como cuidadora. Mas, ela faz mais do que isso segundo ele mesmo confessa.

No início ele é mal humorado e ranzinza, pois perdeu a vida cheia de possibilidades e sucesso. Daí que não deseja mais viver e faz um contrato com a empresa suíça Dignitas (Viver e morrer com dignidade) e dá aos pais seis meses de convivência. Enquanto aguarda que sua decisão seja cumprida, Emilia entra em sua vida com suas roupas exóticas e sua tagalerice. Não é fácil, mas o gelo é quebrado e eles começam a interagir.

Algumas situações facilitam a aproximação. Ela confronta seu mau gênio e se emociona com um filme de conteúdo, mostrando-se de sensibilidade. Consegue que ele faça a barba e corte o cabelo. Pouco? Não, não é pouco para alguém que confessa que apenas existe, toma remédios aos montes para as dores e crises que acompanham seu quadro delicado.

Seis meses, portanto, é o tempo de trabalho para Louisa Clark. Uma espécie de gata borralheira que ajuda o protagonista a superar seu mau humor. De ambos os lados, temos histórias de transformação e o desenvolvimento de um vínculo de amor.

Só que não há um final feliz. E essa história é interrompida pelas circunstâncias do protagonista. O debate cai no colo do expectador junto à perplexidade e indignação de Clark. O que acontecerá com a dupla amorosa? Perante a decisão de uma morte assistida, o que sentimos? Em que momento a vida se torna insuportável?  

A questão é tratada pela diretora com delicadeza. Sutilmente somos colocados a par dessa determinação e surpreendidos, cumprindo os mesmos passos de inconformidade junto a Clark. E o que acontece, então?

REALIDADE E FANTASIA

Essa situação serve de base para que possamos nos deparar com paradoxos entre diferenças e semelhanças, entre fantasia e realidade.

O título (Me before you) enfatiza uma situação anterior. Mas, a quem se refere a frase-título? A ele ou a ela? Ambos mudaram suas vidas a partir do encontro. Esse título nos avisa de antemão que a situação de transformação mútua pode ser a pedra de toque para a compreensão do conjunto do filme, mais do que tudo. Clark traz o imponderável a Will e ele propicia a ela um refinamento que sua condição social e econômica não lhe permitia. A sintonia se estabelece entre eles apesar das diferenças.

Sob esse ponto de vista, observamos que a história de amor ultrapassa os limites de situações comuns. Frustrada a possibilidade de futuro, o que sobra?

Ela, desesperada por não conseguir impedir a realização do projeto de Sam, consegue ouvir seu pai: “Não se pode mudar as pessoas. Podemos apenas amá-las.” Então, ela decide acompanhar o amado na jornada final.

Por sua vez, apesar da decisão terrível, ele continua a se preocupar com a vida de Emilia, sobrevivendo na leitura de uma carta, estabelecendo planos para ela. De certa forma, ele abre uma janela de futuro em que também participa.

O sentido de amor ultrapassa limites espaciais ou físicos, atingindo níveis de parceria e de esperança. Temos a ampliação do significado do amor, que surge na excelência de generosidade e desprendimento.

A mistura acertada dos ingredientes de realidade e de fantasia é o diferencial deste filme inglês. Saímos do cinema com a sensação de que não fomos traídos. E que a história não para nos clichês de um protagonista que deixa de ser mal humorado e da moça desajeitada vira princesa. Mas, o castelo fica presente o tempo todo, em uma recorrência que acaba tendo efeitos.  

São cerca de nove as vezes em que nos deparamos com a imagem do castelo. Na apresentação do filme, na placa do ônibus, na neve, com chuva, refletido em vidros de janelas. E é ainda nesse castelo que os dois chegam às alturas das torres mais altas, com um vento avisando de imensas extensões e infindas possibilidades.

