quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A CIDADE E EU

Ana Maria M. González

Como você vive a cidade em que mora? Pergunta estranha? À primeira vista sim, mas nem tanto se percebermos que ela pode nos fazer entender o paraíso ou o inferno do nosso dia-a-dia. Algumas mudanças são possíveis em nossos hábitos urbanos? Vivemos em um labirinto ou um espaço coletivo? Como acabo colecionando histórias da cidade? Estes são nossos assuntos de hoje. Leia e comente.

MUDANÇAS

Cansada de carro e de trânsito congestionado, há cerca de três anos eu comecei a andar de ônibus. Vários motivos foram se acumulando e aos poucos passei a observar o transporte público com mais simpatia. Menos tempo em imensos congestionamentos naquelas vias em que isso se repete ad eternum, mais movimento para minhas pernas que sinto mais fortes, menos gastos abusivos em estacionamentos, uma colaboração para a diminuição de monóxido de carbono no ar coletivo.

Como se tudo isso não bastasse, descobri outra cidade e outra população. Fiquei mais próxima de muitas histórias que se contaram perante meus olhos. E conheci um blog de gente que defende uma forma de pensar mais contemporânea. Por exemplo, como quebrar paradigmas comportamentais e preconceitos a fim de gerar uma cidade mais humana? Simpático, não é mesmo? E há números a corroborar essa questão. Vamos a eles.

PRO COLETIVO

Dados estatísticos mostram números assustadores por prejuízos no tempo perdido nos deslocamentos, por efeitos da poluição na saúde pública e por mortes no trânsito. A substituição por outras formas de mobilidade como o transporte público, o pedestrianismo e o ciclismo, podem mudar esses números, evitando desastres e tornando a cidade mais gentil e possivelmente, mais humana. 

Anna Paula Serodio, uma das fundadoras do blog PRO COLETIVO (https://www.procoletivo.com.br/blog) explica: “Pretendemos desenvolver uma nova visão de valores e hábitos, pois a cultura atual ainda é fortemente apoiada no carro individual” Ela continua: “Queremos facilitar a conexão das pessoas com a cidade de São Paulo e com sua coletividade para que elas vivam a “cidadania ativa”: as sociedades com cidadãos ativos funcionam melhor do que as que estão voltadas para o individual por promoverem a solidariedade, a empatia e a preocupação com o próximo e com o ambiente”.

Bonitas palavras, tudo isso parece tão sensato e fácil. Mas não é. Mudar hábitos e cultura demandam tempo, pois, o desenvolvimento de tais mudanças só poderá acontecer junto a uma nova consciência a respeito desses assuntos. A noção do que o coletivo é boa alternativa ainda não está tão clara para nossa sociedade. Daí a necessidade do trabalho do PRO COLETIVO e de pessoas que possam colaborar na disseminação dessa cultura em uma ação conjunta pelo bem de todos.

Há uma frase que sintetiza o que há por ser feito: “País rico não é aquele em que pobre anda de carro, é aquele em que o rico anda de transporte público”. Quando poderemos dizer que temos essa riqueza social mais perto de nós?

Argumentos contra esse hábito a favor do transporte público são, entre outros, a questionável segurança pública e o mal estado das calçadas. Mas, sempre teremos argumentos contra.  Como otimizar os argumentos a favor dessa cidade mais humanitária?

MEUS CAMINHOS PELA CIDADE

Na história de como surgiram as cidades, Lima de Freitas, artista e pensador português (1927-1998) nos diz que “Invertendo sua primitiva função de dispositivo de proteção, que concentrava e fazia convergir os esforços do clã, garantindo a vida comunitária, a cidade ressuscita a figura tenebrosa do Minotauro, devorador de homens.”

Sem dúvida, concordamos com ele. A urbe ganhou complexidade descomunal que não tem piedade de nós. Somos todos cúmplices dessa sensação de sermos devorados. Minotauros nos espreitam a cada esquina.

Mas, também há hoje em dia novas ideias a respeito dessa construção urbana, que acabou ao longo do tempo gerando tantos efeitos perversos para a população. Há propostas de novas posturas diante desses labirintos, que se não podem ser extirpados nem substituídos, podem, quem sabe, passar por uma releitura. Como transformar nossa experiência desse labirinto em que nos movimentamos? Novos pensadores arejam outras perspectivas acerca da vida urbana.

Uma cidade é espaço público, diz o pesquisador Jordi Borja, geógrafo e urbanista espanhol. “O espaço público é também, e antes de tudo, espaço de uso coletivo, livre, heterogêneo, multifuncional, de convivência, integrador, carregado de sentido, de memórias, de identidade. Proporciona bens e serviços aos cidadãos e permite promover a redistribuição social mediante formas de salário indireto. No espaço público os cidadãos se reconhecem mutuamente como tal, sujeitos a direitos, livres e iguais. Neste espaço afirma-se, por sua vez, a individualidade de cada um e a existência de uma comunidade de pessoas que mantém os laços solidários e valores contraditórios. O espaço público é o âmbito de expressão política, a favor ou contra os podere s existentes”.

Ou seja, uma nova concepção urbana é possível. Não mais o labirinto. Resisto a ser devorada por formas de medo sutis e outras nem tanto.

Surge pouco a pouco uma nova perspectiva de espaço público a ser partilhado e ocupado por postura política e social em que podemos ser capazes de novas funções. Há um discurso que aposta nessa recomposição da urbe, que pode ser lida como espaço a ser partilhado na diversidade e multiplicidade. Riqueza a ser cuidada.

