quarta-feira, 29 de março de 2017

LION, UMA JORNADA PARA CASA

Ana Maria M. González

O filme LION, UMA JORNADA PARA CASA, nos conta a história de uma criança indiana que acaba sendo adotada por uma família australiana. Quando adulta, sai em busca de sua origem. Temos uma interessante biografia e ditames da vida que parece estarem por trás de tudo a despeito da vontade de todos. Seriam esses os mistérios além de nossa vã filosofia de que falou Shakespeare?

LION, UMA JORNADA E UM CHAMADO

Saroo, a personagem do nosso filme, na infância é interpretada por Sunny Pawar e na vida adulta pelo sempre simpático Dev Patel. A direção de Garth Davis é correta e a presença de Nicole Kidman é um dado a mais de graça e talento no conjunto harmonioso da narrativa. A produção australiana de 2016, mereceu as muitas indicações que recebeu para o prêmio da Academia.
A narrativa se alonga na primeira parte do filme em que descreve a vida da criança com seu irmão, irmã e mãe. Em seguida, ela se distrai dos cuidados devidos e se perde do irmão. Como estava em uma estação ferroviária, entra em um vagão e, sem ter feito esta opção, parte em uma peregrinação por cerca de 1600 quilômetros até chegar a Calcutá, capital de Bengala, onde se fala o bengalês, diferente da sua língua hindi. Por enquanto é esse o seu destino e porto de chegada.
O trabalho de câmera é primoroso e se coloca a favor da perspectiva da criança que observa o mundo em que se extraviou e em que tem que sobreviver, defendendo-se também da maldade de adultos. Até que ele vai parar em um orfanato e é adotado por uma família da Austrália.
Começa, então, a segunda parte da nossa narrativa. Ele cresce, a vida segue normal até que ele entra em contato com a cultura indiana. Desperta nele, então, a falta imensa de sua origem. Ganha força a urgência de resgatar essa família. Quando nos esquecemos da família de origem?
A partir dos instrumentos da tecnologia, passando por momentos de angústia pessoal e muitas dúvidas, ele se põe na tarefa difícil de resgatar seu passado.
O que esse filme nos mostra?

DE ONDE VEM O CHAMADO?

É longa a jornada da criança pelos momentos de desespero e de desconsolo. Depois de andar por cerca de 1600 km, ela não sabe o nome de sua mãe e o povoado em que mora sua família é desconhecido. Não tem o que comer. Passa por perigos percebidos por sua sensibilidade. Qual dado dessa realidade é mais difícil de experimentar? E quanto desse pedaço de vida permanece ou é diluído na memória quando  nos tornamos adultos e adaptados em outro contexto cultural? Será que essa experiência desaparece dos registros? Qual é o impacto que ainda pode ter em momentos futuros?
Quando Saroo já adulto se dispõe a fazer um curso de cunho profissional em Melbourne, encontra colegas indianos. O sabor de um doce específico e que era objeto de seu desejo na infância, o tira do conforto de sua situação de filho adotado. Quem já não experimentou a força da recordação de uma iguaria culinária? O doce da avó, o bolo da tia. Cor, textura e perfume nos carregam para um espaço-tempo especial. Essa convivência com os parceiros de mesma etnia abre para Saroo espaço para uma saudade.
Na verdade, ele não deixara de sentir falta de sua família.  Mas essa saudade se manifesta aguda, como se neste momento algo tivesse acordado. Como se uma espécie de relógio interno chamasse Saroo para seu passado. Ir ao encontro de sua origem torna-se urgente. Dentro dele surgem perguntas. Estavam adormecidas? Por quê agora? Sua identidade cultural e social emerge como se fossem raízes de uma força sem par arrebentando a superfície, pedindo ar.
Então, os recursos de tecnologia lhe servem de apoio nessa busca. A memória é fonte de informações e elas vão sendo reunidas a serviço do objetivo maior. Um grande esforço de resgate desses resquícios de passado é colocado em ação. Cada traço ou sinal de seu passado é recolhido com cuidado. O que sobrou da mãe amorosa e doce? Dos caminhos que a criança percorria para chegar a sua casa? A última visão da estação de trem e da caixa d´água em que se perdeu do irmão? O excelente trabalho de câmera, de foto e de sonoplastia estão empenhados na busca dessas lembranças da personagem, enterradas em algum lugar de seu subconsciente.
O esforço é compatível com a intensidade desse chamado intrínseco. A tarefa quase heroica, que pode ser em vão, não impede os movimentos de Saroo. Não há outra atitude possível. Desistir seria dar-se a algum tipo de morte.
A imagem de uma cena em meio à natureza com centenas de borboletas a sua volta, mais a imagem de um terreno em que ele tinha andado, mais um dado da sorte e ele acaba descobrindo o povoado de sua infância. O Google Earth nessa história acaba sendo quase personagem, o que acabou gerando até certa grita de parte de alguns críticos de cinema.
Quando acontece o encontro do que se buscava, há sensação de paz. As perguntas tiveram suas respostas. As pontas se reconectaram e um círculo se fechou. Tudo retomou sentido na vida de Saroo, que também teve oportunidade de entender sua presença na vida da família australiana. Temos um final feliz para um filme bonito.
Mas o que ocorreu, enfim? Que relógio interno foi esse que empurrou a personagem para seu passado? De onde vieram as razões misteriosas e ocultas que sustentaram a demanda de Saroo naquele momento? Ainda que saibamos como funciona o psiquismo e as forças emocionais profundas, não sabemos porque chamado ocorreu naquele tempo e não em outro.
São assim as motivações da vida que nos impulsionam a certas decisões. Assim é a vida, assim misteriosa e surpreendente. Como ele poderia imaginar que o depoimento de sua mãe adotiva viria ratificar sua presença nessa família? Tudo já estava escrito?
De todas esses fatos e emoções, sobra a sensação boa de que temos uma voz interna em algum lugar dentro de nós, que será mais ativa em algum tempo. Ela está lá e se nos chamar, não podemos hesitar. Haverá boas razões para esse chamamento. Confiemos. Isso não é pouco.