A memória de infância do protagonista nesse seu espaço preferido traz brincadeiras com espada imaginária quando ele incorporava possivelmente o papel de guerreiro a matar dragões. Ele partilha com ela as dimensões de seus sonhos passados. Com ela, ele revive a viagem a Paris com tudo que isso significa de beleza e alegria. Ele já sabia nesse momento que ela precisava abrir na vida maiores limites dos que aqueles que ela vinha experimentando.

Esse castelo é fio condutor desse filme, insistência feliz. Coloquei-me em meio às realidades precária e dura dos protagonistas e me deixei levar pelo cenário medieval, um universo de histórias e fantasia, com todos os sonhos a serem desenvolvidos junto a outros malogrados.

E essa troca de sonhos ocorre entre eles com grandeza humana, generosidade, desprendimento e cumplicidade. Partilharam sonhos e tristezas, viveram amor.

Não foi acaso a escolha do castelo sempre presente. Intencional, a diretora nos conduz às nossas histórias de castelos, com príncipes, espadas e gatas borralheiras que se transformam em princesas. Quem não as tem? Histórias que sobraram da infância (ou não?) em meio às realidade da vida de cada um de nós.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

EU, ASTRÓLOGA

O que era apenas uma curiosidade, foi se desenhando como algo mais sério, até incorporar uma intenção mais profunda. Estudar astrologia tomou um alcance maior. Seria o início da resolução dos problemas do mundo. Ops. Como? Isso mesmo, dos problemas do mundo.

Enquanto avançava nas leituras, fui percebendo que não me gratificaria em ajudar pessoas. Eu poderia mais com a astrologia que se mostrava como um instrumento cada vez mais rico. Instrumento adivinhatório de sabedoria antiga, seria na minha mão uma espécie de espada a favor da justiça e da verdade. Eram esses os meus sonhos de então, algumas décadas atrás. Você vai concordar que eram altos, não é mesmo? Eram altos (e vagos) os desígnios de minha alma.

Pois, do bem alto também foi a queda. Não demorou muito e a realidade se impôs.

Eu nem sei bem de onde tais intenções vieram. Talvez estimulada pelos costumes populares de visitação a videntes, cartomantes, ledoras de mão e de borra de café, com a intenção de saber o que vai acontecer? Ou ainda não seria ótimo se eu mesma pudesse com a ajudazinha da ciência dos astros fazer isso e mais, muito mais? Era ingenuidade. Uma inocência sem culpa.

E à medida que eu estudava, ia descobrindo que realmente podia conhecer muito da alma humana. Só que a vida é mais. Ampla e inexplicável. Imensurável mar de possibilidades abertas e inesperadamente surpreendentes. E, com certeza, incontrolável.

E pouco a pouco, fui me decepcionando. Lentamente tendo de me deparar com as minhas limitações. Até que vivi frustração, de verdade, com depressão e tudo o que temos de direito em crises: colo de amigos, remedinhos, leite quente, cafuné de filhos.

Era inevitável o confronto com a verdade, que surgiu devagarinho, mas inevitável, flagrante. O meu trabalho não poderia ter tanto alcance. Em minhas mãos a astrologia não iria resolver os problemas do mundo. Minhas aspirações filosóficas e sociais estavam longe de aplacar qualquer dos problemas que eu conhecia bem. Nem de leve, eu poderia prover o mundo da verdade que todos e eu mesma desejava.

Tive que rever minha expectativa. O que iria falar para as pessoas? Que eu não podia tanto quanto imaginava ? Que não lhes daria a panaceia para todos os males? Que havia uma ferida em minha onipotência ? Que um dos meus pecados era arrogância?

Sangrava e doía. Qual seria o alicerce do meu trabalho, agora?  Mudando tão fundamentalmente os assentamentos da minha fé sobrava alguma esperança para passar para o meu cliente ?Foram tempos duros. A estrada era de pedra e eu estava descalça.