De forma não muito clara, eu também acreditei nisso quando comecei a deixar o carro pelo ônibus. E essa atitude foi apenas o começo de algo surpreendente. Descobri desde então outros caminhos e uma nova convivência com gente com que dificilmente eu entraria em contato. Agradeço essa oportunidade que me foi dada pelas circunstâncias de estar em outros veículos de transporte. Me vejo diante de situações inusitadas, engraçadas, tensas. Me sinto parte de uma coletividade, compondo uma identidade grupal. Me alimento de significados imprevistos em meio a um convívio que integra, amplia, apaixona. Talvez isso seja uma espécie particular de cidadania.

Mas, minha imaginação se liberta nessa paixão pela cidade, que por não ser mais só labirinto, ganha outras expressões. Observo e mantenho comigo fios de muitas ariadnes que me habitam em convivência possível com minotauros e teseus a se defrontar também dentro de mim. E mais do que isso, também pressinto que seria bom criarmos novas personagens que representem essa nova cidade. Como se definirão elas? Onde estão?

Enquanto isso, nessas andanças por coletivos, perco-me nesta cidade tão minha com distração e reflexões, momentos de poesia, às vezes dúvidas, muita paixão e amor.

Mas, além de me perder, por efeito generoso da mesma urbe labiríntica, sinto que ela é também mandala a me emprestar terreno e consciência, a me dar direções e imagens de mim. Nela, sou mais do que eu mesma, em ritual de pertencimento sou manifestação espacial de um imenso coletivo. 



terça-feira, 29 de agosto de 2017

QUAL É O FILME DE SUA VIDA?

Ana Maria M. González

O título O FILME DA MINHA VIDA é inteligente. Onde entra o cinema na narrativa deste filme? No início de forma sutil, lá pelo meio do filme de forma mais direta. Sem percebermos ele está presente o tempo todo, enviesado. O título é muito mais do que um truque da criatividade do diretor Selton Mello. Leia o texto e assista ao filme.

O FILME

Selton Mello tem presença na TV e cinema brasileiros como ator, dublador e menos frequentemente como diretor. Larga lista de prêmios. Quem poderá esquecer de O PALHAÇO? A mesma sensibilidade que ele desenvolveu nesse filme, acontece neste que nos interessa hoje.

Baseado no romance chileno Um Pai de Cinema de Antonio Skármeta, nos traz a história de Tony (Johnny Massaro) que viaja para a capital para se formar professor de francês. Quando retorna a Remanso, pequeno povoado na Serra Gaúcha, descobre que Nicolas (Vincent Cassel), seu pai, estava indo embora no mesmo vagão para a França seu país de origem, sem muitas explicações.

Ele não entende nem aceita a opção do pai. Acompanhamos nostalgia em seus olhos tristes e lembranças infantis dos tempos que vivera junto a essa figura tão forte em sua vida.

Onde anda meu pai? Por que motivo ele foi embora? Sua mãe também sofre essa ausência. São duas pessoas em estado de saudade. O que fazer nessa hora? Paco (Selton Mello) parece querer ocupar o papel aberto pela ausência do pai junto de Tony a quem aconselha e junto a bela mulher que é sua mãe.

No desenrolar da narrativa, assistimos às experiências de Tony passando pela atração do sexo, pela vida emocional de alguém recém-saído da adolescência. Ser jovem é viver incertezas que promovem insegurança e escolhas que são delongadas ao máximo. Essa é a toada do cotidiano de Tony. O tempo é que vai dizendo as respostas e soluções. Mas em meio a esse quase marasmo, ser jovem é também descobrir emoções de beleza e arte.

O TREM E O CINEMA

Como todo filme especial, temos detalhes. Muitas vezes as sutilezas do cinema podem ficar escondidas na trama que nos atrai. Observar a transformação de Tony, o sofrimento de sua mãe e a presença dos alunos da escola, tudo é envolvente e está dentro do que se espera das boas histórias. Mas, há mais.

Uma dessas sutilezas, por exemplo, é a cor amarelada da fotografia competente de Walter Carvalho. Essa escolha nos envolve com calor, com sugestões de brilhos solares. Tempo de amadurecimento. Traz também uma sensação de coisas amarelecidas e guardadas em grandes gavetas. Tempo passado? Tempo de amadurecimento e calor? Os dois?

E a trilha sonora faz parte desses aspectos que compõem estratégias do bom cinema. Quando a primeira música acontece, ela chega grande e quente na voz de Charles Aznavour (J'avais Vingt Ans). Outras, como Coração de Papel de Sérgio Reis e The House of The Rising Sun (The Animals), compõem o quadro de época. Com extrema elegância, I Put a Spell on You na voz de Nina Simone emociona, assim como a Habanera da ópera Carmen de Bizet. São toques de beleza não acidentais em um filme de muitos silêncios e em que os diálogos são meticulosamente colocados.

São os olhares e o trabalho de câmera fechado nos rostos, os sons e as cores responsáveis em grande parte pela construção do cenário e da história.

E há o trem. Logo na primeira cena do filme surge o apito e o barulho das máquinas. Vemos os trilhos que se alongam paralelamente à estrada de terra que segue para um mesmo destino à frente. Ele atravessa a história estabelecendo ligações importantes entre duas cidades e dois tipos de vida.

A viagem de trem que surge como elemento de conexão entre a pequena cidade e a outra que tem comércio, cinema e bordel. Na pequena distância entre elas, permanece um intervalo de espaço a ser percorrido se houver o desejo de algo diferente. São tempos e ritmos diferentes. Essa separação geográfica parece permitir que Remanso fique como está sempre, um lugar em que um relógio pode ficar um mês parado e em que ponteiros de outros relógios parecem estar sempre no número doze. O tempo existe? Talvez não e talvez seja essa a pesquisa que Luna faz com suas fotos. Uma marcação essencialmente emocional de momentos particulares.

O trem leva as pessoas para resolver suas questões como diz o maquinista (Rolando Boldrin) que reconhece que seu trabalho é belo. É esse sábio homem que leva Tony para assistir ao filme de sua vida, a partir do qual pode reencontrar seu pai.