quinta-feira, 23 de março de 2017

CÍRCULO DE MULHERES


Ana Maria M. González 


A reunião do círculo de mulheres teve seu lugar mudado porque naquele dia o local estava sem luz. Ela aconteceu em uma praça ali perto.
Fomos chegando aos poucos e nos reunimos em um dos bancos da larga praça com árvores de todos os tamanhos. O tempo estava fechado o que colaborava para não aumentar a temperatura que o sol poderia trazer naquele final de verão quente.
A proposta inicial era falar de árvores. Uma de nós leu trechos de uma história em que uma das árvores de certa localidade, imensa, havia sido cortada. No toco que sobrara, em que se podiam deitar várias mulheres a descansar nasceriam depois outras tantas em forma de brotos que dançavam ao ar.   Como teria acontecido isso? Elas teriam surgido a partir da força que se guarda possivelmente nas raízes delas. Como assim? ...esse mistério. As raízes se unem embaixo da terra possivelmente conversando entre si e se harmonizando para cumprir a força umas das outras, na intenção do melhor de todas. Lindo, né mesmo?
Depois disso fizemos uma meditação em que passamos pelo espírito da floresta que estava em volta de nós e pelas raízes das árvores sob nossos pés nos alimentando e nos unindo. Daí seguiríamos em direção ao alto das copas por onde se pode ir ainda mais longe, ao mais alto.
Ao final da meditação, parecia que nossa reunião estava chegando ao fim, pois tudo estava em paz. Até que alguém sugeriu uma dança circular. Escolhemos então um lugar do terreno em que caberia a cena da dança. Aprendemos os passos e relembramos a música que dizia da flor do campo, do alecrim. Dançamos e cantamos com alegria. No entusiasmo dessa atividade, quisemos mais uma música. Então dançamos e cantamos Escravos de Jó, música de nossas infâncias, de todas as infâncias.

Em algum momento destas danças, um pai sentou com sua pequena filha no banco que tinha sido o nosso. Ambos ficaram olhando aquela cena rara, com certeza. Em algum intervalo, uma de nós convidou a pequena a entrar na roda. Dada a permissão do pai, aquela muito, muito jovem mulher se juntou a nós no canto e nos passos da dança.
Nos disse seu nome com olhos doces de seis anos de pura meninice. Quando eu me despedi dela, com abraço apertado, eu tive a sensação de que havíamos estado juntas muito tempo. Era quase uma saudade que se plantava naquele abraço demorado e forte. Todas agradecemos o gesto generoso do pai. 
Agora sim, nossa reunião acabara. Acabara? Não antes de trocarmos a sensação de que havíamos experimentado algo grande, épico. Nada menos do que isso. Nada menos para a primeira reunião de um ano novo que inicia. Promessa de alegria no coração, cheiro de alecrim pelo ar.
Senti que, de certa forma, fomos transformadas em fadas madrinhas de uma criança prestes a passar pelo ritual de sete anos. Feliz é esse pai que tem o registro de um vídeo que ela própria poderá interpretar em outro momento de sua vida.
Ao receber a menina, ratificamos nosso compromisso com o círculo sagrado do feminino. Ficará em nossa memória esse momento, no meio das árvores que guardam tesouros nos subterrâneos que para nós são muito vivos e presentes.
Talvez eu esteja fazendo uma interpretação livre e utilizando da imaginação. Pela força dessa imaginação (ou falta de memória) cada uma do grupo há de fazer o seu relato, sua narrativa particular. Mas alguns sentimentos, com certeza, não serão diferentes.
Importam menos os detalhes de realidade do que a sensação que se instaurou entre nós. Coincidência que o texto escolhido fosse falar de árvores em no dia que a reunião teve seu local mudado para uma praça?  Que o pai passasse por lá com sua filha no pequeno tempo de nossa reunião?
Naquele dia, aquele círculo de mulheres se aproximou das árvores e de uma menina e promessa de mulher que foi abençoada em paz com o espírito do masculino. Foi um momento de experiência extraordinária.

segunda-feira, 20 de março de 2017

O encontro da Astrologia com o Mestre: a vida de Waldyr Bonadei Fücher

Renata Fücher 

Waldyr Bonadei Fücher, nascido aos 24 minutos do dia 18 de Agosto de 1926 em São Paulo, sobrinho do pintor e artista Aldo Bonadei, trabalhou na Importadora e Papelaria A.Fücher de sua família, onde conheceu Vilma Andrade Fücher, que seria sua futura esposa. Formado em Administração de Empresas pela Escola Superior de Administração e de Negócios, ocupou vários cargos em empresas comerciais, industriais e de economia mista. Finalmente astrólogo foi fundador da Escola Regulus onde por muitos anos exerceu e compartilhou seus estudos. Este capítulo irá discorrer sobre sua vida e sobre seu legado deixado na Terra.