A percepção global da queda deu-se lentamente. E também lentamente a reorganização. A solidão era imensa, porque tinha relação com a forma de minha compreensão da vida. A astrologia é o que é desde sempre. Eu queria que ela indicasse soluções para tudo, sobre o desenvolvimento do mundo com resolução para as injustiças, diminuindo o sofrimento individual de cada um e de todos, e também os desequilíbrios de toda ordem. Eu lhe impingia uma função que talvez não lhe caiba. Minha expectativa sobre ela estava em jogo a partir das expectativas excessivas que eu lhe destinava.

Mudar padrões de pensamento, avaliar a necessidade de controle, readquirir a crença em possibilidades mais reais, tudo isso foi dolorido. Até que nesse caminho, eu pude encontrar harmonia.

Mas essa dor volta a incomodar novamente nas entrevistas em que deflagro aquela mesma expectativa nos olhos atentos do meu cliente. Ele também precisa de uma certeza de que seus problemas serão resolvidos. Seus olhos me perguntam acreditando de antemão na resposta que eu lhe darei. Esperam e, assim, me passam o cetro de uma onipotência da qual não me julgo possuidora.Essa situação revivida a cada entrevista me faz lembrar da humildade necessária e da convicção amorosa de que a ajuda vem de outro recurso, por outros meios.

Pergunto-me a cada leitura de mapa natal: Como eu posso ajudar você a entender o discurso dos símbolos que comigo conversam? Neste momento como posso acordar dentro de você o símbolo para que ele faça sentido em sua vida?

Eu continuo a cada dia na descoberta dos recursos da astrologia para tentar melhorar meu diálogo com o cliente. Cada dia procuro revelar o pensamento astrológico nas situações do cotidiano. E assim nessa utilização da linguagem procuro reconstituir sempre e renovada com a esperança a melhoria de um pedaço pequeno perto de mim. A cada leitura de mapa renovo a linguagem astrológica e o pensamento mágico e maravilhoso da astrologia a respeito da existência humana.

Assim, posso sentir que não perdi parte dos meus primeiros sonhos com a astrologia. E penso mesmo que, talvez eles nunca deixaram de ocupar os vãos ocultos da minha alma. Entranhados lá permaneceram para minha descoberta cotidiana, a cada momento em que me deparo com o paradoxo e com os entraves das experiências pessoais. Só que passaram por uma peneira de bom senso para que a grandeza da astrologia possa aparecer com toda a sutileza de que ela é composta.

À frente do cliente, me ponho sempre de novo e de novo a desvendar a dificuldade e a beleza da vida, passo a passo, - privilégio - me enfronhando nas dobras dos símbolos e dos mistérios da astrologia. 

quarta-feira, 13 de julho de 2016

ROSAS À LUZ DA LUA

Cliquei muitas vezes. Como ficaram essas fotos? Aconteceu um efeito diferente. Em geral, prefiro mais contraste entre luz e claridade. Mas, nessas fotos de rosas há sombras, muitas sombras. Tudo meio escuro.

Gosto desse sombreado. Olho, olho, não canso. Esse exercício de vaidade explícita não me deixa culpada. 

Em um pequeno vaso, elas não são muitas. Talvez umas cinco ou seis em tom de laranja, um quase rosa, alaranjado. Uma cor indefinível e o resto, à volta delas na penumbra, com um pedaço de espaldar de uma cadeira ao fundo. O vaso sobre uma mesa de que não se vê muito.



Mas havia sim, uma luz sobre elas, delicada, noturna. É a primeira foto que me sugere a noite. Todo o resto só pode ser adivinhado. E eu me deixo ir dentro nesse movimento, quase como se fosse dentro de um enigma. E como se eu não soubesse onde foi feita a foto.

A luz cai docemente sobre o vaso na mesa, com tampo de vidro, por uma janela grande - daquelas antigas de muitos quadrados com vidros trabalhados em bisotê. Sem pedir, ela invade tudo, passando pela janela, cobrindo a mesa, e se dispersando pelas cadeiras. Cai no tapete escuro com tons de vermelho. Causa reflexos na cristaleira, entre os copos, jarras e outros objetos.