As primeiras palavras do filme dizem que o início e o final do filme são o que interessa. Mas depois Tony entende que o meio também pode ser importante. Seria esse meio o caminho do jovem que se se percebe homem capaz de se dar o direito de andar na motocicleta do pai? Aos poucos percebemos mudanças em seus olhos jovens. O meio de história seria a aprendizagem de seu ritual de crescimento?

E o cinema carrega na tela os heróis e as cenas de luta que parecem garantir um encantamento para Tony. Outra herança de seu pai. No cinema está a experiência mágica do Rio Vermelho, um faroeste de aventura, desafios e sedução. Os olhos de Tony brilham magnetizados. Seus pés flutuam acima do cotidiano. Trata-se do filme da vida dele.

E, agora cabe a pergunta: Qual é o filme da sua vida? Pode haver muitos, mas a questão é escolher um, talvez mais. Eu adivinho que a lista pode se alongar. Mas tente forte encontrar um que lhe fale fundo na alma. Aquele que você assistiria inúmeras vezes até no mesmo dia.  Aquele que de forma encantatória o levaria a flutuar do chão, porque a história traz um sinal de afinidade essencial, diálogos ou aquela paisagem que estimula a imaginação. Aquele que traz qualquer coisa boa ainda que pouco identificável.

Do que estou falando? De cinema. De imagens que me ligam a um tempo imemorável dentro de mim. Da existência quase reais de narrativas acontecendo, como se houvesse algo no ar e também na forma da cadeira no escuro do cinema, no som que sai de todos os lados dessa sala fechada. Nesses momentos, estou fora e longe de tudo. Abduzida e arremessada a um espaço atemporal mas cheio de imagens. No cinema, recebo imagens e histórias que liberam minha imaginação. Flutuo como Tony quando a história fala comigo.

O que é essa magia de imagens se desenrolando à nossa frente e falando conosco? Você saberia me dizer?

Selton Mello homenageia essa magia. Há também um grande amor ao cinema nesse filme.  Enfim, o título mostra a que veio. Qual é mesmo o filme de sua vida?

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O ECLIPSE SOLAR E USAIN BOLT

Ana Maria M. González

Ninguém duvida de que ele é um campeão. No conjunto de sua biografia não é relevante ele não ter finalizado a última corrida da carreira.

Mas, para nós astrólogos, é um prato cheio. Ele tem o Sol a 28´20 de Leão, o grau exato do eclipse solar total que ocorrerá no dia 21 de agosto deste ano, no grau 28´53 desse signo (21/08/1986, Falmouth, Jamaica).

Eis uma manifestação explícita do eclipse solar cuja interpretação e análise têm sido postadas a contento na internet.

Dois rápidos comentários podem ampliar nossa perspectiva acerca desse evento para o grande atleta. O primeiro, algumas vezes repetido diz que essa falha mostrou que ele é humano. Isso é por trabalho e competência. O Rei Leão teve sua juba chamuscada.

O segundo vai na linha de outros comentários da mídia. Encontramos indicação de que “nas últimas três semanas, ele teve muitos problemas”.

Não encontrei esclarecimento para essa afirmação, mas sabemos que na época das competições do Rio de Janeiro, ele também tinha dúvidas de que as cãibras poderiam complicar sua participação. Na verdade, o problema que o tem acompanhado é esse: cãibras na musculatura das coxas.

Mas o momento de sua ocorrência é que nos interessa, ou seja, houve um tempo específico para que esse problema ocorresse e tivesse efeito tão forte. Ainda que não diminua o talento nem minimize suas vitórias, trata-se de uma enorme frustração pessoal: malogro, desalento, insatisfação. Ou seja, para ele significou uma experiencia maior pois além do eclipse propriamente dito, observamos que ele tem um quadrado entre Sol e Saturno que também é ativado. 

Para ele, trata-se de um fato desagradável a ser elaborado nas esferas pessoais. Para nós, mais um fato a comprovar a força dos eclipses e de seus efeitos. 

quinta-feira, 27 de julho de 2017

A CAMINHO DE PARIS E DO FEMININO

Ana Maria M. González

Eleanor Coppola que é escritora e cineasta conhecida por documentários, resolve fazer um filme de ficção. O que levaria uma pessoa já com expressiva obra desenvolvida a inovar aos oitenta anos? Vale lembrar outros dois cineastas octogenários com filmes recentes: o nosso Domingos de Oliveira com 80 anos dirigiu Barata Ribeiro, 716 e Alejandro Jodorowsky (chileno) aos 88 anos fez Poesia sem fim. Cada um no seu estilo, fizeram filmes com aspectos autobiográficos. Terá ela também desenhado esse caráter subjetivo em PARIS PODE ESPERAR?


NO CAMINHO PARA PARIS






Anne (Diane Lane) é uma mulher bonita em um papel irrelevante em seu casamento com Michael (Alec Baldwin) com quem não tem muito diálogo. Um distúrbio no ouvido a faz aceitar o convite de Jacques (Arnaud Viard) viajar por terra até Paris onde se encontraria com o marido. Essa é a base para o filme PARIS PODE ESPERAR.

Em um carro velho e com problemas, ambos fazem o percurso com muitas paradas para visitas interessantes, entre comidas e muitas taças de vinho. A sedução faz parte do temperamento de Jacques e é aspecto da cultura francesa colocada nesta narrativa intencionalmente ao lado da americana. A diferença entre tais hábitos e preferências culturais é e será sempre tema com possibilidades divertidas.

Jacques, um francês sensível, escolhe locais sempre bonitos de pequenas localidades, com dados históricos ou de beleza natural, pedras centenares e sofisticação gastronômica. Um museu, uma igreja e um especial restaurante. O que mais? Alongar o tempo é preciso. Delicadas surpresas são criadas em um caminho adequado para agradar a mulher bonita que lhe caiu no colo.