Casou-se em 14 de Setembro de 1957 com Vilma Andrade Fücher, e gerou dois filhos, Alexandre nascido em setembro de 1958 e Rodolfo em fevereiro de 1962.

Embora tenha comprado seu primeiro livro “Astrologia ao alcance de todos” de Maria Luisa Díaz Leisa (Ed. Pensamento 1949) em janeiro de 1950, seu primeiro contato com esta ciência foi em setembro de 1965, quando sua irmã o convidou para conhecer, uma pessoa muito especial chamada Wilhelm Fr. Bader, um grande conhecedor da Astrologia. Antes desse encontro, ele não acreditava na influência dos astros no ser humano, por este motivo, nunca teve interesse na Astrologia.

O astrólogo Bader interpretou seu mapa, e por obra do destino ou influência planetária como ele próprio dizia, iniciou-se na Astrologia. Pois nesta interpretação, Bader disse fatos que apenas ele sabia, por exemplo, a maneira como se comportava durante seus exames escolares. Fato interessante a relatar: Waldyr era o último da lista de sua sala, e quando era chamado pelos professores, respondia com a parte que havia decorado (mesmo não sendo referente à pergunta). E sempre recebeu boas notas, pois professores já estavam cansados de ouvir tantos alunos.

Bader também fez a previsão e lhe disse que seria professor de Astrologia e que seus alunos seriam na maioria do sexo feminino. Podemos já dizer aqui, que foi a previsão mais precisa!

Por aconselhamento, começou a frequentar a Fraternidade Rosacruciana de São Paulo, onde iniciou de fato seus estudos astrológicos. Sempre estudioso e ao ler muito sobre o assunto percebeu que era muito sério e interessante.

Em certa noite sonhou com Bader, e ao acordar contou para sua esposa que o mesmo lhe entregava uma chave. Devido a problemas de saúde, Bader estava internado, sendo assim ligou para hospital para ter notícias do amigo e ficou sabendo que o mesmo faleceu. Waldyr significou o sonho da entrega da chave, como a continuidade do legado de Bader.

Certo dia em um restaurante vegetariano viu uma propaganda do Instituto Paulista de Astrologia, onde se formou em nível avançado e onde também foi professor. Foi fundador da ABA – Associação Brasileira de Astrologia e do SAESP – Sindicato dos Astrólogos do Estado de São Paulo, nos quais exerceu diversas funções.

Em meados de 1975 decidiu se aposentar da carreira de administrador e seguir seu destino na Astrologia. Neste mesmo ano se registrou como profissional liberal, passou a atender clientes, a lecionar em aulas particulares e em grupos, tanto em seu apartamento como na casa dos alunos. As aulas em grupo já eram estruturadas, possuíam fichas de inscrição, presença, certificado e etc. Assim iniciou sua Escola de Astrologia.

A Escola precisava de um nome, e em uma reunião familiar e de amigos, surgiu a idéia de o nome ser referência à estrela. Ao pesquisar as estrelas, encontraram uma relação com a estrela Regulus: ela estava em conjunção com o Sol e Netuno do mapa de Waldyr Bonadei Fücher e em conjunção com a Lua e o MC de sua esposa Vilma.

Assim a escola foi denominada “Regulus, Cursos e Assessoria Astrológica”, cujo símbolo foi depois desenhado por um amigo.

Incentivado pela sua esposa, resolveu que a escola tivesse um local próprio.

Agora o desafio era achar um local. Em uma noite, sua esposa teve uma visão onde seria esse espaço de trabalho, mas não sabia exatamente onde. Um certo dia o casal estava voltando de uma escola, na avenida Indianópolis, onde Waldyr dava aulas de astrologia; o trajeto passava na avenida Vinte e Três de Maio, quando se depararam com uma propaganda imobiliária de venda de conjuntos para escritório. E então sua esposa diz: “Será esse o local onde você irá trabalhar”.  A partir deste momento surgiu o nascimento da Regulus como uma empresa.

No dia seguinte, foram até o local verificar e, dentre os 280 conjuntos lá existentes, escolheram o conjunto 71-E, comprado em novembro de 1980 onde permanece até hoje a Escola Regulus.

As primeiras turmas começaram no ano seguinte, 1981, e, em pouco tempo, a Regulus cresceu em fama e em espaço, sendo necessário comprar o outro conjunto do andar.  Dos seus ensinamentos surgiram grandes astrólogos e vários retornaram a Regulus como professores, hoje levando adiante seus ensinamentos.

Anos depois, em sua vida pessoal, Waldyr tem seu primeiro neto, Arthur Fücher nascido em maio de 1990 e dois anos depois sua neta, Renata Fücher nascida em novembro de 1992 filhos de Alexandre e sua nora Eliana, que atualmente mantêm vivo o legado.

Em sua vida profissional de astrólogo, além de professor foi conferencista em vários Congressos, Simpósios e Colóquios, organizados pela ABA, SARJ, SINARJ, ASAS, Escola Santista, Instituto Delphos, GAIA entre outros em diversas capitais do Brasil. Algumas de suas teses foram traduzidas para o Inglês, Francês e Espanhol.