No aparador colado à parede perto da mesa há um pequeno vaso e prato em estilo chinês e um retrato de mulher. Um sorriso, um colar de pérolas junto ao pescoço e um cabelo em ondas. Ou é uma blusa com gola arredondada e broche de pequenos brilhantes? Minha imaginação titubeia. Foi ela que arranjou as flores no vaso?

As flores da foto são homenagem ou comemoração. Um cartão aberto na ponta da mesa, ao lado dos papéis meio amassados junto a uma fita de seda. Talvez amor, aniversário, uma situação particular.

Caminho até a janela para olhar de novo. O poste, distante. O corredor, comprido. Alguém se aproxima pela calçada, de andar manso. Sem pressa, se afasta. E mais não posso ver de onde estou, apesar da claridade e transparência do vidro, não tenho visão suficiente para ir mais longe. Meu coração chegou a bater forte. Olho para as flores no meio do escuro e em cima da mesa, aliviada.


Procuro a parede da sala ao fundo. Os pés da mesa? Onde estão as cadeiras? Têm o espaldar alto? E ao olhar assim para dentro desse escuro, dentro da fotografia diviso o que não se vê e só pode ser imaginado.

Então, completamente solta, a imaginação faz seu giro, adivinhando o cenário de uma composição não preparada. Descrevendo, invento o que segue num exercício de liberdade.

E essa luz se mistura a outra que vem de um poste na calçada que se vê pela janela por cima do muro que ladeia a casa. Há ainda um pequeno corredor longo, na lateral. É uma casa de cidade de interior ou de um bairro antigo de São Paulo dos anos cinquenta?

E antes que os pensamentos me levem de volta à minha realidade como se a luz se acendesse na sala, eu percorro os espaços de novo longamente, sem esquecer os panos da cortina da janela grande do fundo, ou os sapatos largados perto de um sofá em que um lenço colorido se esparrama.

Sustento ainda a fantasia. E olho de novo as rosas.

Elas me parecem ainda mais lindas 

quinta-feira, 30 de junho de 2016

CONSTRUINDO E DESCONSTRUINDO A LEI DA PERSPECTIVA


A palestra PERSPECTIVA, UMA VIAGEM FRANCISCANA (*) no Museu de Arte Moderna no Ibirapuera chamou-me a atenção pelo título. O que tem a ver a lei da perspectiva com os monges franciscanos? Essa viagem seria uma metáfora apenas? Sim, talvez um recurso de retórica, um título criativo. Mas, a partir da pesquisa competente do curador do MAM fiquei sabendo da gênese da lei da perspectiva. E embora saibamos que séculos depois ela foi descontruída, vale a viagem. Entre nela comigo.


A GÊNESE DA LEI DA PERSPECTIVA


Quem gosta de pintura pode ter uma noção do que significa a lei da perspectiva. Desde antes do Renascimento ela proporciona noção de profundidade e ilusão de verdade às pinturas.

Mas essa lei, antes de surgir como uma técnica para o desenho, foi estudo teórico longamente desenvolvido a partir da observação de cunho científico e de elementos de teologia. Felipe Chaimovich, o curador do MAM descreveu o longo caminho para que se chegasse a ela. As leis da perspectiva surgiram como decorrência de descobertas da ótica e da visão, passando pela geometria e por grupos de franciscanos em Oxford. Com o nome de perspectiva, transformou a pintura.

Tudo pode ter começado com os estudos de Euclides por volta de 300 a.C. Seus princípios de geometria e ótica se preocupavam com a visão. Ele estabelece que o elemento essencial é o raio visual, uma linha que se expande a partir de um ponto. Para ele, a luz se comporta como essa linha que se expande radialmente. Ele tem como preocupação a formação das imagens.

A presença de Al Kindi (séc IX) foi acrescentada às personagens dessa história. Ele muda o foco do estudo da visão por causa da interdição das imagens no mundo árabe. Tendo contato com os gregos, com Euclides, entende a ótica como estudo da geometria da luz, independentemente das imagens visuais.