Tal contexto poderia até nos frustrar por ser um tanto simples e com alguns clichês. Mas, acontecem pequenos detalhes e uma piscadela que a personagem feminina nos dá ao final do filme. Parece pouco? Só na aparência, pois essa piscadela tem significado. Ela ocorre enquanto Anne saboreia um bombom em forma de rosa, sua flor preferida e observa a correspondência recebida que inclui um maço de notas, que cumpre uma promessa feita pelo galante companheiro de viagem.

Trata-se de um momento único de muito prazer consigo mesma. Um tipo de experiência solitária bastante diferente daquela solidão que ela experimentava no início do filme. E essa piscadela que nos faz cúmplices, surpreende e é um recado da diretora. Da ficção somos remetidos diretamente para nossa realidade. A diretora transpassa limites.

A OBRA EM ANDAMENTO

Eleanor Coppola é conhecida pelo registro do trabalho de seu marido e filhos em documentários, especialmente pelo documentário a respeito de Apocalypse Now em 1991, Hearts of Darkness: A Filmmaker's Apocalypse (junto a outros dois diretores). Por que motivo já octogenária ela se poria a dirigir um filme de ficção? O fato de ser esposa de Francis Ford Coppola e mãe de Sophie Coppola não justifica nada. Poderia até ser um empecilho. Repito a pergunta: o que ela está querendo expressar?

Pode ser um recado para nós, mulheres. A personagem é mimada por um homem gentil no percurso de uma linda viagem, tendo ao mesmo tempo a companhia do marido ao telefone, como sempre distante, porém neste momento enciumado. Será que ele está agora enxergando a esposa?

A personagem vê-se dividida entre um marido para quem tem que cuidar das meias na hora de fazer malas e um possível amante meio desajeitado em questões pessoais. Confuso e às vezes, paradoxal entre telefonemas dissimulados, sumiços idem. Posturas até questionáveis e que podem passar ao largo. Ambas situações com estes homens não são perfeitas. Com uma postura paciente e feminina, ela observa. E talvez tenha se percebido mulher duplamente desejada. Novas oportunidades de relacionamento?

De um lado o marido rico e bem colocado na vida, de outro, o sedutor um tanto enrolado, mas com muitos recursos para tornar cada instante a seu lado uma festa de prazeres. O que essa personagem feminina fará? Aceitará o convite para um futuro encontro com o francês? Recolocará o casamento com um marido mais atento? Largará um ou outro?

Neste momento do século XXI em que muitos feminismos aparecem, em formas antigas e outras mais contemporâneas, nós, mulheres, somos convidadas a nos pensar como parceiras e como pessoas independentes. A personagem observa ao mesmo tempo os movimentos dos dois sem se perder. Que liberalidades ela pode se oferecer junto à certeza de ser ela mesma?

A piscadela de Anne ao final do filme, em meio a um bombom de chocolate e um maço de notas, abre uma cumplicidade conosco como se uma opção tivesse disso feita ou uma compreensão atingida. Não nos é apresentada uma decisão. A pergunta está feita e cabe a nós a resposta.

O filme apresenta sofisticação e encanto. E isso faz a diferença em um universo cinematográfico normalmente cheio de efeitos especiais, bombas explodindo e carros voando. A beleza é um dado fundamental assim como o prazer fundamental para a vida. Em um contexto feminino, Eleanor nos fala possivelmente de sua experiência como mulher, embora não de sua biografia como os dois diretores citados. Pelo menos não explicitamente.

Por tudo isso, não deixem de assistir a esse filme. Parceiras e parceiros, por motivos opostos, todos devem passar por aquela piscadela. Se possível, procurem depois do cinema por uma confeitaria e mordam pelo menos um bombom de chocolate, se possível em forma de rosas. E não esqueçam de compor um quadro na imaginação com alguma imagem de Paris. Esse detalhe fará tudo perfeito.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

A INCRÍVEL HISTÓRIA DOS BANQUETES IMAGINÁRIOS

Ana Maria M. González

Tive oportunidade de assistir no festival Ciranda de Filmes (Maio2017 SP) a um documentário que tratava de cadernetas de receitas culinárias elaboradas em campos de concentração. Como assim?, eu me perguntei, quando li a síntese do filme que tinha por título BANQUETES IMAGINÁRIOS. Muito longe de ser ironia, esse documentário me conduziu a descobertas maravilhosas a respeito da capacidade que o ser humano tem de superar um estado de caos e de absurdidade.

O COMEÇO DE TUDO   
 
Tudo começou quando a jornalista e cineasta francesa Anne Georget (1962) entrou em contato com a história de Anny Stern que recebeu no começo dos anos 70 um pacote contendo cartas, fotos, e sobretudo uma caderneta de receitas culinárias de sua mãe, MinnaPächter, falecida em 1944 no campo de Terezin. O pacote foi-lhe passado por um desconhecido. As páginas da caderneta eram delicadas e costuradas de forma frágil. Foram necessários cerca de 25 anos para que essas relíquias chegassem a seu destino.

Impressionada por tal história, a jornalista foi atrás de mais dados, tendo inclusive se encontrado com o neto de Minna nos EUA , David Stern. Escreveu, então, com ElsieHerberstein um livro a respeito do assunto, Lescarnets de Minna, nas ÉditionsduSeuil. E fez um primeiro documentário.

A divulgação desses trabalhos gerou fatos inesperados, abrindo espaço para outras descobertas que se mostraram mais surpreendentes ainda.