Participou de algumas publicações de livros, tais como:“Astrologia Hoje: Métodos e Propostas” (Massao Ohno Editor) com capítulo ‘Astropedagogia’ (1985); “Interpretação de Horóscopo: técnicas e estilos” (org. Valdenir Benedetti) com capítulo ‘Técnica para a interpretação de Horóscopos’ (1993); “Astrologia: 12 Portais Mágicos” (org. Cleide Guedes) com o capítulo ‘Touro – Papa João Paulo II’ (2001); “Brasil, Corpo e Alma” (org. Renata Ramos), com capítulo ‘D. Pedro II e a Astrologia’ (2001) e; “Astrologia para Um novo Ser” (coord. Por Valdenir Benedetti), com o capitulo: ‘O Brasil, seu povo e seu futuro’ (2004).

Na década de 80, ministrou cursos de Astrologia em nível básico e médio em Goiânia, organizado pela sua aluna e Astróloga Jacy A.Genovesi. Neste período também manteve o curso “Básico de Astrologia por Correspondência” criado com a colaboração da Astróloga Sônia Maria de Lima, até 2006.

Em 2002 participou na elaboração da classificação da ocupação “Astrólogo” no CBO2002 (Classificação Brasileira de Ocupações) do Ministério do Trabalho e Emprego.

Também foi homenageado em 2004 pela Astrobrasil com o Prêmio Morin de Villefranche, e em 2012 recebeu uma placa do SINARJ (Sindicato dos Astrólogos do Estado do Rio de Janeiro) onde foi homenageado com o dizer:

“Waldyr Bonadei Fücher, por sua vida e obras dedicadas à astrologia. Homenagem devida igualmente por formar profissionais e acrescentar dignidade a essa arte, mesmo em épocas em que poucos a praticavam com tamanho comprometimento. O SINARJ agradece em nome de toda a classe astrológica brasileira” – Márcia Mattos (Presidente – SINARJ)

Em 2003, Waldyr precisou fazer uma cirurgia de emergência causada por uma diverticulite, iniciando os primeiros sintomas da demência de Alzheimer. Por vontade, retornou a Escola, mas em menos de um ano precisou ser afastado.


Nos anos seguintes a demência progrediu como já esperado, recebeu todos os cuidados de sua família, principalmente de sua amada esposa. Na data de 19 de fevereiro de 2012 Waldyr faleceu com 86 anos. 

Confira mais fotos de Waldyr Bonadei Fücher:













Renata Fücher é formada em Terapia Ocupacional, atualmente trabalha com idosos. Neta do Waldyr Bonadei Fücher, seu maior exemplo. Junto ao seu irmão, faz parte da 3ª geração da Escola Regulus e também participa da pesquisa sobre História da Astrologia em SP. Site da Escola: www.regulus.com.br Também é organizadora de evento anual na Escola Regulus com dois objetivos: a disseminação do conhecimento da Astrologia e a homenagem ao fundador da escola.

terça-feira, 7 de março de 2017

UM AQUARIANO DE FÉ, DESMOND DOSS

Ana Maria M. González 



A personagem do filme ATÉ O ÚLTIMO HOMEM  de Mel Gibson mostra um comportamento íntegro. Trata-se de uma personagem real. Como não temos a hora de nascimento, a intenção é verificar apenas alguns aspectos de seu mapa natal, OK? Dia 07/02/1919. Lynchburg, Virgínia, EUA. (12h para estudo)

Com convicções firmes e certeza de ser diferente dos outros, ele expressa um temperamento aquariano com certeza (Sol), reforçado pelos planetas Urano e Mercúrio também em Aquário.


Desmond Doss quer servir a seu País indo à guerra, mas sem deixar de lado as fortes questões de crença religiosa que recebeu de sua educação. Podemos supor que Vênus e Marte em Peixes em trígono à conjunção Plutão/Júpiter em Câncer são suficientes para indicar um temperamento sensível e com critérios de grande empatia o que o liga à sua comunidade e ao mesmo tempo. E uma vontade intensa de conseguir seus objetivos. Júpiter exaltado em Câncer e enfatizado pela conjunção com Plutão poderia também representar em sua vida uma autoridade superior poderosa e severa. O que lhe teria trazido o respeito rigoroso à lei divina de não matar, que seria o pecado maior segundo sua experiência.

Essa oposição essencial entre as regras militares e o que seu interior comanda, marca tudo o que acontece com a personagem. A sensação aquariana de individualidade e independência e a sensação de pertencimento a sua coletividade (trígono entre Peixes e Câncer com quatro planetas implicados) constroem o dilema que ele vive: como manter a integridade moral e ética em sua individualidade sem deixar de cumprir o que sente como compromisso com o social?

Ele consegue permissão para ir à guerra e vive o que desejava. Desmond Doss salva 75 vidas. Saturno em oposição ao Sol e ao Urano parece expressar a firme capacidade de estabelecer compromissos e realizá-los. Empatia profunda e esquecimento de si. Juntou seus argumentos inteligentes e racionais (aquarianos) nos debates com as autoridades com quem teve que se defrontar aos sentimentos de ligação com a comunidade, a um grande amor e compaixão à vida de seu semelhante (Peixes e Câncer). E todos descobrem que o soldado magrelo (fraco e covarde?), na verdade, é um exemplo para todos de crença e de afirmação de valores fundados no amor e comprometimento com a vida e o próximo. Um aquariano de fé.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

HACKSAW RIDGE, O FILME

Ana Maria M. González 

“Tenho que ser fiel ao que acredito.”
“Se você tem uma crença, você é isso.”




