quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

CHOPIN E A MÚSICA QUE TRAZ HARPAS AO VENTO



A música de Chopin se dá por uma espécie de nebulosa ondulatória que
descortina possibilidades. Vários momentos musicais se somam
numa perspectiva de multiplicidade.
José Miguel Wisnik, O Estado de S. Paulo, 14/05/2010

Era o século XIX, o grande século em que tudo acontecia com um gosto de novidade. A revolução Industrial trazia desenvolvimento. Os salões fervilhavam. O desenvolvimento técnico do piano e a comercialização das partituras agitavam a atividade musical como nunca antes. O clima era intenso e a oportunidade, para todos.
Exilado de uma Polônia subjugada, ele encontrou logo o êxito que merecia em Paris em sua curta vida (1810-1849). E soube escapar de pressões para escrever obra épica que revelasse o espírito nacionalista de sua pátria natal. Preferiu resgatar as raízes populares em forma de mazurcas e polonaises. Além delas, compôs noturnos, valsas, prelúdios, baladas, sonatas e improvisos. Preferiu a música de salão nem sempre bem considerada, tornando-a especial, para além do virtuosismo e sentimentalismo característicos do romantismo novecentista.
Daí que a comparação com outro importante pianista de seu tempo possa ajudar na compreensão de particularidades de seu gênio. Liszt desenvolvia suas composições no estilo descritivo próprio à sua época e não falta quem o defina como mais talentoso do que Chopin. A polêmica é grande a esse respeito. Na verdade, eram ambos grandes músicos mas diferentes em seu estilo e temperamento. Chopin talvez fosse menos simpático. Ou talvez menos afeito à moda. Mas, cada um do seu jeito ajudou na composição do interessante grupo que habitava a vida cultural parisiense.
Desde os dezoito anos de idade, ele sofria de um problema pulmonar com hemoptises e febres que foram recorrentes em outras fases de sua vida até que o conduziram à morte.  Nem o cuidado de sua companheira por cerca de nove anos, George Sand e a ida para a ilha de Maiorca viver em clima melhor foram suficientes para o curar ou pelo menos diminuir suas crises.
Mas, talvez os anos de convivência com essa companheira tão especial lhe tenham dado alento para a produção de sua obra em que havia aspectos de vanguarda estética e habilidade sob uma aura de charme e sedução. Ela, que tinha um comportamento de vanguarda diferenciado em relação às mulheres de seu tempo, com sua independência poderia entendê-lo nos aspectos especiais de sua vocação.
Um viés altamente técnico estaria escondido por detrás das melodias fáceis. Um paradoxo estaria presente na obra de Chopin: por um lado, apelo à profundidade e anseios sentimentais; por outro, imparcialidade e perspectiva técnica. Ele era um compositor de música de salão e inovador. Segundo José Miguel Wisnik, professor e músico, esse aspecto de inovação implicaria em certo tipo de escuta por parte do público. Seria necessária uma percepção atenta para a descoberta dos níveis de suas invenções, arpejos e para a completa percepção da complexidade de seus arranjos. Sua arte seria acessível apenas às escutas mais refinadas.
Mas seu perfil inclui também aspectos emocionais, fragilidades e sonhos, além desses elementos mentais e técnicos. Ou seja, um rico paradoxo que o inscreve além do sentimentalismo que o tem caracterizado desde sempre. A qualidade técnica de sofisticada elaboração mental misturada a fatores menos tangíveis e ligados ao reino das emoções caracterizariam a obra de Chopin.
A partir daí, é mais fácil explicar a ligação entre Chopin e a polifonia de Bach que lhe teria servido de inspiração e que é composto de ideias e de linhas geométricas. Segundo Wisnik, Chopin teria alcançado uma elaboração diferenciada em seus estudos, gênero em que ele teria conseguido atingir a “música pura, abstrata, imparcial, perfeita”.
Há outra frase, de texto de autoria do mesmo professor, que diz: “Romântico rigoroso e extremamente exigente,/.../ esse músico fazia ciência poética com os sons, promovia viagens afetivas ao indizível e elevava os exercícios digitais á esfera dos exercícios espirituais.”.
Não poderia haver definição mais adequada para a reunião das qualidades opostas que caracterizam sua música, como temos observado: uma ligação entre a emoção e a abstração. O lado delicado relacionado aos anseios da alma e as viagens científicas de suas experimentações. Tudo convergindo para um caminho de busca maior que o adjetivo espiritual deixa entrever, nessa incrível composição integrada entre emoção e mente.  Muito além do seu tempo, com certeza.
Robert Schumann, compositor alemão também muito conhecido de sua  época, falava, a propósito de Chopin, “/.../ no efeito de harpas eólicas, tocadas pelo vento, no qual se entreouvissem melodias” . Essa metáfora descreve lindamente os arpejos das composições de Chopin. Poderia haver melhor exemplo de uma respiração mental privilegiada do que as longas sequências de notas em ondas sonoras e as sequências de arpejos em ritmo acelerado, tudo a serviço da beleza? 
Você já ouviu a música de Chopin? Já ouviu harpas tocadas pelo vento? Essa metáfora encanta pela capacidade de expressão daquilo que não podemos expressar senão pelas imagens. Palavras não dão conta de nos dizer como é a tessitura de sua música, quais são as histórias que ela nos conta nos “planos múltiplos que se entrelaçam”, em suas perturbadoras construções. Temos muitas razões para voltar às valsas de Chopin. E não somente a elas, mas a todas as suas composições.  

PS:Este texto se baseou nas informações da palestra realizada no dia 14/05/2010 na Sala São Paulo e em ensaio de publicação da OSESP, de José Miguel Wisnik.

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