Segundo as palavras da jornalista, em janeiro de 2009, ela recebe uma carta de Emile Letertre, que tendo lido seu livro sobre as receitas de Minna, resolveu lhe contar acerca de 470 receitas de cozinha escritas por seu pai Marcel, morto em campo de concentração. De novo, ela entrava em contato com essa estranha união entre campos de concentração e cadernos de receitas. E, desta vez, com o registro feito por homens, o que também era pouco provável.

O gosto pela gastronomia na Europa seria o dado que justificasse esses cadernos de receitas nesses grupos? Esse argumento não se sustentou porque logo apareceram relatos de outros cadernos em gulags russos (campos de trabalhos forçados dos presos políticos) e em prisões de guerra no Japão. O sargento Stewart que Anne Georget encontrou no Alabama (EUA) e permaneceu por três anos e meio em Kawasaki, perto de Tokyo, fez cadernos com listas de sopas, de legumes, de sobremesas, de bombons, de pães. No conjunto que se foi formando dessas cadernetas estão presentes receitas de regiões diferentes, de família, especiais para festas religiosas e sociais, de tudo o que socialmente vivemos à volta da mesa de refeições.

O desenvolvimento natural desse trabalho de muitas descobertas de Anne Goerget a conduziu a outro documentário. Foi esse segundo filme que me moveu a ir buscar coisas na internet e a escrever este artigo. Esse segundo filme é mais completo e com depoimentos de profissionais de várias áreas: chefes de cozinha, historiadores, neurocientistas, filólogos, linguistas e etnólogos. Todos se esforçando na tentativa de abarcar com suas análises e interpretações as prováveis explicações para o fenômeno. Delicado e instigante.

Por que uma literatura desse tipo em situação de guerra e aprisionamento?, se pergunta a pesquisadora. Por que motivo essa ação de memória e de recolha em um contexto de tanto sofrimento por fome? Lembrar receitas é, sem dúvida, coisa que todos podem fazer sem necessidade de formação profissional especial. É um evento universal para homens e mulheres, de todas as idades, de todas as regiões e culturas. Todos temos memórias de comidas, de comemorações à volta da mesa de refeições. Mas, há mais, muito mais atrás desse mistério.

Sustentando o absurdo e o caos

Ao longo dos anos, desde a primeira notícia dos cadernos de Minna, a pesquisadora foi descobrindo outros dados o que tornou tais cadernos objeto de mais amplos questionamentos. Era um fenômeno que se repetia em vários locais e com pessoas de várias culturas e idades. Disse a jornalista:  “Entendi que este era um fenômeno que precisava ser explicado melhor: em face da aniquilação, o homem retém tudo aquilo que o define. ”

Enquanto eu acompanhava tais explicações ia também procurando sair do estado de pasmo em que estava. Aturdida, chocada, o que mais? Nunca saberemos como é estar em uma prisão de guerra ou em um campo de concentração em um estado de fome imensa e sem esperança de vida, em condições terríveis, por serem locais especialmente preparados para a morte.

Mesmo assim, houve grupos que se juntaram para tentar sobreviver a esses horrores a partir de momentos de partilha em vários cantos do mundo.

No contexto de absurdidades dos campos de concentração, as receitas talvez lembrassem uma possibilidade de paz, de organização ou de sequência ordenadora. Talvez também trouxessem um pouco de liberdade em contextos de aprisionamento em geral.

No documentário, uma voz sussurrada vai lendo os nomes das receitas doces e salgadas e seus ingredientes, temperos e detalhes culinários populares ou sofisticados. Na verdade, cada palavra representando um segredo para a manutenção da vida. Vozes baixas em comunicação proibida ditavam as receitas para todos de um grupo capenga, manco, imprestável fisicamente, mas teimoso, insistente muito vivo e atento se segurando uns aos outros para o básico e essencial.

O que mais há de haver? Deve haver mais. Talvez um sistema que na natureza humana vai além de nossa capacidade racional e mental de compreensão, dentro dos campos do imaginário e do simbólico a que só temos acesso quando nos abrimos para ele em condições especiais. Acionando talvez processos bioquímicos do cérebro como diz Antônio Damásio? Sim, mas tais explicações científicas ainda são palavras. Difícil acreditar. Impossível saber como. Estamos lidando com possíveis depositários de nutrição para o espírito e até para o corpo, canais desconhecidos para nós até o momento em que precisemos deles.

Não podemos determinar cientificamente a extensão do desespero causado pela fome. Nem o inalcançável poder da imaginação como possibilidade de superação no empenho pela sobrevivência. Os grupos se juntam para o essencial reproduzindo tal busca em cadernos de receitas, o que segundo as palavras de Anne Goerget, retém, face à aniquilação, o que os define. A comida, a força do grupo, os olhos nos olhos? Ignoramos o que está oculto nessa mobilização de recursos humanos para a vida. Um mistério insolúvel.

Vivo uma sensação de pequenez e de ignorância perante estes fatos.  Por mais que eu elabore estas ideias, abrindo bastante o leque de vazios possíveis para que possam nele caber o que eu não sei, minha admiração por estes banquetes imaginários não diminui. Experiência que comporta um misto de sentimentos que vão de dor, sofrimento e até uma estranha beleza. Um encontro justo em relação à grandeza insondável da natureza humana.

PS: Para escrever este artigo levei em conta as informações do filme Banquetes Imaginários, pesquisas na internet e a palestra TED La Rochelle de Anne Georget , cujo link passo em seguida:https://www.youtube.com/watch?v=qjQmctQPjeI




segunda-feira, 5 de junho de 2017

PATERSON, OU A POESIA DO SIMPLES

Ana Maria M. González


O filme PATERSON de Jim Jarmusch dá espaço para a LITERATURA e é cheio de delicadezas. Já ouvi alguém dizer que ele fala de nada. Talvez falte a essa crítica olhos de ver e de sentir. Na verdade, trata-se de outro tipo de cinema chamado independente. Fui buscar o que significa esse conceito. Fui conhecer mais acerca do diretor Jim Jarmusch. Iremos então ao filme e, principalmente, à poesia. 