O título original é Hacksaw Ridge, o nome de uma aresta de monte, um penhasco de mais de 120 metros de altura localizado em Okinawa no Japão que os soldados têm que subir para avançar nos objetivos vencendo os japoneses que se multiplicam lá em cima saídos de túneis subterrâneos. Uma tarefa para homens dispostos a morrer. Guerra é isso: confronto com a morte.

Candidato a prêmios da Academia? Com certeza. Filme de 2016, da Austrália, dirigido por Mel Gibson. Andrew Garfield é Desmond Doss, filho de família de pequena cidade da Virgínia, pai violento e mãe amorosa, um irmão com quem na infância brincava e brigava muito.  Ele é também o soldado que não quer empunhar a arma, por questões de fé religiosa.

Essa decisão é difícil de ser mantida e as consequências dela advindas constituem a primeira parte da narrativa. Ele faz tudo para estar ao lado de seus pares no serviço militar, mas os superiores não concordam facilmente com a ideia. Quando ele consegue a permissão para ir como médico com seu batalhão, começa a segunda parte em que ficamos sabendo como é a presença de Desmond na guerra sem arma para se defender.

E todos descobrem que o soldado magrelo que parecia fraco e covarde, na verdade, é mais do que isso.  Para registrar a crueldade da batalha, pode ter havido certo exagero do diretor no sangue espirrando dos corpos, nas cabeças voando, na fumaça e fogo se espalhando pela tela em meio a barulho imenso. Sem faltar aspectos de rituais japoneses (ops!).

Nesse espaço de luta intensa, ocorre o feito de Desmond. Ele conseguiu ao final da batalha, salvar 75 de seus companheiros de tropa que ainda estavam vivos, mas sem condições de se movimentar. De forma engenhosa e inteligente, com esforço e coragem, ele se coloca a serviço do compromisso assumido. Estar na guerra sem matar. Pelo contrário, salvou muitas vidas.

Mas, no conjunto da obra há detalhes que só um mestre do cinema como Mel Gibson poderia imaginar.

CRENÇA PESSOAL E DEVER CÍVICO

Paralelamente temos cenas espalhadas aqui e ali, em flashback que vão delineando os motivos para a intrincada decisão de Desmond. Uma sequência de fatos o conduziu a esse comportamento. Uma força maior.

Na infância, vemos dois meninos que parece gostarem de desafios físicos como subir em altas montanhas e se haverem em disputas. Em uma dessas cenas de briga, Desmond bate com uma pedra na cabeça do irmão que desmaia. Hal teria morrido? Os olhos de Desmond assustados falam de um terror interno depois que ele avistou  o quadro da parede que anuncia a lei do Senhor: Não matarás! O pior dos pecados.

A segunda vez, no limite de matar seu próprio pai, no momento em que ele se depara com a própria violência, toma sua decisão que será problema quando ele quer estar junto de seus pares na situação de guerra.

Depois do alistamento, ele vive complicações no exército com seus companheiros de batalhão e com seus superiores para poder manter sua deliberação. Argumentação inteligente e afinada não o salvam de humilhações, constrangimentos e do tribunal militar. A intervenção decisiva do pai -surpresa!- consegue libertá-lo para ir ao combate.

No campo da guerra, Desmond vai descobrir a que veio. Ao final da primeira batalha, quando tudo estava perdido e ainda sem sentido, ele conversa com Deus: “O que você quer de mim?”, pergunta. E continua, “Eu não entendo, eu não consigo ouvi-lo.”  Neste momento alguém no campo de batalha arrasado e cheio de fumaça pede: “Médico , me ajude.” Outra voz, grita: “Socorro!” Senhor!, ele entende esse chamado e mergulha na colunas de fumaça em busca de quem precisa de sua ajuda. É hora de salvar vidas.

Herói? De certa forma sim. Mas há mais do que isso na construção dessa personagem. Há indícios de uma moral cívica e religiosa que constrói um ser humano. Assistimos à integridade sustentada a alto custo. O que parecia fraqueza ou falta de coragem, surge diferente junto a uma grandeza de comportamento, ausência de reatividade, contenção emocional adequada.

Trata-se de uma personagem real que ganha no cinema a homenagem merecida. A descrição de uma biografia que é possibilidade de vermos a nós próprios. De nos percebermos em experiências semelhantes e que muitas vezes não estão longe das que nos cabem na vida. Desmond conseguiu ir atrás de seus desejos mesmo pagando caro. Quanto estamos dispostos a pagar pelo que desejamos? Quantos de nós pode ir atrás de suas crenças e objetivos? Em que colocamos nosso empenho?

E o diretor ainda nos brinda com beleza e cenas de forte apelo metafórico, adequadas à dimensão de grandeza que ele quer dar à personagem: após a guerra, o banho purificador e, após a segunda batalha, a maca sobe em direção aos céus. Um sorriso nos lábios marca a sensação -quem sabe?- da bênção libertadora. Duas cenas com elementos estéticos para significar a sensação bendita de paz pela missão cumprida.