A colonização da Península Ibérica pelo califato árabe trouxe rica troca de informações. Traduções em Toledo aproximam os estudiosos cristãos e islâmicos que têm muitos interesses comuns do ponto de vista dos experimentos e do caráter teológico.

Tais textos chegam a alguns centros de estudos de teologia na Europa como Oxford para onde haviam sido enviados frades por Francisco de Assis para estudos de teologia. Lá, de 1229 a 1235, eles tiveram aula com Robert Grosseteste, grande erudito.

Grosseteste estudava a luz, a visão, a ótica e a física. Escreveu livros e deixou seguidores. Ele se desenvolveu pelas ideias teológicas que incluíam concepções de um universo esférico, um entendimento geométrico da criação do mundo: um ponto, linha, esfera. Um universo tridimensional, embora estático porque sem tempo. E a esse estudo da natureza a partir da geometria da luz ele denomina perspectiva, palavra que não existia no latim antigo. Estes estudos estiveram sempre ligados à busca de compreensão de Deus, ou seja, a intenção teológica sempre esteve presente entre eles, cristãos e islâmicos.

Na década de 1250, Roger Bacon se converte franciscano para poder estudar em Oxford. Defende a necessidade de se criar uma ciência da perspectiva, um campo de estudos autônomos para o estudo do que é transitório nos fenômenos físicos e do que é eterno: as formas geométricas (argumento grego proveniente de Aristóteles).

O outro nome importante em Oxford é John Pecham (ou Peckham), que em seu manual de perspectiva largamente copiado, afirmava haver traços da geometria na natureza. Era a permanência da relação entre teologia e ciência.

Em 1390, um comentador de Pecham, Pelacani dá aulas na casa de Dante o que promove impacto no círculo de Florença. Lá encontra-se o ourives e arquiteto Bruneleschi que dá aulas para Masaccio, pintor. Este último, por sua vez, fazia uma pintura ilusionista, ainda rudimentar no desenho do espaço.

A questão da perspectiva era teórica. Como desenhar o espaço esférico no plano?  Bruneleschi não sabia desenhar o que ele descrevia de forma ilusionista. Em sua época havia a técnica da espinha de peixe usada desde os tempos dos gregos. É Masaccio quem realiza a primeira obra em perspectiva, duzentos anos depois de Grosseteste ter criado a teoria por volta de 1425 em Florença.

A partir daí a perspectiva se separa de sua origem ligada a princípios teológicos. Ganha o caráter laico e passa a ser usada em ilustração em livros de engenharia, botânica, geologia e outros.  

Em 1563, ainda em Florença, a partir da revolução da perspectiva, vai ser criada a Academia das Artes do Desenho. E daí, a noção de arte que temos até hoje.

Ou seja, a criação da perspectiva apresenta elementos insuspeitados como a geometria e a ótica, as preocupações dos frades e monges árabes na busca de uma relação entre a natureza e a presença de Deus e ideias a respeito da Criação.

Uma verdadeira viagem daqueles homens que andavam em investigações e movimentos íntimos para alcançar um sentido por onde sua curiosidade os conduzia.

ARREMATE POÉTICO

Poucos dias depois de assistir a essa palestra, visitei a exposição de Picasso e me dei conta de que no início do século XX a perspectiva tinha sido desconstruída.

A ilusão de representatividade da pintura acontecera como consequência dos estudos e experimentos dos cientistas da óptica e da luz. Muitos séculos depois, Picasso e Braque a colocam abaixo. Por que motivo?

O que ocorre quando Picasso e Braque resolvem que a obra de arte não necessita mais de critérios de veracidade ou de ilusionismo? Eles decidem que não interessa mais o objeto tal como ele é, mas a imagem mental que se faz dele. O que pode significar essa mudança?

Seria imprudente tentar uma resposta. Sou curiosa e amante da arte. De antemão, sei que a natureza desta reflexão é particular e subjetiva. É a minha viagem.