JIM JARMUSCH E O INDIE MOVIE

Sim, esse filme é diferente daqueles ligados ao circuito comercial. Normalmente são filmes de baixo orçamento para os padrões de Hollywood e baseados em boa atuação dos atores, com roteiros elaborados e temas nem sempre convencionais.

Lembra-se do filme PEQUENA MISS SUNSHINE? Pode ser considerado desse tipo. É filme inteligente e fora dos padrões de filmes mais comerciais. Em geral, tais filmes são produto artístico de alguém que se dá liberdade de expressão e como passam ao largo dos apelos do grande público não são incluídos nas redes da indústria cinematográfica. São também chamados cinema underground, alternativo ou indie movie.

Pois é dentro desse conceito de liberdade que Jim Jarmusch fez PATERSON. Esse diretor tem longo histórico no cinema, ganhou prêmios, mas não é muito conhecido do grande público. Em seus filmes há sempre algo de imponderável, um pouco fora de uma lógica racional.

PATERSON também traz esse traço. Nele assistimos a pequenas ações banais em meio à rotina do dia-a-dia. Não há grandes efeitos ou feitos de herói. Mas, nessa banalidade toda, há detalhes interessantes e sensíveis que necessitam de olhos para ver mais e melhor.

PATERSON


“Quando você é criança, aprende que o mundo tem três dimensões,
Altura, largura, profundidade,
Como uma caixa de sapatos.
Então depois você fica sabendo sobre uma quarta dimensão
O tempo.”  Paterson


O relacionamento com a companheira é feito de diferenças e muito amor. Enquanto ele leva a vida como ela vem, a esposa se movimenta, deseja, cria e inventa produções de música e comidas. Tudo em um estilo muito particular. Temos um cachorro carismático, que não gosta dele. Mas ele também acaba confessando que não gosta do cachorro. Ponto para o cachorro que consegue tirar Paterson de seu conforto.

Temos um bar, seu dono com muitas histórias para contar. Frequentadores que jogam xadrez. Um homem em crise no final de um relacionamento. Na parede, uma coleção de fotos e recortes de jornais das personagens da literatura, música e cinema dessa cidade.

Um rapper que treina sua composição musical em uma lavanderia. Uma garota de onze anos, que também tem um caderno secreto de poemas e se espanta por Paterson conhecer Emily Dickinson. Casais de gêmeos se repetem. O assunto do assédio das mulheres aos homens nos coloca um sorriso na boca por mais esse traço de humor e de ironia sutil.

Assim como a mudança dos dias também a criação de seus versos é indicada por lettering. Eles vão formando poemas, lidos pela voz de seu criador. Vamos seguindo essa composição, verso por verso. Ficamos esperando por seu aparecimento pipocando na tela.

Acompanhamos Paterson que se mistura nos movimentos da cidade. Ambos têm o mesmo nome. Essa personagem é a força da narrativa. Tudo gira a sua volta.

POESIA AQUI E ALI

PRELÚDIO AO INVERNO
A mariposa sob as goteiras

com asas como
a casca de um tronco, estende-se
e o amor é uma curiosa
coisa suavemente alada
imóvel sob as goteiras.


 Williams Carlos Williams.

Os poemas vão sendo completados pouco a pouco. De manhã, enquanto espera a ordem para sair com o ônibus ou na hora do almoço, olhando a paisagem. Seus olhos pairam e parecem focalizar a ponte e a queda d´água. Viria daí a inspiração que faz coisas comuns se transformarem em versos e poemas em caderno acomodado nos joelhos? Ou ainda, à noite no porão de sua casa.

Em um caderno secreto, ele vai escrevendo nesses momentos que me parecem ser mais do que intervalos. Na verdade, cada um desses tempos de seu dia é muito esperado para esse exercício de reflexão acerca das coisas comuns. Nelas, ele encontra algo maior que lhes dê sentido, um significado poético e criação, enlevo estético.

São tempos de abstração em que o poeta vaga longe achando em um vazio o que estava procurando. E as palavras vão se acomodando no branco da página em alinhavos de poesia.

Sim, nesse filme temos poemas escritos e muita poesia dispersa aqui e ali. Misturada à realidade urbana, como nos versos de Williams Carlos Williams (1883-1963), modelo e poeta preferido de nossa personagem.

Paterson é também o nome de um longo poema em que esse poeta teria expressado “a semelhança entre a mente do homem moderno e a cidade”. Esse poeta modelo viveu a época em que as cidades ganharam impulso. Sua poesia tinha a “capacidade de transformar todo assunto ou objeto em matéria poética”, com imagens visuais, inglês coloquial e viés modernista. Como os versos de nossa personagem.

Nada é inocente na obra de um grande diretor de cinema e as ideias vão se juntando e revelando um rico universo literário. A repetição do nome da cidade na personagem, que também é nome de poema desse poeta várias vezes citado.

Estas aproximações não são coincidências. Nelas encontramos a expressão da genialidade de Jim Jarmusch que juntou a obra do grande poeta americano, o elogio da vida de uma cidade pequena, a história de uma personagem que é feliz no seu modo de vida simples. E em meio a tudo isso, o louvor à literatura e à poesia.

Temos muita poesia inserida delicadamente na tela do cinema quando os prédios da cidade, suas ruas e pessoas nas calçadas se revelam nos vidros do ônibus – cidade, pessoas, motorista e ônibus, tudo misturado. Ou de forma mais evidente quando as águas caudalosas da imaginação invadem os versos que estão formando poemas. Movimentos enormes de água como metáfora do intenso sentimento pela mulher amada.

Jim Jarmusch utilizou todos esses recursos para expressar uma maneira de experimentar a vida e de fazer cinema. A personagem diz: Eu respiro poesia. Confissão redundante e quase desnecessária.