Filmes de guerra não são os meus preferidos, pelo contrário. Em geral fujo deles. Porém este me agradou muito. Ele fala dessa personagem e de sua fé que movimentou as pessoas em torno dele. Diz o capitão: ”Os homens do batalhão não creem como você, mas eles acreditam que você crê.” Portanto, um exemplo a ser seguido por causa da firmeza de defender aquilo que o fez diferente de todos. Ele traz dentro de si convicção, a mola propulsora de ações na vida.

Tudo baseado em uma história real. Incrível não é mesmo? Biografias são sempre incríveis. 

GIRASSOL – CENTRO DE ESTUDOS DE ASTROLOGIA

Antonio Brito  


Mais do que uma escola de Astrologia, a Girassol é um centro de estudos onde o principal objetivo é ‘elevar’ o status da Astrologia, formando profissionais realmente competentes.”(Maurice Jacoel em 1989)


ORIGEM



Maurice Jacoel
Maurice Jacoel nasceu no Egito, mas vive no Brasil desde 1977. Formado em Filosofia pela USP, tornou-se astrólogo e desenvolveu nos anos 80 um tipo de Astrologia pouco conhecida na época: a Astrologia Empresarial.

Em 1987, Maurice e Constância Nader resolveram criar uma escola de Astrologia, o Centro de Estudos de Astrologia Girassol, que ficava na Rua Girassol 231, Vila Madalena em São Paulo.Os dois chegaram a fazer contato com a Secretaria de Educação, no intuito de um reconhecimento oficial do curso e da regulamentacãoda profissão de astrólogo.

A Girassol nasceu de uma perspectiva que congregava astrólogos de várias tendências e caminhos, em um espaço multidisciplinarque permitia a troca e a integração de conhecimentos.

Dessa ação pioneira participaram outros astrólogos: Sônia Barros, Maria Alice Camargo, Amâncio Friaça, Valdenir Benedetti, Henriette Fonseca, Ricardo Riseck, Ion de Freitas, Valderson, Beto Botton, Bárbara Abramo; entre outros.

ATIVIDADES DA ESCOLA




Mais do que uma escola de Astrologia, a Girassol era um centro de estudos onde o principal objetivo era formar profissionais competentes. Devido a isso, oferecia cursos de Astrologia desde o Básico para iniciantes e curiosos, até os mais específicos de Interpretação e Previsão, para os estudantes mais avançados e astrólogos.

Além de Astrologia, a escola Girassol oferecia cursos de Tarô, I-Ching e Metafísica. Havia também um curso chamado “Perspectivas Esotéricas na Estética Cinematográfica”, ministrado pelo professor de estética da FAAP Ricardo Risek, que abordava a linguagem dos símbolos contida em filmes como Blade Runner, Coração Satânico e outros.

A astróloga Maria Alice Camargo e a psicóloga Vivian Hamann Smith conduziam o Astrodrama, que era uma combinação dos conhecimentos da Astrologia e Psicodrama, trabalhado de acordo com a posição do mapa astrológico de cada participante. O desenho do mapa era feito pelo computador. A interpretação do Sol, da Lua e dos demais planetas era dramatizada por cada um, de acordo com a posição dos astros no mapa.

A ideia fundamental da Girassol era estabelecer uma integração entre várias áreas de conhecimento, mas sempre focada na formação do astrólogo e no desenvolvimento pessoal e coletivo dos seus participantes.

Cada aluno podia fazer um ou mais cursos, conforme o seu interesse, e também podia participar de palestras, vivências, workshops e outras atividades.

A Girassol era um espaço aberto não só aos estudantes, mas também a todos os interessados aos assuntos que eram ofertados: profissionais interessados em dar cursos, apresentar temas de pesquisa, seminários ou simplesmente trocar informações, podiam procurar a escola.

A escola Girassol funcionou até o ano de 1992. No entanto, seus integrantes continuam na ativa como astrólogos até hoje.










Antonio Brito é astrólogo especializado em Astrologia Clássica e Horária e participa da equipe que realiza a pesquisa na História da Astrologia em SP. http://astrologiaecompanhia.com.br/

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O MAPA NATAL DE PABLO NERUDA

O mapa do poeta Neruda tem seis planetas no signo de Câncer e o Ascendente em Peixes. A intenção deste artigo é observar como funciona essa grande quantidade do elemento água no comportamento do poeta a partir do filme NERUDA.

Pablo neruda e o filme

Pablo Neruda nasceu com seis planetas em Câncer (Sol Lua, Mercúrio, Vênus, Marte e Netuno) e Ascendente em Peixes. (12/07/1904, 21h, Parral, Chile). Em geral os filmes que lidam com biografias, descrevem os comportamentos das personagens com razoável fidelidade. Como o elemento água dos signos de Câncer e de Peixes são descritas no filme NERUDA que nos serve de ponto de apoio?

Eis uma rápida síntese do filme. Em 1948, o poeta e senador é membro de um partido político, logo colocado à margem da legalidade. O governo autoritário do presidente Videla radicaliza e inicia um tempo de perseguição ao poeta/senador e a todos que são contra suas posições. Neruda foge da perseguição do policial Oscar Peluchonneau.



O poeta canceriano

O lado político não está tão presente na narrativa do filme como a figura do poeta, que vai experimentar as situações de perseguição de que é vítima e manifestar suas preocupações com as dores do povo e com seu local de pertencimento. Em várias cenas do filme e nos textos poéticos lidos se manifesta o envolvimento com seu povo em uma especial expressão da função canceriana de se sentir parte de algo. O povo se reconhece no que o poeta escreve porque suas palavras emprestam consistência à sua luta naquele contexto perverso:

“Por estes mortos, nossos mortos, peço castigo.