Sabemos que condições históricas e culturais em grande parte promovem os desenhos das expressões artísticas. A teologia que estava implícita no mundo da Idade Média e ainda no Humanismo era bastante presente já não existe mais no início do século vinte. A arte se descola das manifestações teológicas. A arte não existe mais para louvar Deus ou seus fundamentos para a busca por explicações da criação do mundo.

No início do século XX ou neste século XXI, o que nos cabe é muito diferente. A cada momento histórico, sua matéria. A complexidade do mundo atual favorece o empobrecimento da sensibilidade. Em meio a uma crise de valores imensa, delicadas dimensões da vida estão se perdendo. Perdemos a relação com a divindade.

E a lembrança de um mundo em que a presença de Deus era mais próxima acorda dentro de mim. Uma insatisfação imensa me invade.

Na urgência de uma resposta, confiando que ainda me sobre uma réstia de bom senso e um fio de racionalidade, neste momento, vivo a sensação de que na arte, somente nela, podemos experimentar o divino em nós. Ela pode salvar nossa consciência da absurdidade da vida. Ela pode preencher o desencantamento, o esvaziamento de sentidos. Ela pode nos indicar um caminho para outras narrativas.

Mesmo que na arte de nossos dias não encontremos algo que corresponda a nossas necessidades de representação, ela tem se mantido como possibilidade aberta e como potência de expressão.

Por essa potência, ela pode ser em si mesma aquilo que traz para mais perto de nós o traço divino da natureza. Que seja.

Uma nostalgia medieval chegou a mim. Invasão. Lembrei-me daqueles retratos bizantinos com os olhos mansos e parados.

Proximidade franciscana. Que fique.

PS: Felipe Chaimovich tem uma paixão por Francisco de Assis que gerou frutos mais do interessantes revelando relações entre arte e ecologia. Daí, aconteceram uma exposição coletiva “Natureza Franciscana” , um belo ensaio “Arte e ecologia” publicado na revista do MAM no.5 abril/maio/junho-2016 e a palestra que me ofereceu repertório para desenvolver as ideias deste texto. Visite o site do MAM: http://mam.org.br/

IMAGENS: São Francisco de Assis, por Militão dos Santos, pintor naïf brasileiro; Les Demoiselles d´Avignon, Picasso; Imagem de catedral para estudo de perspectiva.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

CRENÇAS POLÍTICAS E RELIGIOSAS, PERIGO!

Alan Oken nos conta um pouco de sua interpretação sobre o quadrado Saturno/Netuno que teremos até meados de outubro. Ele nos lembra dos perigos de crenças políticas e religiosas neste momento. Sempre atual e lúcido em seus comentários!

"O quadrado Saturno/Netuno em Sagitário/Pisces amplifica os conflitos que cercam os sistemas de crenças ideológicas e religiosas /.../. A junção dessas combinações entre planetas/signos é como tentar colocar uma forma em torno de uma ameba na esperança de que tal confinamento irá assumir algum grau de permanência. Há, assim, as tentativas de criação de estruturas sociais baseadas em crenças e a incapacidade de tais estruturas para permanecer no lugar. Esta é uma combinação muito "escorregadia"!!! Saturno é um planeta mental enquanto Netuno é, essencialmente, aquele que em seu mais alto grau estimula a compaixão e universalidade. Assim, quando estes dois territórios estão trabalhando em harmonia, há a possibilidade de uma ordem social que é administrada com amor e inclusão. Mas quando Neptune manifesta em um plano menos elevado de expressão, ele aciona os campos astrais inferiores de vida, atraindo o glamour e ilusão do martírio e exclusividade religiosa que aparece como verdade universal. Assim, o cenário é disposto como se a nossa religião fosse o único caminho para o paraíso e, portanto, a única verdade aceitável e digna de vida. Nesta posição de Netuno em Peixes e Saturno em Sagitário, a autoridade é atribuída a doutrinas religiosas e políticas limitadas e limitantes." 

Visite o site http://www.alanoken.com/

(A imagem do mapa é de Maria Eunice Sousa, astróloga: http://mariaeunicesousa.com/)