Eu identifiquei algumas situações em que vi poesia. Você poderá identificar outras, pois a experiência poética é particular e subjetiva. Dizem que requer paciência e treino de olhar. Será? Por exemplo, como interpretar que o japonês com quem Paterson se encontra nas últimas cenas do filme tenha lhe dado um caderno para escrever poemas? Sem saber, ele estava completando uma falta importante na vida de nossa personagem. Coincidências da vida? Magia dessas inexplicáveis que acontecem? Ou terá sido apenas mais um sinal de poesia?  
Pode ser, sim. Poesia da vida.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Astrologia nos canais de Tele 900: a era de Walter e seu mercado

Clarissa De Franco


O figurão Walter Mercado, sucesso de 1996 a 1999.
A década era 1990, período que entrou para nossa História como o início do acesso da população à Era Digital. Eu tinha apenas pouco mais de uma década de vida e me maravilhava com a sedução daquele mundo que se abria. Não só a internet ampliava seu alcance em termos midiáticos, os telefones móveis também começaram a se popularizar naquele momento (dá para imaginar nossa vida sem a internet e o celular?!). Dentro desse contexto de boom midiático, muitas empresas e canais de TV passaram a anunciar canais de atendimento telefônico, por meio dos quais eram comercializados vários tipos de serviços e informações. Eram os Tele 900. Quem não se lembra dos famosos canais de Tele Sexo? Do bordão “Ligue Jdá”? De todo este período em que fantasiávamos ter acesso a tudo em um telefonema? 

Uma prática usual das empresas que ofereciam os serviços de Tele 900 era cobrar um valor fixo por minuto dos usuários. Esses valores, variados, chegavam a ostensiva quantia de cinco reais por minuto! As opções de serviços eram muito diversificadas, desde Tele 900 da Turma da Mônica – no qual se podiam ouvir histórias que não estavam nos gibis – os canais de Tele Sexo e Tele Namoro – bastante conhecidos na época –, e os serviços de Astrologia e comércio esotérico em geral, dos quais falaremos neste breve artigo. Podemos dizer que o Tele 900 foi o pai dos aplicativos modernos, já que possibilitava ao consumidor que usufruísse dos serviços de modo particularizado, no seu tempo, à distância e de seu próprio aparelho e residência. 

Nesse frisson, uma dessas empresas a oferecer serviços Tele 900 para Astrologia foi a Vimeltary Prestação de Serviços de Telefonia e Assistência, que tinha o nome fantasia de Tele Futuro e era provedora de tecnologia para o funcionamento do "Disque Mãe Dinah”. Nesse momento, o serviço astrológico era oferecido ao lado de outros como tarô, runas, baralho cigano, uma espécie de rol esotérico à disposição dos dedos dos usuários.

Outro canal de mesma natureza que adquiriu sucesso estrondoso foi o do porto-riquenho Walter Mercado, figura cujo carisma até hoje o faz ocupar a mídia, sendo conhecido em muitos países da América por uma miscelânea de atributos, dentre eles sua aparência andrógina, e, na época dos serviços no Brasil, era lembrado pelo já citado bordão “Ligue djá”. Walter Mercado foi um fenômeno construído midiaticamente. Ele veio poucas vezes ao Brasil e emprestava seu carisma místico ao nicho que rendeu sucesso até o fim da década de 90. 

Nosso colega astrólogo Guilherme Salviano, contou em gentil depoimento, que havia, na central de atendimento em que ficavam os atendentes da empresa de Walter Mercado, um mural com as fotos do porto-riquenho ao lado de celebridades, como Bill Clinton e Madonna, para quem teria prestado serviços astrológicos. Uma clara referência à manutenção da imagem de um ícone produzido para impressionar.

Em uma reportagem do Jornal Folha de S. Paulo de 1996 (disponível emhttp://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/9/29/cotidiano/23.html),conta-se que em poucos meses de atendimento, a equipe do Walter Mercado já se compunha de cerca de duzentos “videntes” (assim foram chamados os profissionais atendentes pela matéria), contando com quase três mil ligações diárias feitas por usuários. Um mercado milionário. 

O colega Maurice Jacoel, que atuou nesses serviços, afirmou em entrevista para o site Constelar que os empresários desse ramo costumavam chamar os atendentes profissionais de “místicos”. Em tom crítico ao aspecto mercadológico do trabalho e às condições em que se encontravam os profissionais geralmente com vínculos trabalhistas frágeis, Maurice enfatiza que o prestígio dos atendentes era “determinado pela sua capacidade de fazer com que os atendimentos gerem (gerassem) mais e mais minutos” (http://www.constelar.com.br/revista/edicao00/mercado2.htm). Podemos pensar que os termos “vidente” e “místico” reforçavam a aura esotérica em torno dos profissionais do Tele 900 astrológico, garantindo uma distância entre atendentes e atendidos, uma espécie de “abismo iniciático”, algo bom para os negócios. 

Walter Mercado, embora tenha empreendido o maior negócio astrológico de Tele 900 em São Paulo, vinha pouco ao Brasil. Sua importância consistiu na criação de um importante mercado em Astrologia, tanto para profissionais da área quanto para o público. Sua empresa operava na região da Avenida Paulista, em São Paulo, em um prédio que também foi ocupado por outras empresas da área, como Disk Dione Forti. 

Guilherme Salviano, que atuou em vários destes serviços, afirmou que os astrólogos e astrólogas eram, na verdade, minoria entre os atendentes, sendo muitos deles profissionais de outras áreas, mesmo em serviços que levavam nomes de astrólogos. “Numa proporção de 100, no máximo 20 eram realmente consultores de mapa astral por telefone. A maioria atendia ao telefone e oferecia consultas de tarô, baralho cigano, numerologia e alguns até jogavam búzios”, disse Gui Salviano. Ele também nos contou sobre o software utilizado na central de atendimento de Walter Mercado pelos profissionais astrólogos/as: VegaPlus 5.0.