Para os que salpicaram a pátria de sangue, peço castigo.

Para o verdugo que ordenou esta morte, peço castigo.”

Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,

e tiritam, azuis, os astros, ao longe”.

O vento da noite gira no céu e canta.”


Dentro dessa relação com o social, há um carinho que se distribui por todos indiscriminadamente, em todos os níveis sociais em uma reação de profunda empatia aos sentimentos dos outros. Há um olhar e cuidado quase maternais dedicado a quem dele se aproxima. A cena da mendiga que ganha seu paletó é expressiva e emocionante.

Por outro lado, quatro dos planetas em Câncer estão na casa cinco. Não são poucas as ocasiões em que ele se diverte e busca a presença das mulheres. Mas esse contato não me parece erotizado à la escorpião, mas mais como fonte de prazer – quase estético- adequado à casa cinco e ás qualidades piscianas do Ascendente do mapa.

Outra expressão da casa cinco aparece na perseguição de que ele é vítima. Ela deixa de ser uma simples perseguição e ganha contornos especiais na medida em que o poeta vai seguindo seu perseguidor, deixando intencionalmente pistas (livros), como um fio de Ariadne a indicar o caminho. Ele, que é o perseguido, acaba sendo o que seduz e amarra o perseguidor em uma armação genial.

Trata-se de um jogo, um indicativo de alguém que vive a casa cinco de forma ampla, utilizando a imaginação para criar aventura. Há sedução e artimanha. Talvez esse seja um indício do Ascendente em Peixes e seu regente na casa cinco (Marte em conjunção com Netuno). Se isso é imaginação do diretor ou verdade biográfica? Se não for biográfica é, então, genial a intuição do diretor!!!

Tal conjunção pode indicar também uma ação com instável contato à realidade e muito namoro com o perigo. Ele escapa das situações de segurança. Não quer restrições mostrando independência. Avalia mal os precipícios à volta. Na intensificação da perseguição, as situações se enriquecem de contornos aventureiros, com detalhes de fantasias. Nada mais netuniano.

Ninguém escapa, e o policial também não, do encantamento (netuniano) provocado por Neruda, seja por sua vida de protagonismo, seja por suas ações surpreendentes, seja por sua linda casa (ele montou lares em vários endereços), seja por seus textos de esperança. Todos param para ouvir suas poesias arrebatadoras. Por onde Neruda passa, ele deixa um doce rastro de sua pessoa. Todos querem estar perto dele. Ele é adorado.

As palavras de Delia, sua mulher, podem indicar a sensação(canceriana) que podemos ter ao conviver com uma pessoa como ele: “É lindo estar contigo, é como viver em um bairro com árvores. ”

Ele é o caso de uma expressão positiva de excesso de água.  Sim, a teoria descreve mais possibilidades, mas não encontramos temores irracionais ou exagerada reatividade, medos e inseguranças. Por outro lado, o lado pisciano surge como criatividade artística e elegante sentido estético. Não é rara a afirmação de que o canceriano é o órfão ou o carente do zodíaco. Não cabe em Neruda, não é mesmo? Em Neruda podemos observar uma imensa empatia aos sentimentos dos outros, coletiva e individualmente expressada. E um derramamento de sensibilidade literária (falta de limites da água) em uma obra imensa.

Há muitos símbolos que não foram analisados. Sobram perguntas: o trígono entre Júpiter/Áries (casa dois) e Urano/Sagitário (casa dez) indicativos de uma sabedoria de caráter mental e inspiradora poderia ter a função de equilibrar o excesso de água? Pode ter sido recurso importante para a realização de sua obra pelas casas do elemento terra? Saturno em Aquário na casa doze talvez não possa ajudar nessa tarefa. Pelo contrário, talvez ele apenas aguce a imaginação e sensibilidade em muitos segredos e solidão de que deve ser feita a vida de um criador da literatura. Temos ainda o trígono entre Saturno e Plutão. Esse sim, poderia gerar outras análises complementares nessa linha de busca de equilíbrio para o excesso de água. 

De nossa parte, ainda cabe uma citação do livro de Stephen Arroyo, palavras de um erudito chinês do século XI: “Entre todos os elementos, o Sábio tomaria a água como seu preceptor. A água é submissa mas conquista tudo. “ (*) Pode ser que Neruda seja exemplo dessa maestria. Ele esteve a serviço e conquistou a todos.

Eis mais alguns versos do poeta repetidos em várias cenas do filme, para sentirmos um pouco mais desse universo aquático e estético em que ele se move:“Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

(*)(Astrologia, Psicologia e os quatro elementos, SP, Editora Pensamento, 1993, p. 111).

Caso queira mais informações a respeito do filme NERUDA, entre no link a seguir: http://coisasdoimaginario.blogspot.com.br/2017/01/pablo-neruda.html

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

PABLO NERUDA

“Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros, ao longe”.
O vento da noite gira no céu e canta.”
 NERUDA

O universo de Pablo Neruda por se situar entre a literatura e a política, sempre abre possibilidades para mais uma abordagem no cinema. De uma, outra ou das duas. O filme NERUDA privilegia qual delas? Segundo a crítica, ele passa ao largo da política e privilegia a literatura. Será?


PABLO NERUDA






‘’Por estes mortos, nossos mortos, peço castigo.
Para os que salpicaram a pátria de sangue, peço castigo.
Para o verdugo que ordenou esta morte, peço castigo.”
NERUDA

O filme chileno NERUDA é dirigido por Pablo Larraín se passa em 1948 e apresenta Pablo Neruda (1904-1973) como senador e membro de um partido político que será logo colocado à margem da legalidade. O governo autoritário do presidente Gabriel González Videla radicaliza e inicia um tempo de perseguição aos que são contra suas posições. O povo e a figura do poeta sofrem com isso. Porém, ele tem saída e inicia uma fuga da perseguição que é montada para prendê-lo. Esta é a história do filme cheia de cores e de lances de aventura.


Neruda (Luis Gnecco) e o policial Oscar Peluchonneau (Bernal) encarregado de prendê-lo, entram em um jogo que vai além das ações esperadas por suas funções. Tal perseguição ultrapassa as intenções políticas e ganha um colorido literário. No conjunto há momentos de humor e ironia, muita leitura de poesia, muita poesia nos diálogos. Linda fotografia.

O cenário político tem presença importante, mas é a poesia que ganha relevos em todos os passos dessa história. O que o poeta escreve tem como objetivo as dores de seu povo, que se reconhece em seus versos que expressam ideais, dando consistência à luta pela sobrevivência em um contexto perverso. Essas funções dos versos são claramente demarcadas nas situações.

Mas, há também uma crítica indiscriminada a poetas e a atores políticos, da esquerda ou da direita e que nos põe a repensar conceitos. Todos são igualados abrindo espaço para nossa reflexão: “A esquerda chilena, são felizes, intelectuais, viajam, voltam felizes.” ; “A higiene é um hábito burguês. Não limpar é um ato político”; “Os comunistas não gostam de trabalhar.”; "Poetas pensam que o mundo é algo que imaginaram”.

A PALAVRA E A LITERATURA

A história central da perseguição vai se transformando e ganhando os contornos de um jogo ou de uma performance em que os protagonistas trocam sinais que somente eles entendem.

Oscar encontra o primeiro livro deixado na máquina de escrever com a dedicatória simples e direta: “Venha nascer comigo, irmão policial.” Um chamariz, uma isca. Oscar não consegue escapar do jogo armado por Neruda.

O policial sente um encantamento pela casa, pelos textos, pela vida do poeta. Escuta a confissão do cantor da casa noturna, um milagre! Percebe que a adolescente pedinte da rua ganhou o paletó do poeta e outro livro. Por onde Neruda passa,  deixa um doce rastro de sua pessoa.

Todos querem estar perto dele. Ele é adorado. O convite diz para ele: vem nascer comigo, irmão policial. Seria esse um encontro que mudaria sua vida? Dessa forma deixaria de ser o filho da prostituta rejeitado pelo pai? Deixaria de sentir a humilhação ante palavras como as do cantor: “[Neruda me falou] de artista para artista, com respeito humano. Você não vai entender isso nunca, policial”. Sairia ele da condição de habitar uma página em branco?

Enquanto Oscar vai se afundando nos versos de Neruda, vai se instalando nele uma obsessão.  Segue na tarefa de policial. Será o protagonista principal dessa história? Mas sua mente se expande em imaginação sem limites. Sonha e se confunde. Na verdade, cada vez mais, quer também se aproximar dessa personagem em que todos se reconhecem.

Até que a perseguição fracassa e a morte chega.

Mas o jogo continua em outro nível de realidade. Uma ficção? Haverá outra saída para ele? Pode ainda nascer com o poeta, iniciar outra vida de significados?

A nomeação por Neruda é a sua salvação. Ele ganha nova vida a partir da palavra falada.  Uma existência garantida pelo poder da palavra. Eis a poesia e a literatura, que dá vida e significado, que refaz o que ficou imperfeito, incompleto, sem sentido.

Assim como o poeta deu a seu povo palavras que deram sentido a seus sonhos – “poemas de fúria, de um futuro imaginário”, Neruda faz Oscar eterno. “ Sua arte me deu vida.”, ele diz.

Sim, este filme é uma homenagem à literatura e ao poeta Neruda. Seguindo os livros deixados por onde ele passa, Oscar tem um fio de Ariadne que impede o herói de se perder no labirinto. É a salvação, o poder libertador da literatura, sinais de um caminho para o desvendamento do segredo e do mistério.

As repetições dos textos por sua voz, em uma leitura com ritmo e tom próprios ao longo da narrativa, destacam o caráter diferencial da palavra poética. Essas repetições são um mantra em que ocorre o nascimento pela fala, pela palavra, ou seja, a mesma nomeação que dá nova vida a Oscar. Temos a metáfora de um renascimento a cada texto poético.

Também podemos lembrar das palavras de sua mulher Delia ao se despedir dele: “É lindo estar contigo, é como viver em um bairro com árvores.” Ou ler mais alguns versos do poema da abertura deste artigo. Ou ler mais alguns versos do texto da abertura para nos sentir mais perto de Neruda e da sensação de libertação e de vida da palavra poética.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.


PS: Visite o link  do poeta Pablo Neruda http://www.fundacionneruda.org/en , organizado a partir dos últimos desejos e testamento da viúva Matilde Urrutia. Especial é a leitura dos poemas por Neruda, cuja entonação se repete no filme em questão.