Mãe Dinah, em imagem que reforça a alcunha de “vidente”. 
Além dos já mencionados Tele Futuro, da Mãe Dinah, “Ligue djá” de Walter Mercado e Disk Dione Forti, outros grupos também atuaram nesse ramo, como o Instituto Omar Cardoso, Norma Blum e seus Magos, Mystical Line e, no Rio de Janeiro, Leiloca Conections.

Nosso colega Guilherme Salviano contou ainda que estes serviços começaram, no início da década de 90 como “ apenas Horóscopos gravados, o qual, através de um número especifico você ouvia sobre seu signo. Normalmente uma numeração com final 01 para Áries, 02 para Touro e assim por diante”. Com o passar dos anos, no entanto, estes serviços foram se expandindo e adquirindo outros formatos e as oportunidades de ganhos para profissionais de astrologia aumentaram significativamente. 

Além dos canais de 0900, que atingiam o público nacional, tínhamos os serviços de números sem o zero inicial, os canais estaduais, que começavam por 900, como o Mystical Line e Linha do Futuro. Eram comuns para estes canais, anúncios em revistas.

Os mesmos investidores que apostaram em Walter Mercado, cuidaram de divulgar o Disk Dione Forti, Tele 900 da astróloga Dione Forti, que apresentava o programa Alto Astral nas manhãs da Rádio Bandeirantes, além de falar sobre mapa astral de ouvintes e citar o Horóscopo diário. Sua empresa passou a operar no mesmo prédio em São Paulo onde funcionava o atendimento da empresa de Walter, onde também chegou a operar o serviço do astrólogo Oscar Quiroga, pouco tempo antes. Para termos ideia da abrangência física desse fenômeno, um prédio em São Paulo chegou a ocupar três andares de call center de serviços de Tele 900 em astrologia e esoterismo. 

Além da Dione Forti, outra mulher a gerenciar um Tele 900 de Astrologia foi a atriz e astróloga Norma Blum, conhecida pelos seus interesses em assuntos de meditação e misticismo. Segundo depoimento do colega Maurício Bernis, Norma Blum teria sido assessorada tecnicamente pela International Society of Astrology Research (Isar), instituição que emite certificação internacional para astrólogos e cuja reputação é bastante conhecida no meio astrológico.

Não podemos deixar de citar dentre estes sistemas, o Instituto Omar Cardoso, no qual prevaleciam os atendimentos astrológicos, e era administrado pelo filho de Omar Cardoso, um famoso radialista (o pai), divulgador da Astrologia em décadas anteriores.

Foto cedida pelo colega Maurício Bernis.
O colega Maurício Bernis, que foi gerente técnico do Instituto, nos concedeu depoimento, indicando que o minuto da ligação em 1999 era de R$ 4,95. As técnicas utilizadas pelos profissionais na época eram as tradicionais: mapa astral, revolução solar, trânsitos... Também nos contou que o público-alvo desses atendimentos era, em maioria, de classe média e classe média baixa, do interior do Brasil, em função da falta de acesso que havia em muitos desses locais aos serviços astrológicos. 

Embora no Instituto Omar Cardoso os serviços astrológicos eram de fato realizados por astrólogos, Mauricio Bernis, assim como indicou Maurice Jacoel de modo bastante contundente, também contou que a credibilidade desses serviços era duvidosa e que começaram a surgir críticas, inclusive da própria mídia sobre a veracidade dos atendimentos. Nessa reportagem de 1999, podemos verificar um processo contra Mãe Dinah e sua equipe do Tele Futuro com a acusação de estelionato e formação de quadrilha, movido por uma usuária que teria se sentido prejudicada e enganada. (Reportagem disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff24079921.htm).

Depois de algum tempo de conhecimento do público sobre estes serviços, alguns astrólogos e astrólogas passaram a ter linhas pessoais de atendimento, operando de sua própria residência, como forma de premiação por terem sido os que mais atendiam nas empresas de Tele 900 ou como iniciativas particulares.

Após a privatização dos serviços de telefonia iniciada em 1999, os canais Tele 900 foram extintos. Apesar do pouco tempo de existência, seu legado para a Astrologia não pode ser desprezado, já que muitos astrólogos e astrólogas fizeram daquela experiência um degrau para os próximos níveis da carreira. O treinamento intensivo do Tele 900 exigia dos profissionais de Astrologia um enorme traquejo para comunicar os conteúdos astrológicos de forma resumida e acessível.  

Dione Forti, que atuou na TV Mundi.
A despeito das críticas sobre o tipo de trabalho astrológico feito nas empresas de Tele 900, do aspecto mercadológico que por vezes pode ter prejudicado a qualidade dos serviços e, em especial, a reputação da Astrologia, terminamos este breve texto, com a expectativa de que esta intensa e breve faceta do campo de atuação da Astrologia no Brasil seja reconhecida como parte da trajetória em busca de uma melhor profissionalização de nossa área, maior inserção, divulgação e, acima de tudo, um exercício de utilização das tecnologias e das mídias disponíveis na época para fins de aproximação do pensamento e da prática astrológica com o grande público.

Clarissa De Franco¹
Psicóloga, astróloga e cientista das religiões

¹ Agradeço, por esta oportunidade de pesquisa, aos gentis colegas Guilherme Salviano, Maurice Jacoel, Maurício Bernis que me cederam depoimentos, à coordenadora deste projeto, a querida Ana Maria Gonzalez, e aos demais colegas que estão contribuindo com a pesquisa, além de todos os astrólogos e astrólogas que se dedicam a manter viva a trajetória da Astrologia.